O CORPO DE TROPAS PÁRA-QUEDISTAS


As instituições são realidades complexas e, como norma, mal conhecidas, porque aquilo que delas chega ao público é a imagem que projectam e não a substância de que são feitas. Essa imagem pode ter duas origens: uma resulta da análise serena dos factos e permite construir, pelo raciocínio, um quadro lógico; a segunda faz-se de indícios, de pistas falsas e verdadeiras, e não conduz a conclusões fundamentadas. Esta é uma questão fulcral, porque o grau de consideração que gozam junto dos concidadãos está infelizmente muito mais ligado à percepção fornecida por um sistema de sinais de que uma análise racional de comportamentos e atitudes.
Concebidas para o serviço das comunidades, a sua utilidade tem um nexo muito intimo com a qualidade dos homens que a servem que acontece confundirem-se os comportamentos de uma e de outros, mal se discernindo em certas ocasiões quem serve a quem e com que finalidades. E se a Instituição for um Corpo militar que acolheu durante 37 anos, na guerra e na paz, dezenas de milhares de homens, fica-se ciente da dificuldade em destacar os factos objectivos, da natureza individual e colectiva, que melhor lhe retratem o corpo e a alma.
Essas ressalvas são indispensáveis porque, ao procurar captar o carácter de um Corpo militar que nasceu em 1956 como Batalhão de Caçadores Pára-quedistas, que esteve quase moribundo em 1975 e que nesse mesmo ano foi reactivado como Corpo de Tropas Pára-quedistas, se corre o risco de transformar o esboço num panegírico onde caibam todos os feitos heróicos mas onde mal se descortinem as acções reprováveis.
O lugar central no historial das unidades militares é ocupado pela lembrança dos combates mais devastadores. Por uma razão bem simples: um homem disposto ao sacrifício da vida dá o exemplo supremo do dever cumprido, pouco importando o facto de o combate ter sido perdido ou ganho. desde que possa dizer: "eu estive lá, era um dos bravos que lutaram até ao esgotamento", o homem-soldado afirma o seu orgulho em pertencer aquela unidade e passa automaticamente à condição de credor, do reconhecimento geral. E é em grande parte por isso, e para isso, que o cidadão se oferece para servir nas unidades com mais ricas tradições militares. Por alguma razão Alain, antimilitarista confesso e persistente, se declara incapaz de resistir ao fascínio duma parada militar: "Como resistir a esse impulso varonil a esse apelo em estado puro?". Quando se contacta com o imaginário militar - esse universo de tradições transfiguradas em símbolos viris -, compreende-se a dificuldade de explicar , pela razão, os mistérios morais que povoam a História Militar e dão a medida da grandeza da Instituição. E fica-se igualmente consciente da facilidade com que essa simbologia pode ocupar o lugar do real e da necessidade óbvia de interpelar com rigor os elementos disponíveis, por forma a construir uma história feita de homens e não de mitos. Destes, um dos últimos - o de que os homens podiam ser conduzidos a lutar vigorosamente no campo de batalha pela crença em Grandes Ideais, mesmo quando não se encontrassem pessoalmente comprometidos com eles - foi desmascarado pela moderna sociologia americana ao estudar o comportamento do G.I.'s na guerra do Vietname.
Destacaria duas conclusões desse estudo. Primeira: ao soldado que combate a milhares de quilómetros de distância do torrão natal não é lícito falar-se de patriotismo. A Pátria ocupa um espaço físico indissociável do quotidiano do cidadão e não existe fora dele, de tal forma que o patriotismo só tem sentido no interior desse preciso corpo. Segunda: a solidariedade do grupo constitui o factor mais forte na sustentação do homem em combate, tendo pouco a ver com o altruísmo e muito com o instinto de sobrevivência; ao contrário do que se pensou durante muito tempo, a pulsão guerreira só excepcionalmente irradia das grandes palavras como Pátria, Dever ou Sacrifício, tendo-se constatado que o impulso para agir provém mais frequentemente do orgulho de Agir, no local, entre Camaradas.
Os pára-quedistas portugueses constituem um Corpo Militar com sólida reputação de coesão interna. Este espírito de corpo, nascido com toda a naturalidade do facto de se pertencer a um grupo restrito - ao qual apenas eram admitidos os que satisfizessem severas exigências psicofísicas -, robustecia-se durante o curso de pára-quedismo e, em especial, no momento supremo do salto em pára-quedas, e foi-se consolidando, através da partilha dos medos, dos riscos e dos sacrifícios que a Guerra de África acarretou. Os inúmeros louvores individuais e colectivos, as referências elogiosas feitas por comandantes exteriores ao Corpo, mas sobretudo a constatação de que lhes estava reservado um papel destacado nas acções operacionais mais delicadas - circunstância que muito acrescentava o prestígio das tropas Pára-quedistas -, contribuíram fortemente para reforçar o orgulho dos homens da Boina Verde.
Mas, a despeito da indesmentível valia das prestações em combate, a despeito também, por outro lado, das graves perturbações por que passou em 1974/75, afigura-se-me que a característica que mais adequadamente expressa a real natureza do Corpo de Tropas Pára-quedistas é a constância. De facto, há na actuação das Tropas Pára-quedistas uma linha de continuidade que não é afectada pela entrada na guerra nem pelo seu termo e que assenta em duas características em íntima conexão: profissionalismo e prontidão.
Profissionalismo no sentido sociológico, como ofício distinto dos restantes e servido por agentes especializados. Visível na rigorosa inspecção psicofísica dos voluntários; patente no empenhamento dos quadros encarregados da instrução e treino dos efectivos e na adaptação permanente dos ensinamentos colhidos nos campos de batalha africanos; implícito no facto de só ascenderem à classe de sargentos as praças com provas dadas em combate; detectável na valorização do factor "segurança" na preparação e execução de todas as missões, quer fossem de treino ou operacionais; presente na formalidade dos grupos de trabalho formados para solucionar problemas concretos, aos quais se exigia em contrapartida obra feita dentro dos prazos estabelecidos; expresso, por fim, na atribuição de responsabilidades até aos mais baixos escalões.
A prontidão deve ser questionada sob duas perspectivas: enquanto reveladora de capacidade técnica, táctica e física para o cumprimento de missões variadas e no sentido da disponibilidade para as levar a cabo.
Este último aspecto merece ser salientado, pois foi a tradição de não discutir as ordens das autoridades competentes que esteve na origem do 11 de Março, da destruição da Rádio renascença e de outros eventos que, em ambiente de grande agitação social, muito concorreram, no decurso do chamado "processo revolucionário", para o desgaste da disciplina interna e do espírito de corpo e, no limite, quase liquidaram a Instituição.
Vista do futuro, contudo, esta prontidão contabiliza a seu crédito um dos mais fortes motivos de orgulho dos pára-quedistas: foi por ela ser conhecida dos mais altos escalões da hierarquia que, em 1961, os Boinas Verdes estavam entre os primeiros a marchar para Angola; e foi porque em combate fizeram jus a essa expectativa que estiveram entre os últimos a deixar terras de África. Sem esquecer que em 1975, quando a situação em Timor se degradava a olhos vistos, eles não hesitaram em marchar para lá; e nesse longínquo território, em número irrisório, numa altura em que muitos só pensavam no abandono, estiveram sempre disponíveis para correr os maiores riscos, constituindo por um período de tempo apreciável o único segmento militar com capacidade operacional.
Concorreram ainda para a constância referida dois factores: o facto de oficiais e sargentos do Quadro Permanente assinarem, na prática, contratos para a vida com as Tropas Pára-quedistas, e a circunstância de a rendição das unidades que combatiam em África se fazer a nível individual.
O primeiro desvalorizou a competição, sadia na teoria mas desarticuladora do espírito de corpo na prática, entre camaradas que podiam desta forma olhar-se como amigos enquanto arquitectavam em conjunto planos para o futuro, naturalmente sem prejuízo da competência hierárquica para rescindir o contrato de quantos - e alguns foram - não atingiam os padrões de comportamento considerados satisfatórios. Desta forma, a sobriedade dos comportamentos e a determinação do cumprimento do dever foram sempre encaradas pelo comum dos pára-quedistas como algo que pertencia ao seu quotidiano, sendo muito raros os que viam nelas meros instrumentos para alcançar promoções mais rápidas. Criou-se, assim, no decurso dos anos, uma envolvente cultural que marcava o "respirar" do Corpo e inculcava nos vindouros o respeito pelas suas tradições
. Com a rendição individual, por seu turno, evitava-se a indesejável flutuação de rendimento associada aos períodos de rendição das unidades substituídas em bloco, situação de todo inconveniente, sabendo-se como a permanência constitui factor decisivo para o sucesso da Acção Psicológica e, de outro modo geral, para o conhecimento do inimigo numa guerra cujo objectivo era a conquista dos corações e das mentes das populações. Conseguiram-se, assim, ao longo do tempo, desempenhos operacionais homogéneos fortemente valorizados por uma expressiva presença de quadros permanentes com crescente experiência de combate.
Ressalta deste quadro uma característica dominante: a fiabilidade. De outra forma não se justificaria o constante empenhamento do Corpo na execução das acções mais espinhosas, nos assaltos mais duros, nas perseguições mais prolongadas; e também, em tempo de paz, na representação do país em competições e exercícios requerendo elevados graus de preparação técnica e física, nos quais foram conquistadas muitas posições de destaque.
Numa tropa onde se tratava primeiro das praças e só depois dos sargentos e dos oficiais, o problema do exemplo mal se punha. Habituados desde o curso de pára-quedismo a suportar o mesmo nível de exigência no esforço físico, os militares pára-quedistas de qualquer graduação jamais conheceram impedidos, carregadores ou mochileiros, e só raramente se assistiu à nomeação de guarda-costas. Cada um carregava o seu fardo, em combate como no quartel, fazendo ponto de honra nessa afirmação de capacidade para suportar esforços físicos prolongados sem quebra de resistência psicológica. Contudo, houve sempre a sábia convicção de que, em certas circunstâncias, uma ou outra vontade poderia fraquejar, sendo igualmente consabido que nunca faltaria, então, quem carregasse um camarada ferido ou esgotado, fosse ele superior ou inferior.
Acrescente-se, porque é de justiça e constitui um referencial indispensável ao entendimento da guerra de África, que os feridos inimigos eram por norma tratados em pé de igualdade com os nossos, e esse comportamento é muito mais típico do soldado português do que os massacres denunciados pela imprensa estrangeira. E sabendo-se da importância do contacto humano num conflito onde terreno e objectivo se confundiam numa única realidade, nunca é de mais salientar a naturalidade com que o soldado português comunicava com diferentes etnias e credos religiosos, e a sua interessada participação - mais instinto do que racionalidade, diga-se - na tarefa ciclópica de lhes conquistar a confiança. E, sem subestimar a dificuldade de manter níveis de comportamento elevados durante as complicadas e desgastantes actividades da Acção Psicológica, imagine-se o que representava a manutenção de elevados padrões de comportamento no decurso das mais arriscadas, penosas e difíceis missões de combate, que constituíam incumbência típica das unidades de intervenção. Perceberce-se-á então melhor o destaque concedido ao facto de os inimigos feridos nas acções de fogo serem transportados pelos Páras até aos locais de evacuação - circunstância que não encontrará provavelmente paralelo em nenhuma das campanhas de contra-subversão conhecidas.
A análise serena dos factos apontados permite detectar uma correspondência quase perfeita entre os comportamentos individuais e colectivos, como se ambos fossem inspirados pelo respeito por idênticos valores humanistas. De facto, se o orgulho individual passava por vezes à bravata, desaguando mais raramente no desacato cívico, deve lembrar-se que o pára-quedista-tipo andava por norma bem fardado, comportando-se em público com alguma discrição; também a instituição, ao agir com sobriedade, mostrava preferência pela postura discreta dos que encontram mais honra em servir do que em servir-se, raramente dando sinal de si fora do universo profissional. Porém, neste círculo de conhecedores exigentes, foi consolidando uma imagem de disciplina, de prestância, de capacidade técnico-táctica e de devoção ao cumprimento do dever, numa linha de actuação reconhecidamente acima dos padrões médios
. O conjunto de características descritas era o fruto de uma sentida convicção pessoal modulada por rigorosos padrões disciplinares. Não é fácil hoje dar a medida exacta desse rigor, muito menos avaliar se a disciplina era "imposta" ou "assumida". A sociedade portuguesa evoluiui muito desde então, a Instituição Militar evoluiu com ela, e aquilo que era bom há 20 anos pode ser hoje execrável.
Certo é que nos anos 60 e 70 - os anos da guerra -, a disciplina se reflectia sobretudo no aprumo individual e no pronto acatamento das ordens, um e outro presentes, por tradição, nas tropas de elite, mormente quando empenhadas em actividade operacional. Na verdade, e deixando de parte as situações em que o cumprimento das ordens representava risco iminente de vida - como durante o assalto a efectivos inimigos entrincheirados - e outras que requeriam enorme força de carácter - como seria o caso da manutenção de comportamentos marcados pela dignidade no decurso dos infindáveis meses de isolamento em aquartelamentos sem quaisquer condições -, atente-se na relação de "pequenos gestos" cujo incumprimento podia comprometer o êxito das acções de combate: não fazer fogo sobre populações desarmadas; abster-se de beber ou abastecer o cantil quando, morrendo de sede, se transpunham cursos de água presumivelmente contaminada; não atravessar espaços abertos em linha recta, deslocando-se pelo contrário ao abrigo da vegetação, seguindo trajectos duas e três vezes mais longos; não fumar; enterrar cuidadosamente todos os vestígios de presença; agir em silêncio, especialmente quando emboscado ou em local de repouso prolongado; utilizar criteriosamente as armas e as munições; reagir com prontidão às emboscadas montadas pelo inimigo; e tantos outros. Este enunciado de restrições que está longe de ser exaustivo, explicita todavia de forma clara a importância do controlo das acções individuais no bom desempenho colectivo, mostrando também em simultâneo que a preocupação com o sucesso das missões estava profundamente ligada à preocupação com a segurança individual dos combatentes. Neste ambiente de grande stress fiísico e psicológico, parece evidente que apenas a disciplina mais exigente estava em condições de assegurar o pronto acatamento de normas essenciais à moderação dos instintos mais primários. Ao impor aos seus soldados regras inflexíveis de conduta, o capitão pára-quedista dava afinal mostras de se preocupar com a vida e a segurança deles, sem por isso abdicar do cumprimento do dever.
A circunstância de as Tropas Pára-quedistas terem nascido na Força Aérea, ai se mantendo desde 1956 até 31 de Dezembro de 1993, foi decisiva para a forma como se organizaram, se prepararam para combater, se comportaram nas guerras de África e, finalmente, como souberam, em 1975, reestruturar-se a partir do nada, adaptando-se às novas conjunturas nacional e internacional.
À data da fundação do Batalhão de caçadores Pára-quedistas, a Força Aérea era uma arma jovem, pouco mais velha na verdade so que os Páras. Foia assim possível estabelecer uma relação em que a dependência hierárquica estimulava a iniciativa, a criatividade, o sentido de responsabilidade e a capacidade de adaptação a situações novas. Acedendo a delegar no Comando das tropas Pára-quedistas uma margem crescente de autonomia administrativa e financeira, a Força Aérea permitiu a concretização, em tempo útil, dos planos de reestruturação, de rearmamento e de reequipamento indispensáveis à reconversão dum Corpo Militar - que se especializara na luta contra-guerrilhas - num moderno aparelho militar com integração de especialidades vocacionadas para o combate em ambiente convencional. Na prática, esta relativa independência tornou possível, ainda na década de 50, a especialização em contra-subversão, na Argélia, de um número significativo de oficiais; permitiu equipar com a espingarda Armalite os pelotões que, em Março e Abril de 1961, voaram para Angola numa altura em que as companhias do Exército estavam ainda equipadas com as espingardas Mauser, raramente com as G-3; possibilitou a utilização em combate, de armas, rações e equipamentos concebidos em função da duração e do tipo das acções a executar; apoiou experiências com novas técnicas de combate, como os héli-assaltos após lançamento sobre os objectivos, por meios aéreos, de gases lacrimogéneos; encorajou iniciativas no domínio da mobilização de disponíveis, tendo-se iniciado em 1979 a convocação anual de reservistas para integrar o Exercício "Júpiter"; facilitou, nos últimos anos, e com grande avanço sobre unidades similares dos outros Ramos, a aquisição de mísseis terra-ar, de viaturas de ataque rápido para os pelotões de reconhecimento, de morteiros de liga leve para apoio de fogos, de mísseis anti-carro Milan e de outros materiais modernos, ao serviço duma concepção técnico-táctica realista que nunca deixou de tomar em conta os constrangimentos financeiros; e, finalmente, estimulou, com muitos anos de antecedência, o serviço militar feminino, através dum notável corpo de enfermeiras que recusaram ficar na retaguarda e exigiram ver a cor do medo ao lado dos camaradas masculinos.
De outra forma também não teria sido possível atingir os elevados padrões de rendimento do binómio pára-quedistas-helicóptero que se registaram nas guerras de África, mormente nas acções com pisteiros e nos heli-assaltos. Havia um entrosamento impossível de atingir com as unidades do Exército, afastadas que estavam do convívio diário entre máquinas e homens que só a pertença ao mesmo Ramo das Forças Armadas permitiu a Pilotos e Páras. Embora não tenha chegado a durar 40 anos, este convívio reflecte a existência duma tradição cultural autónoma que produziu notáveis resultados práticos
Na hora de rematar o quadro, hesito em contar os mortos, em enunciar as condecorações, em recordar o brilho dos desfiles, em nomear os heróis que dão lustre ao Corpo de Tropas Pára-quedistas. Penso que seria, de algum modo, violentá-lo naquilo de que mais se honra: o dever cumprido com sobriedade.
De resto, sei que dentro de cada pára-quedista mora a lembrança de tudo isso, lado a lado com a íntima convicção de ser a forma correcta de servir as Tropas Pára-quedistas e Portugal.


  Coronel Paraq Nuno Bravo Mira Vaz
Artigo publicado na Revista Militar nº 2/3, de Fev/Mar de 1994, e posteriormente transcrito na revista BOINA VERDE nº 169 de Abr/Jun 94.