Tradução de Pedro Neto:
A 'libertação' não implica liberdade: A desconfiança dos Iraquianos face às intenções do Ocidente e a história dos insucessos que leva à essa atitude
A exasperada resistência que as tropas britânicas e americanas encontraram deve ter sido com certeza uma desagradável surpresa para Tony Blair e George Bush. Pensavam que Saddam Hussein era tão impopular e estava tão isolado, que o povo iraquiano daria as boas vindas às tropas como libertadoras e os ajuda-los-iam a derrubar o regime.
Mas o levantamento popular não se materializou. Apesar de detestar tanto o regime de Saddam, uma grande parte dos Iraquianos vêem as forças da coligação mais como invasoras do que como libertadoras.
Os nossos líderes subestimaram gravemente o nacionalismo iraquiano.
Blair e Bush parecem desconhecer ou apenas ter uma visão pouco clara do papel crucial que a história do Iraque tem na forma como o povo reage ao conflito.
Os iraquianos não são uma massa inerte cujos sentimentos se possam ligar e desligar para servir a agenda de poderes exteriores.
São um povo orgulhoso e patriota, pessoas com uma longa memória colectiva. A Grão Bretanha e a América não surgem nessa memória como algo de benigno.
Blair tem dado grande ênfase ao argumento moral que está por detrás do uso da força: depor o diabólico ditador. No entanto, ao longo do século passado, a Grã Bretanha raramente se baseara em altos aspectos morais em relação ao Iraque.
Os EUA podem ainda menos reclamar a confiança e a boa vontade dos Iraquianos depois das calamitosas falhas no apoio à insurreição popular contra Saddam e os seus seguidores em Março de 1991.
O Iraque foi apenas um elemento no plano da paz dos vencedores, imposta ao Médio Oriente depois da I. Guerra Mundial, sem a mínima consideração pelos anseios do povo.
As fronteiras do Iraque foram limitadas para servir os interesses comerciais e estratégicas britânicos.
Originariamente o Iraque era constituído por duas províncias otomanas: Basra e Bagdade. Mais tarde a província Mosul, com reservas de petróleo, foi-lhe acrescentada, cortando as esperanças de independência dos Curdos.
A lógica dessa empresa foi resumida por um observador da seguinte forma:
«O Iraque foi criado por Churchill, que tinha a louca intenção de juntar duas grandes fontes de petróleo que estavam separados: Kirkuk e Mosul, unindo 3 povos fortemente separados: os Curdos, os Sunitas e os Chiitas.»
O homem escolhido pela Grã Bretanha para governar este explosivo conglomerado foi Faisal, um príncipe Nashemito vindo da Arábia, que era um dos lideres da revolta árabe contra os turcos otomanos.
Depois de os franceses afastarem Faisal da Síria e porem termo ao seu pequeno reinado, a Grã Bretanha dera-lhe o trono do Iraque como consolação. Ele impôs-se neutralizando a oposição, deportando os seus adversários e organizou um plebiscito em que foi dito sem possível confirmação que 96% da população tinha votado em Faisal para Rei.
O acordo de 1921 baseado em métodos violentos e arbitrários serviu para construir as estruturas políticas do Iraque. A característica chave deste acordo foi a falta de legitimidade: fronteiras ilegítimas, regras ilegítimas e um sistema político ilegítimo.
O acordo também introduziu sentimentos Anti-Britânicos como uma poderosa força na política do Iraque. Em 1941 Rashid Ali al-Gailani liderou uma revolta nacionalista contra a Grã Bretanha que foi dominada pela força. Em 1957 como resultado directo da perca do Canal de Suez, a Grã Bretanha testemunhara a defenestração dos seus amigos reais em Bagdade através de um sangrento golpe militar.
Em 1980, Saddam atacou o Irão. Durante os 8 anos de guerra Irão-Iraque, a Grã Bretanha e os aliados ocidentais armaram fortemente o Iraque.
O inquérito Scott de 1996 documenta indubitavelmente a grande venda de armas e o apoio militar ao Iraque feito pelo governo Thatcher.
Um bilião de libras, pagos pelos contribuintes, foram desperdiçados para apoiar e favorecer o regime de Saddam.
Estava já claramente visto que Saddam era um monstro na forma humana.
A Grã Bretanha não criaram este monstro mas fecharam os olhos a selvática brutalidade do seu regime. A Grã Bretanha também sabia que Saddam tinha armas químicas e biológicas porque as empresas ocidentais tinham-lhe vendidos os ingredientes necessários.
Saddam era conhecido por gazear na guerra Iraque-Irão as tropas iranianas aos milhares.
Não tendo submetido o Iraque a sanções internacionais isso permitiu-lhe avençar com o desenvolvimento de armas de destruição maciça.
Em Março de 1988 , Saddam atacou o seu próprio povo, matando pelo menos 5000 curdos com gás venenoso em Nalabja. Atacando civis, não armados, com armas químicas foi algo sem precedentes. Se houve uma altura para uma intervenção humanitária no Iraque, devia ter sido em 1988. Contudo nenhum governo ocidental pôs sequer a hipótese dessa intervenção. Nem sequer foi imposto um embargo de armas ao Iraque.
Em 1990 a Grã Bretanha, tardiamente, virou-se contra Saddam somente porque ele pisou os nossos calos a invadir o Kuwait. Num ponto ele tinha razão quando dizia que o Kuwait era uma criação artificial do imperialismo britânico. Mas as outras fronteiras não eram menos arbitrárias do que a fronteira com o Kuwait, assim se a fronteira podia ser mudada pela força também todo o acordo pós I Guerra Mundial podia resvalar.
O principal propósito da intervenção anglo-americana contra o Iraque não era pôr os fundamentos para uma 'Nova Ordem Mundial' mas restaurar a velha ordem. O facto de a ONU ter explicitamente autorizado a utilização da força na resolução 678 - a mãe de todas as resoluções- fez disto um exercício em segurança colectiva e deu a isto legitimidade aos olhos de todo o mundo, incluindo a maioria dos estados árabes.
Em 28 de fevereiro de 1991 Bush pai deu ordem para cessar fogo. A Grã Bretanha foi informada desta decisão sem ser previamente consultada. Os objectivos declarados da «Operação Tempestade no Deserto» foram atingidos: o exército iraquiano foi expulso do Kuwait, o governo kuwaitiano reposto. Mas Saddam mantém as suas garras mortíferas no poder.
Depois do cessar-fogo, Bush encorajou o povo iraquiano a revoltar-se, para somente o trair quando isso aconteceu. Quando o momento da verdade chegou, Bush recuou assustado perante as suas lógicas conclusões no caso da continuação da sua própria política: os seus conselheiros advertiram-lhe que uma vitória dos curdos e chiitas em luta pela liberdade podia levar ao desmembramento do Iraque.
Por trás dessa teoria estava a pessimista ideia que o Iraque não estava talhado para uma democracia e que o poder da minoria Sunita era a única fórmula capaz de mantê-lo unido. Novamente os Iraquianos foram as vítimas de um cruel crime geopolítico.
Para derrubar Saddam, não era necessário aos aliados continuarem na sua marcha para Bagdade , a minha cidade natal, teria sido suficiente desarmar as unidades das Guardas
Republicanas na curva de Basra à medida que se retiravam do Kuwait O que não foi feito. Foram autorizados a ficar com as armas, a reagruparem-se e a usarem helicópteros para assegurar a Saddam e ao seu regime a sobrevivência. Os curdos do Norte do Iraque foram esmagados e fugiram para as montanhas. Os Chiitas do Sul foram esmagados e fugiram para os pântanos.
Na chamada ao derrube do Saddam, Bush Sénior tinha em mente evidentemente um golpe militar, uma restruturação pelos criminosos sunitas em Bagdade, em vez de estabelecer uma ordem política mais livre e mais democrática. Como resultado da sua cobardia moral, aproveitou a derrota para aumentar os terríveis resultados dessa vitória.
Saddam ficou no poder e continuava a atormentar o seu povo, enquanto no Kuwait se mantém um burgo feudal.
Seguiu-se a uma guerra que foi rápida e decisiva, uma paz caótica. Poucas guerras na história tinham alcançado o seu objectivo imediato tão completo e depressa., contudo deixou por trás tantos negocias para acabar. As consequências pós-guerra foram um aviso que o usa da força militar é somente uma ferramenta torta quando utilizado para abordar complexos problemas políticos.
A guerra também demonstrou que os Americanos eram melhores em curtos eclosões de intervenção militar do que em suportar um compromisso político com o fim de apoiar a democracia no Médio Oriente.
A ingloriosa história do envolvimento do ocidente, basta para explicar por que o povo do Iraque não está a assumir o seu papel no nosso 'argumento', na libertação do seu país.
É por isso que Blair, na sua conferência de imprensa na 3ª feira estava ansioso por persuadir o Iraquiano comum que desta vez os Britânicos estavam determinados a derrubar o Saddam.
Apelou mais directamente aos muçulmanos Chiitas que constituem 60% dos 24 milhões de Iraquianos: «Desta vez não vos deixaremos ficar mal,» prometeu solenemente.
Mas é ingénuo esperar que só palavras façam esquecer a herança amarga do passado.
Dado a sua própria experiência com a opressão por Saddam e traídos pelos poderes ocidentais, é apenas normal que o Iraquiano comum prefira que ambos os lados resolvem a luta entre eles próprios.