TROPAS PÁRA-QUEDISTAS, FORÇA DE PAZ

Entre Janeiro de 1996 e Agosto de 2000, mais de 3.600 pára-quedistas militares serviram nas missões de apoio à paz na Bósnia-Herzegovina, Kosovo e Timor-Leste. Foram eles os primeiros a chegar a todos estes Teatros de Operações e a enfrentar as sempre difíceis circunstâncias que se deparam a quem chega antes de todos os outros. Mas a verdade é que as unidades Pára-quedistas, em Portugal como em qualquer parte do mundo se distinguem das demais, entre outras coisas, pelo curto espaço de tempo que necessitam para intervir e pela predisposição do seu pessoal para, voluntariamente, cumprir todo o tipo de missões.

Em Janeiro de 1996 cerca de mil homens e mulheres da Brigada Aerotransportada Independente rumaram à Bósnia-Herzegovina, a fim de integrar a Força de Implementação da OTAN, a Implementation Force, ou IFOR.
Pela primeira vez desde a 1ª Guerra Mundial, Portugal enviava uma unidade de combate para cumprir uma missão operacional na Europa, assumindo de pleno direito as suas responsabilidades com a Aliança Atlântica.

Embora o Exército desde 1995 mantivesse, primeiro em Moçambique o Batalhão de Transmissões nº4 e depois em Angola a Companhia Logística nº6, no âmbito de missões das Nações Unidas, o facto é que não só os efectivos eram reduzidos como as respectivas missões tinham pouca visibilidade.

Com a Bósnia, as Forças Armadas e o Exército em geral, e muito em particular as Tropas Pára-quedistas, colocavam-se na "ordem do dia", conseguindo a atenção do país para esta missão.
Após anos de intervenção militar no exterior, limitada pelo poder político ao envio de uns poucos observadores militares e à participação em exercícios multinacionais, o Exército partia finalmente para uma missão real.
Coube aos pára-quedistas, "acabados de chegar" da Força Aérea, a honra de serem as primeiras unidades de combate a assumir a concretização desta missão, cujo sucesso se viria a revelar determinante para a continuação do empenhamento nacional neste tipo de operações.
Apesar de toda a emotividade que rodeou a preparação da força inicial e das muitas dúvidas que se levantavam na opinião pública, foi possível garantir o factor humano - os voluntários excederam as necessidades - e os pára-quedistas partiram para os Balcãs.

Outras unidades se seguiram à BAI e sem dúvida que a "imagem de marca" que os "boinas verdes portugueses" deixaram nas regiões onde estiveram instalados foi adoptada e seguida com enorme competência e profissionalismo por outros militares portugueses.
Ainda hoje, passados dois anos sobre a saída dos portugueses da região onde se haviam instalado inicialmente - Rogatica e Gorazde - as populações locais referem a quem as visita as saudades dos nossos soldados.

No Kosovo uma unidade não integralmente pára-quedista mas ainda assim mobilizada pelo CTAT/BAI, foi a escolhida para "abrir" a missão.
O Agrupamento Bravo integrava, além de muitos outros pára-quedistas, o Esquadrão de Reconhecimento da BAI. Unidade preparada em tempo mínimo, fruto da urgência da missão e do pouco tempo que mediou entre a decisão política e o envio da força, cumpriu a missão de modo exemplar.
Também aqui, no sector de Klina, o modo português de cumprir a missão começou a dar os seus frutos e assim se mantém, pese embora todas as diferenças realmente existentes entre a situação politico-militar neste território e na Bósnia.

Em Timor-Leste, a missão "diferente de todas as outras" para os portugueses, foi cumprida pelos pára-quedistas com a vontade e o ânimo de sempre. Desta vez integrados numa força multinacional de características muito diferentes da NATO, o contingente português, na sua quase totalidade composto por pára-quedistas e integrando uma companhia de fuzileiros, um destacamento de engenharia, um pequeno núcleo de operações especiais e um destacamento de helicópteros, assumiu-se no contexto local como uma força de primordial importância.
Se os Australianos e Neozelandeses se ocupavam dos problemas fronteiriços, os "páras" portugueses assumiram o difícil sector central, incluindo Dili.
No decurso desta missão, as regras de empenhamento das Nações Unidas foram alteradas, fruto da crescente actividade de grupos armados destabilizadores e os "páras" e os "fuzos" portugueses voltaram às operações de contra-insurreição.
E, apesar de muitos comentários de supostos "especialistas" nacionais que aqui, em Portugal a milhares de quilómetros de distância do TO, se pronunciaram com desconfiança, o facto é que - apesar das limitações em meios e pessoal e do deficiente tratamento da informação pública - obtiveram inegável sucesso. Após alguns meses de pressão contínua sobre estes grupos, a situação no sector acalmou significativamente.

Nas montanhas geladas dos Balcãs como nas matas tropicais de Timor-Leste, escoltando colunas humanitárias entre Sarajevo e Gorazde e protegendo monges ortodoxos no Kosovo, ou perseguindo guerrilheiros infiltrados em Timor-Leste, os actuais Boinas Verdes, herdeiros daqueles outros que como eles foram formados em Tancos, na Casa-Mãe, mas rumaram a África e também ao Timor-Português, continuam hoje a honrar os valores em que acreditam, e são a garantia que a Instituição Pára-quedista, pode vacilar em momentos conturbados, mas não morrerá.


SUB-UNIDADES DO COMANDO DAS TROPAS AEROTRANSPORTADAS/BRIGADA AEROTRANSPORTADA INDEPENDENTE ENVIADAS PARA MISSÕES DE APOIO À PAZ

Bósnia-Herzegovina:
2ºBatalhão de Infantaria Aerotransportado - Jan a Ago 1996
Destacamento de Apoio de Serviços - Jan a Dez 1996
3ºBatalhão de Infantaria Aerotransportado - Jul 1996 a Fev 1997
1ºBatalhão de Infantaria Aerotransportado - Dez 1997 a Jul 1998
2ºBatalhão de Infantaria Pára-quedista (1) - Jul 1999 a Jan 2000
1ºBatalhão de Infantaria Pára-quedista (previsto em Agosto 2001)

Kosovo:
Agrupamento Bravo (2) - Ago 1999 a Fev 2000

Timor-Leste:
1ºBatalhão de Infantaria Pára-quedista (3) - Fev a Ago 2000
2ºBatalhão de Infantaria Pára-quedista (3) - Ago 2000 a Fev 2001


(1) Este batalhão partiu para a missão com a designação de "Aerotransportado" e a meio alterou a designação para "Pára-quedista" fruto de despacho do General Chefe do Estado-Maior do Exército
(2) Esta unidade foi organizada e preparada no CTAT/BAI, embora não fosse integralmente constituída por pára-quedistas
(3) Estes batalhões foram reforçados com 1 Companhia de Fuzileiros Navais da Marinha, um Destacamento de Apoio do CIOE e um Destacamento de Engenharia ambos do Exército





AQUELES EM QUEM PODER NÃO TEVE A MORTE


As missões de apoio à paz nas quais os Boinas Verdes participam desde 1996 e por onde já passaram mais de 3.600 militares pára-quedistas, exigem total disponibilidade para a missão e grande espírito de sacrifício, qualidades sem as quais é impensável poder cumprir a missão.
E riscos, em locais onde, embora a guerra já tenha passado, as suas marcas e despojos estão, uns bem visíveis e outros bem dissimulados, mas ambos presentes e por vezes fatais.
Em África no passado como hoje nos Balcãs e em Timor-Leste, os pára-quedistas sofreram baixas mortais. Portugueses que no cumprimento das tarefas que lhes estavam legalmente atribuídas, ficarão para sempre na nossa memória e nunca serão esquecidos.

Bósnia-Herzegovina
Primeiro Cabo Pára-quedista Alcino José Lázaro Mouta (24JAN1996)
Primeiro Cabo Pára-quedista Manuel Reis Tavares (24JAN1996)
Soldado Pára-quedista Francisco José da Ressureição Barradas (06OUT1996)
Soldado Pára-quedista Ricardo Manuel Borges Souto (06OUT1996)

Timor-Leste
Primeiro Sargento Pára-quedista José Vitorino Moreira Fernandes (02OUT2000)
Soldado Pára-quedista José Miguel Gonçalves Lopes (02OUT2000)




 
Maj Paraq Miguel Silva Machado
Publicado na Revista "Boina Verde" Nº194
Out/Dez 00