Para levar a cabo o lançamento de militares pára-quedistas a partir de uma aeronave em voo, são necessárias determinadas condições que passam, entre muitas outras coisas, por pessoal especializado e meios específicos, os quais por vezes passam despercebidos à maioria dos militares e mesmo a alguns pára-quedistas. Neste artigo vamos dar a conhecer um grupo muito particular dentro do Comando das Tropas Aerotransportadas: Os Precursores Aeroterrestres.
Muitos são os elos de ligação entre os jovens alunos do curso de pára-quedismo militar, ainda a iniciar a actividade aeroterrestre, e os mais antigos, aqueles a quem já faltam poucos saltos para deixar o serviço activo. Muitas vezes esquecidos na "confusão" diária, mas sempre recordados no momento em que o chefe da área de embarque ordena: "Verificação e ensaio, equipar!", a confiança nos Precursores é um desses laços que contribuem para o espírito singular que une brigadeiro e soldado pára-quedistas.
Procurando adoptar uma linguagem corrente, vamos tentar definir este militar, dizendo que aos precursores compete:
- Escolher um local, uma zona, onde tropas e cargas possam ser lançadas, saltando a partir de aeronaves em voo e utilizando pára-quedas.
- Quando adequado podem marcar a zona de modo a indicar ao piloto da aeronave esse local e, se necessário, guiá-lo até ao momento exacto em que o primeiro homem salta.
- Efectuar o mesmo tipo de trabalho para operações que envolvam a aterragem de helicópteros.
- Assistir as aeronaves que efectuem missões de apoio aéreo ofensivo, isto é,
"comunicar" (1) com as aeronaves de
ataque ao solo, de modo a estas o poderem fazer eficazmente, no respeitante
à neutralização de objectivos inimigos e ao mesmo tempo com segurança para as
nossas tropas em primeiro escalão.
- Apoiar as missões de busca e salvamento de
pilotos abatidos.
- Efectuar missões de reconhecimento profundo, usualmente em
território hostil, dispondo de reduzido apoio logístico, em áreas de interesse
da Brigada Aerotransportada Independente ou das unidades aéreas de apoio. Neste
âmbito puderão ainda efectuar sabotagens.
Destes três tipos de missões atribuíveis aos Precursores Aeroterrestres, a mais vulgar, típica se quisermos, é sem dúvida
a primeira. E essa, ele executa-a frequentemente e sempre em condições reais.
No salto em pára-quedas tudo é - sempre - real, e as falhas, por mais insignificantes
que possam parecer, têm por vezes graves consequências para a integridade física
dos saltadores. No desempenho desta primeira missão e quando em tempo de guerra
- ou exercício táctico - os percursores saltam, naturalmente, antes das unidades
aerotransportadas, para depois efectuarem o seu trabalho. Daqui esta designação:
Precursor, aquele que vai adiante. Neste caso apoiam a reorganização das unidades
que estão a saltar, dando-lhe maior rapidez, diminuindo assim o espaço de tempo
em que estas estão vulneráveis. Estão ainda habilitados a efectuar o lançamento
de pessoal ou material, de bordo da aeronave e sem qualquer ponto (telas, fumos,
etc.) materializado no terreno.
Durante a última guerra ultramarina portuguesa, as tropas pára-quedistas efectuam
saltos operacionais sem recorrer a pessoal especializado para escolher ou marcar
as zonas de lançamento. É que não o havia e as missões tinham de se fazer. Assim,
à boa maneira portuguesa, mas também contando com a inexperiência do inimigo
para defrontar este tipo de unidades, foram efectuados saltos operacionais em
Angola (2) , Guiné (3) e Moçambique
(4). Para além disto, inúmeras missões de lançamento de cargas, das mais variadas,
foram levadas a cabo.
Mas assim que tal foi possível, já em 1971, o então Regimento
de Caçadores Pára-quedistas enviou um oficial ao Brasil, onde frequentou o Curso
de Precursor Aeroterrestre. Em 1973 um outro oficial e um sargento frequentam
novo curso nesse país. No RCP vão estes quadros formar um pequeno núcleo de
precursores (10 oficiais e 8 sargentos) que, mais tarde, terminada a guerra
em África, estará na origem de um maior aperfeiçoamento das técnicas de lançamento
de pessoal e material no nosso país.
Com a criação do Corpo de Tropas Pára-quedistas (CTP), os Precursores Aeroterrestres
ficam colocados no Grupo Operacional Aeroterrestre (GOAT). Aí e para além das
missões típicas de lançamento de pessoal e material, desenvolveram profícuo
trabalho no estudo e adaptação de muitos materiais para uso nesta área. A eles
se deve a implementação de um sistema de salvamento de pára-quedista rebocado
por C-212 (conhecido por Kit) e a introdução do sistema de determinação
de ventos no solo e na camada através de balão sonda e sitogoniómetro indicador
de vento. E não se julgue que lhes foi fácil vencer resistências à introdução
destes novos materiais e processos. numa área para a qual as inovações causam
muitas vezes alguma perplexidade ao pessoal mais velho.
Impondo-se pela sua
qualidade, em permanente actualização, fruto dos contactos internacionais, quer
apoiando as unidades estrangeiras que em Portugal efectuavam exercícios, quer
acompanhando as nossas unidades nos exercícios conjuntos, os precursores ganharam
a confiança de todos.
O Batalhão de Apoio Aeroterrestre (BAAT) da Escola de Tropas Aerotransportadas (ETAT) dispõe actualmente de uma Companhia de Precursores, cujo pessoal cumpre o quadro de missões já referidas. Da análise, ainda que rápida, dessas missões, logo se depreende que o candidato a precursor aeroterrestre deve possuir, para além de uma forte motivação interior, qualidades físicas e psicológicas naturais que lhe permitam ser admitido neste exigente curso ministrado no Comando das Tropas Aerotransportadas do Exército Português.
Quem for oficial ou sargento do quadro permanente, estiver colocado no CTAT
e possuir os cursos de pára-quedismo militar, operações aeroterrestres e o de
instrutor de pára-quedismo, pode oferecer-se para frequentar o curso de precursores
(CPrec). As provas de admissão dividem-se por três áreas: psicotécnicas, médicas
e físicas. As duas primeiras estão a cargo dos respectivos serviços do Exército
e as físicas são efectuadas na ETAT, em dois dias. No primeiro dia, de manhã,
têm lugar as que incidem sobre a Força, Resistência e Endurance, e, à tarde,
Força, Flexibildade e Natação. No segundo dia de manhã uma marcha de 30 quilómetros
(armado e equipado para combate), em menos de quatro horas e meia.
Para os que transpuserem com sucesso estas três fases, qualquer delas eliminatória,
inicia-se o CPrec na fase A - terrestre, ao longo de setenta dias úteis, com
uma média de 16 horas/dia de instrução efectiva. Esta fase inclui instrução
de combate terrestre (luta anti-carro, áreas urbanizadas, estágio de tiro GOE/PSP,
sapadores, etc.), nautismo, montanhismo, sobrevivência e fuga e evasão. Esta
fase decorre na sua quase totalidade na AMSJ onde se encontram as infra-estruturas
necessárias.
A fase B - aeroterrestre decorre na ETAT, mas utilizando zonas
de lançamento um pouco por todo o país, durante quarenta e cinco dias úteis
e com uma média de 10 horas/dia de instrução efectiva. Topografia, meteorologia,
transporte aéreo, tráfego aéreo, lançamento precursor, operação de zonas de
desembarque aérea e de aterragem de helicópteros são as principais matérias
ministradas.
Terminado o CPrec, os novos Precursores Aeroterrestres já sabem
que para manter esta qualificação têm de efectuar anualmente um treino mínimo,
no domínio aeroterrestre. Isto inclui os chamados "lançamentos precursores"
de bordo de aeronave sem apoio no solo, talvez a "parte" mais delicada de todo
o curso, pelo menos do ponto de vista de quem vai saltar e sabe que uma boa
aterragem individual e uma rápida reorganização da força lançada dependem muito
da precisão do lançamento.
A preparação das unidades da BAI para, no quadro dos compromissos internacionais assumidos por Portugal e atribuídos ao Exército, operarem em condições de isolamento e de apoio logístico reduzido, resultou na reformulação da sua instrução colectiva. Os requisitos inerentes aos movimentos no âmbito das operações de junção, exfiltração terrestre e actuação em condições de dispersão e isolamento, requerem das unidades aerotransportadas uma crescida capacidade de sobrevivência e uma superior preparação no âmbito da execução dos deslocamentos, nomeadamente no que concerne à sua segurança e dissimulação. Isto pressupõe que, especialmente os quadros, mas também as subunidades completas, tenham instrução de Acções em Condições Especiais. Nas áreas de instrução da Área Militar de S. Jacinto, decorre este tipo de instrução, o qual tem alguns aspectos inovadores, nomeadamente no capítulo das Operações de Apoio à Paz. O CPrec, por seu lado, efectua aí o Nautismo, Montanhismo, Combate em Áreas Urbanizadas, Sobrevivência, Fuga e Evasão. De facto, os precursores podem ser infiltrados em profundidade na retaguarda do inimigo, por via aérea, terrestre ou aquática, para levar a cabo a sua missão, o que exige esse tipo de instrução.
Aquartelada na ETAT e dependente do BAAT, a companhia está organizada de modo
a apoiar a BAI em três zonas de lançamento, em simultâneo, ou, então, três agrupamentos
em áreas de operações distintas. Para isso dispõe - organicamente três pelotões
de Precursores Aeroterrestres, uma secção de reconhecimento, uma secção de Largadores/Oxigénio
e uma Secção de Comando. Os pelotões Prec integram elementos com uma preparação
comum. Assim, um ou dois têm pessoal habilitado a ser infiltrado por Salto Operacional
a Grande Altitude e outro a ser infiltrado por Salto de Abertura Automática.
Além dos oficiais e sargentos que frequentam o CPrec, estes destacamentos contam
ainda com praças RC, denominadas Auxiliares de Precursor e que frequentam curso
específico. Recentemente algumas destas praças foram mesmo formadas em salto
SOGA e com resultados muitos positivos. É intenção ainda não concretizada colocar
na AMSJ um dos pelotões de precursores. Para além de apoiar todos os lançamentos
efectuados pelo CTAT/BAI, quer no âmbito do treino operacional, quer no treino
de "mínimos" (5) para todo o pessoal
especializado em pára-quedismo militar.
Para dar uma ideia do volume de trabalho,
em 1995 foram efectuados 48.559 saltos e brevetados em pára-quedismo 2.193 militares
- há outro aspecto de grande importância que lhes está atribuído: o reconhecimento
a homologação de zonas de lançamento em todo o território nacional.
Neste âmbito, é ingrato, melhor, é arriscado falar do futuro. Passados que são quase dois anos sobre a activação das Tropas Aerotransportadas, decorre a revisão dos seus quadros orgânicos e esta vertente dos Precursores deverá sofrer alterações. Várias possibilidades estão a ser estudadas e uma maior integração com outras forças do exército parece estar em vias de se concretizar. Também o modo de travar o envelhecimento dos quadros habilitados nesta área crítica têm de ser seriamente equacionado. Fruto das rigorosas exigências desta especialização e da obrigatoriedade de cumprir um treino mínimo, percentagem significativa com o CPrec já não reúne todas as condições para exercer essa função e está desqualificado. Os jovens quadros têm de encontrar nesta área aliciantes que os leve especialmente nos primeiros anos da sua carreira nas Tropas Aerotransportadas, a enveredar pelo exigente, mas sem dúvida estimulante caminho que é dos "páras" que saltam em qualquer zona, de dia ou de noite, a alta ou baixa altitude, para que os outros possam saltar em segurança.
Quando um precursor na Zona de Lançamento sabe que os "simples" pára-quedistas estão na placa de embarque e alguma apreensão lhes advém talvez do vento que sopra, ficam mais descansados quando sabem "homem que está lá em baixo", então o seu esforço terá sido recompensado. A satisfação do dever cumprido é-lhe dada por aqueles que enfrentam o espaço confiantes na competência profissional do precursor. Este é, sem dúvida um reconhecimento difícil de igualar.
Carlos Manuel Chaves Gonçalvves Maj/Paraq. "Os Precursores Aeroterrestres"
in revista Boina Verde nº 122 Set82, Lisboa.
Miguel Silva Machado e António Sucena do Carmo, "História da Tropas Pára-quedistas",
revista Boina Verde n° 158 Set91, Lisboa.
(1) Este comunicar não deve ser levado à letra. Podem ser usados
meios electrónicos dos mais variados.
(2) Quipedro, 11AGO61; Serra da Canda, 25AGO61; Sacandica 15NOV61; Banza
Quina, 17ABR e 3 OUT62; Magina, 180UT62; Dinge 11SET e 28DEZ63; Tomboquela 12JAN
e Pereira de Eça, 1972.
(3) Jabadá, 10ABR66; Aldeia Formosa, 19AGO68;
Fulacunda 1DEZ69; Teixeira Pinto, 18DEZ69 Nova Lamego, 27FEV70.
(4) M. Rovuma, 7JUN e 12AG069.
(5) Só mantém a qualificação se efectuar 4 ou 2 saltos por semestre consoante
tenha menos ou mais de 40 anos de idade, respectivamente.
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Publicado no "Jornal do Exército" Nº431 Novembro 1995 |