Casa do Soito

 

Por: João Pereira

Introdução

Ao realizarmos este trabalho, procurámos elucidar sobre a sucessão histórica dos donos da Casa do Soito e do Paço dos Cunhas. Para identificar esta sucessão fomos à Casa do Soito, onde recorremos à informação de alguns livros lá existentes, bem como a informação fornecida pelo principal herdeiro deste património e também pelo actual gerente da casa.
Na nossa visita à Casa do Soito procurámos saber através das informações do gerente e do dono, o futuro da Casa do Soito.
Nesta visita podemos constatar a área evolvente da casa, e a área geográfica em que está inserida, e também o valor histórico e arquitectónico do seu interior e exterior.

D. Pedro da Cunha

D. Pedro da Cunha, era o segundo filho de D. Luiz da Cunha e de D. Arcangela de Tavora, foi escudeiro de seu pai, senhor da Casa de Santar e donatário dos concelhos do Barreiro, Senhorim, e Óvoa, foi ele o fundador da Casa del Rei D. Filipe III de Castela, quando governava Portugal. A posse destas terras foi-lhe garantida por D. Filipe III de Castela. Mais tarde D. Pedro da Cunha casou-se com D. Elvira Coutinho de Vilhena, filha de D. Lopo de Alarcão e D. Maria Coutinho. Faleceu em 1620, sendo sepultado na capela mór da igreja de S. Pedro de Santar. Deste casamento com D. Elvira de Vilhena teve nove filhos, entre os quais D. Lopo da Cunha, que viria a ter um papel importantíssimo para o desenrolar da história do Paço dos Cunhas.

D. Lopo da Cunha

D. Lopo da Cunha, era filho de D. Pedro da Cunha e viria a suceder os seus pais na Casa de Santar, foi donatário dos Concelhos do Barreiro (área compreendida entre a zona de Tondela, a zona de Nelas, Seia e Santa Comba Dão), Senhorim e Óvoa, cujo domínio lhe foi confirmado por Filipe IV, em 23 de Janeiro de 1636.

D. Lopo da Cunha casou-se com D. Violante de Menezes, filha de D. Luís de Menezes, 2º conde de Tarouca, e de sua segunda mulher D. Lourença Henriques. Deste casamento nasceu um filho, ao qual deram o nome do avô, D. Pedro da Cunha.

Com seus pais e outros fidalgos entrou em conspiração contra D. João IV. Esta conspiração foi descoberta, e com medo de represálias foram obrigados a fugir para Castela, sendo para sempre desterrados da Pátria.
Filipe IV deu a D. Lopo da Cunha o título de Conde de Assentar(Santar).

D. Pedro da Cunha casou com Francisca de La Cueva, dama da rainha D. Mariana de Austria e tiveram como filha única D. Manuela da Cunha, 2ª Marquesa de Santar. Casou com o tio D. Isidóro Melchior de La Cueva, 4º marquês de Bedmar, cuja filha D. Maria Francisco de La Cueva Cunha, casou com D. Mariano José Pacheco, 10º Marquês de Moya, os quais seriam os representantes da Casa de Santar, se não fosse a traição de seus ascendentes .

Confiscados os bens da Casa de Santar, com a traição e fuga para Espanha de D. Lopo da Cunha, senhor daquela casa, passaram a ser administrados aqueles bens pela junta dos Três Estados, vindo com outros bens a formar a Casa do Infantado.

Feita a paz com Espanha em 1699, com a vitória de Portugal, na gloriosa campanha das guerras da Restauração não desistiram os descendentes de D. Lopo da Cunha, embora exilados, mas cumulados de honrarias pelos reis de Castela, de reaver os bens que lhe haviam sido sequestrados. Demandaram em juízo de represália aos Procuradores da Coroa e Fazenda para que se lhes restituísse a Casa de Santar, obtiveram sentença favorável e em 1725, foi celebrada na Casa de Santar, transação entre El Rei D. João V e o Marquês de Bedmar e Moya, confirmado por provisão de 15 de Dezembro. Os bens patrimoniais da Casa de Santar vieram a ser restituídos aos descendentes de D. Lopo da Cunha que os possuíram apesar de se encontrarem, até que no séc. XIX por falta de sucessão, voltaram para os seus parentes de Portugal, indo para a Casa do Infantado só os bens da Coroa.

O Paço dos Cunhas acabou por ser comprado pela família dos Coelhos e Amaral juntando este património ao da Casa do Soito.


Paço dos Cunhas de Santar

O antigo Paço dos Cunhas de Santar foi mandado construir por D. Pedro da Cunha. Após o fim da guerra entre Portugal e Espanha, o Paço das Cunhas foi comprado por Dr. José Caetano Amaral dos Reis, à Junta dos Três Estados.

Após a morte do Dr. José Caetano Amaral dos Reis, coube a herança destes bens ao filho Francisco Coelho do Amaral Reis, visconde de Pedralva. Mais tarde vendeu a sua parte ao seu irmão Dr. Manuel Reis, que juntaria os bens do Paço das Cunhas aos da Casa do Soito.

O Paço dos Cunhas era de grandes proporções. Uma vasta construção, de estilo da renascença italiana, datado de 1609, como consta da inscrição que fica sobre a verga do portão da entrada principal.

Esta inscrição em pedra que mede cerca de 2,10 metro de comprimento e cerca de 30 cm de altura, diz:


“DOM PEDRº DA CVNHA MANDOV.
FAZER ESTA OBRA. O ANNO: D:1609.”

Foi também nesta altura apeada a pedra de armas com 2 brasões. Um dos brasões, o dos Cunhas, ficou na zona central, o outro ficou num plano superior a este. Pena foi que após o restabelecimento da verga no portão, a inscrição e a pedra de armas não voltassem ao seu devido lugar. O brasão da parte central, encontra-se actualmente tão gasto que apesar de se ver bem que tinha bordadura, mal se conseguem distinguir as respectivas peças heráldicas. Este brasão era de D. Pedro da Cunha.

O outro brasão presente na pedra de armas pensa-se que seja o brasão de D. Elvira Coutinho de Vilhena.

“O brasão dos Cunhas de oiro com nove cunhas de azul, bordadura cosida de prata carregada com cinco escudetes de azul, cada escudete carregado com cinco besantes de prata, timbre um grife saínte de oiro semeado de cunhas de azul, com azas de um no outro.”

Casa do Soito

A Casa do Soito compreende o palacete dos Coelhos do Amaral de Santar, datado do Séc. XVIII, com uma grande quinta anexa, na qual estão actualmente integradas as ruínas e a cerca do Paço dos Cunhas.

Este palacete tem uma entrada muito bela, pois é constituída por uma escadaria, rodeada por belos jardim( onde se encontram algumas árvores com cerca de três séculos), ladeados de buxos, por uma extensa e bem tratada Quinta (essencialmente composta por vinhas, mas também por carreiras ladeadas de arbustos caprichosamente podados, hortas e pomares).

A casa contêm um valioso recheio de muitas e ricas peças antigas, vindas dos mais variados locais do mundo, que se encontram distribuídas por várias salas, quartos e salões. Estas peças foram cuidadosa e pacientemente coleccionadas pelo seu proprietário, através de compra e de ofertas de familiares e amigos . Possui também um grande valor em mobiliário, pelo facto de ser muito antigo e também pela forma como é magnificamente trabalhado. Do espólio da Casa do Soito fazem também parte uma grande quantidade de louças, algumas delas por exemplo da dinastia Ming, pratas e uma grande diversidade de quadros pintados a óleo. Possui também um grande número de peças em marfim, cobre, para além de muitos e importantíssimos pergaminhos, gravuras antigas, vidros, cristais, estanhos e metais. Apesar do valor de todos estes bens, pensamos que o salão das armas e armaduras, é o mais apreciado por todos os visitantes, o que é compreensível pois é um salão que possui uma beleza incrível, deixando qualquer pessoa abismada. Estas armas são de várias épocas, e eram tanto dos militares mais importantes quer daqueles que eram hierarquicamente inferiores( por ex. a armadura do general era de aço, e a do soldado era de ferro, sendo esta muito mais pesada). Logo ao lado surge um enorme salão de baile com um piano muito antigo e de grande valor, existem também baús, mesas, contadores (mobiliário que servia para guardar documentos), credências, armários, cómodas, camas, etc., de várias épocas e estilos e também uma grande e valiosa biblioteca. De referir também que todas estas salas têm o tecto decorado por minuciosos trabalhos à mão ( ex. brasão da família).

“No frontão do palacete, na fachada principal, ostenta-se pedra d’ armas dos Coelhos do Amaral, que passamos a descrever: escudo partido 1 – Coelho - Leão com 1 coelho nas garras; bordadura carregada de 7 coelhos; 2 - Amaral – 6 crescentes, invertidos. Encimado por elmo com 3 grades. Timbre – O leão do escudo com um coelho nas garras. Sem indicação de metais.”

Habitualmente fala-se na Casa do Soito e no Solar do Paço dos Cunhas como duas casas diferentes, mesmo em livros ou em panfletos e quando mostram fotografias separam-nas, mas na verdade estão inseridas no mesmo património.

A Casa do Soito deixou de ser apenas Casa do Soito para passar a Sociedade Casa do Soito. Esta foi criada por dificuldades económicas do dono que tem por nome Francisco Amaral de 91 anos, o qual herdou a casa por testamento de seus pais e depois por sua irmã. Formou-se também com o objectivo de preservar o valiosíssimo Património Arquitectónico. Neste momento são cinco os sócios que tudo fazem para que este património se mantenha “unido”. Têm como projecto criar um vinho de marca que terá por nome “Paço dos Cunhas”, esta pretensão é legítima pois a Sociedade Casa do Soito dispõe de vinte e cinco hectares de vinha. A criação de um Museu na casa do Soito e a realização de turismo de habitação no Solar do Paço dos Cunhas não é uma miragem, pois o projecto já foi entregue às entidades competentes para que estas o aprovem e o subsidiem.

Apesar de todo este valor da Casa do Soito, os sócios têm passado por muitas dificuldades económicas para conseguirem os seus objectivos, necessitando de pedir empréstimos à banca, com o intuito de fazer frente às despesas. Deste modo o objectivo da criação da Sociedade, parece estar a começar a dar frutos, pois o número de visitantes tem aumentado, e as vinhas que recentemente foram plantadas para substituir a vinha existente, e que era muito antiga, no seu primeiro ano de produção deram boas indicações, levando os sócios a pensar que este ano já deverão ter lucro, ou pelo menos ganharem o dinheiro suficiente para fazer frente às despesas.

Um dos lamentos dos sócios é o facto de os bens roubados, à cerca de cinco anos, então à Casa do Soito ainda não terem sido todos recuperados, e de provavelmente nunca mais o virem a ser.


Conclusão

Com este trabalho ficámos a saber como é importante o património arquitectónico da Casa do Soito, o grande valor histórico de muitas das peças existentes, os projectos que a Sociedade Casa do Soito tem para o futuro, quer a nível do aproveitamento do grande valor arquitectónico, quer a nível agrícola. Apercebemo-nos também, que apesar do grande esforço dos sócios, não é fácil a sua gestão, sendo mesmo necessário recorrer a empréstimos para se puder manter os projectos a funcionar como previsto.
Chegámos também à conclusão que apesar de nos primeiros anos este projecto ter dado prejuízo, irá este ano começar a dar os primeiros lucros, isto se não existirem condições meteorológicas adversas á produção de vinho.

Para nós futuros professores, esta experiência enriqueceu a nossa cultura sobre história e também da importância da preservação dos nossos monumentos, por mais insignificantes que sejam, são e sempre serão muito importantes para a preservação da nossa cultura. Este nosso trabalho ensinou-nos a dar valor aos nossos antepassados e a aumentar o nosso orgulho de ser Português.


Bibliografia

Coelho, José. Beira Histórica Arqueológica e Artística, Memórias de Viseu. Viseu: Edição do Autor, 1941, 457 p.
Pinto Loureiro, J. O concelho de Nelas – Antiga terra de Senhorim. Coimbra: Instituto Coimbra, 1940.


Entrevista

Esta entrevista foi realizada ao Sr. Manuel Pereira, sócio da sociedade e gerente da mesma.

1- Qual foi o primeiro fundador da Casa do Soito?
- Foi o Dr. José Henriques dos Reis.

2- O que levou á formação da Sociedade Casa do Soito?
- O Dr. Francisco Amaral era um dos três herdeiros do património Casa do Soito, no entanto a sua irmã falecida deixou-lhe a sua parte, ficando ele como herdeiro principal, ficando a parte minoritária para o seu irmão. Por isso para garantir o futuro do património, formou-se esta sociedade de quatro pessoas, uma delas já era encarregado da casa e actual gerente da sociedade, cuja finalidade é manter o património intacto e desenvolvê-lo.

3- O que pensam fazer para divulgar a Casa do Soito?
- Criar principalmente um Museu da Casa do Soito e ao mesmo tempo criar turismo de habitação no Paço dos Cunhas, apesar da actual divulgação da Casa do Soito já ser enorme, pois já recebemos cerca de duas mil visitas por ano.

4- Em termos agrícolas o que pensa fazer?
- Esta era uma casa que tinha nove hectares de vinha velha e sete hectares de pomares de maçãs, também bastante antigo. Como existia uma mata de vários hectares pertencente á Casa do Soito, a sociedade por meio do projecto e com ajuda do IFADAP, resolveu plantar tudo de novo, o que nos leva a ter neste momento vinte e cinco hectares de vinha e quatro de olival.

5- O que vão fazer ao vinho?
- Até agora temos vendido as uvas, o que no futuro próximo deixaremos de fazer, pois temos projecto para fazer uma nova adega e criar-mos a nossa marca de vinho, cujo um dos rótulos terá a designação de Paço dos Cunhas.

6- Têm tido dificuldades financeiras?

- Temos tido bastantes dificuldades porque a sociedade apesar de ter quatro sócios, não abunda o dinheiro. No entanto temo-nos socorrido de empréstimos na banca, e de alguns suprimentos dos próprios sócios. Pensamos que este será o último ano de dificuldades, porque no próximo já pensamos ter uma produção entre cem a cento e cinquenta mil garrafas, criando assim um “superavit”, que nos ajudará nos anos seguintes.

7- Como é que se pode marcar uma visita à Casa do Soito?
- Através do contacto prévio e por marcação com o gerente através do Tm. 966773742, podendo a visita ser feita durante todos os dias da semana, sendo a entrada de 600$00 por pessoa. As crianças não pagam nada.