05/08/05

 

Comunicações e workshops em congressos, seminários, jornadas e encontros

A loja do Mestre André (Voltar)

Construção de materiais pedagógicos e sua utilização no ensino da música

Comunicação apresentada no Encontro de Professores PATIC2002 – Projectos e Aprendizagens com as TIC – (Évora) – Universidade de Évora – Programa Nónio, Século XXI, no 1º Encontro Ibérico de Tecnologias da Informação Evolutic2003 – (Beja) – Escola Superior de Educação de Beja – Programa Nónio, Século XXI, Encontro Re(encontrar) a Escola – (Setúbal) – Escola Superior de Educação de Setúbal, IV Ciclo de Conferências Tecnologia Educativa – (Fafe) – Escola Superior de Educação de Fafe e no 1.º Simpósio Nacional de Educação Básica (Pré-escolar e 1.º Ciclo) – (Aveiro) – Universidade de Aveiro – Departamento de Didáctica e Tecnologia Educativa.

Resumo

A minha comunicação pretende mostrar alguns dos trabalhos que tenho vindo a desenvolver com os alunos do Curso de Professores de Educação Musical do Ensino Básico da Escola Superior de Educação de Beja, fazendo inicialmente uma breve introdução teórica para que possamos compreender melhor esta temática relacionada com a aplicação das TIC no domínio do ensino da música. Por me parecer que os alunos deverão conhecer e contactar com novos instrumentos de trabalho de forma a contribuir para que venham a adquirir competências que lhes permitam utilizá-los posteriormente de uma forma consciente e equilibrada é que tenho vindo a desenvolver com eles estes trabalhos. Assim, pretendo que os alunos atinjam os objectivos referidos anteriormente de modo a poderem produzir os seus próprios materiais aquando quer da prática pedagógica que efectuam ao longo do curso, quer posteriormente no local de trabalho, quando já estiverem inseridos na vida activa.

Contextualização teórica musical da comunicação

Parece-me que hoje, no início do terceiro milénio, podemos afirmar sem receios que a situação musical no século passado se caracterizou por um domínio da tecnologia, do consumo e das comunicações. Graças à tremenda evolução destas áreas, a música tornou-se cada vez mais acessível a todos e a difusão do disco veio permitir a qualquer um e em qualquer momento ouvir, não só as grandes obras do passado, mas também as músicas de todos os povos. O domínio da tradição ocidental, que privilegiava a Música Erudita, caiu por terra e surgiu uma multiplicidade de experiências que reivindicaram igual dignidade no tratamento, como o Jazz, o Rock, etc.

Porém, por outro lado, no que diz respeito aos meios de comunicação social como a rádio e a televisão, podemos afirmar que estes foram, e são ainda hoje, uma das formas mais importantes de divulgação musical, não só de Música Erudita, mas também de novos géneros musicais que vão surgindo. É através deles, dos meios de comunicação social, que se constróem públicos específicos e se formam audiências. A audição de música reproduzida através da rádio e da televisão, e dos discos, das cassetes e dos Cds, veio influenciar bastante a nossa forma de a apreendermos, compreendermos e até de a consumirmos. Assim, estes vieram contribuir para o surgimento de gostos populares nacionais e talvez até possamos ir mais longe e dizer mesmo internacionais, baseados numa cultura capitalista Americana que manipula, de forma eficiente, uma nova e globalizante noção de gosto, que alcança hoje todas as casas do primeiro, segundo e terceiro mundos, tal como a Coca Cola, e com a mesma irrelevância para as necessidades reais.

Mas se a evolução tecnológica se fez sentir na forma de difundir e divulgar a música, ela também marcou presença na forma de registar os sons que os compositores definiam para serem tocados pelos músicos que interpretavam as suas composições. Durante a Idade Média, era nas bibliotecas das grandes abadias que os copistas do clero copiavam as melodias gregorianas a serem cantadas em diversas ocasiões religiosas em preciosos manuscritos e experimentavam formas, cada vez mais precisas e claras, de notação musical. Contudo, apesar de ter sido na Grécia Clássica que surgiu a primeira escrita musical claramente decifrável, só depois do séc. XI, altura em que Guido d’Arezzo inventa a pauta musical e os nomes das notas modernas, é que se passou a utilizar e se generalizou por todo o mundo ocidental um sistema de escrita musical extremamente completo e que constituiu um elemento crucial para o desenvolvimento da música em que era usado. Com a invenção da imprensa por Gutemberg, estas árduas e demoradas tarefas desempenhadas pelos monges, que viviam enclausurados entre quatro paredes e rodeados de papeis manuscritos, foram dando lugar à edição de partituras impressas pelas editoras musicais. Desta forma, antes da popularização da rádio e do gramofone, no séc. XIX, a música era difundida através de partituras impressas que apresentavam versões para piano dos sucessos da época (de árias de ópera populares e canções de comédias musicais e de espectáculos de variedades). Actualmente, graças à evolução tecnológica, já é possível a qualquer músico ou compositor imprimir, respectivamente, as suas melodias preferidas ou composições originais recorrendo a um simples computador multimédia e uma simples impressora. Hoje, aplicações informáticas como a Encore for Windows, que a Gvox tem vindo a desenvolver, permitem-nos apresentar partituras musicais de enormes orquestras com uma grande qualidade e produzidas num espaço de tempo bastante curto, ao mesmo tempo que delas se podem retirar todas as partes instrumentais, instrumento a instrumento. Ainda acerca das formas de registar a música (ou se quisermos ir mais longe e dizer mesmo os sons, quaisquer que eles sejam) não podemos esquecer de referir a importância da utilização, primeiramente, das fitas magnéticas e, mais recentemente, da tecnologia digital. Assim, se até ao séc. XX a única forma de registar a música era através da sua notação, de que já falei anteriormente, o séc. passado veio permitir registar a música doutra forma. Estas novas formas de registar os sons permitem perpetuar determinado acontecimento musical, registando-o auditivamente e tornando possível a sua posterior reprodução.

Por tudo isto, podemos salientar que, nos dias que correm, a tecnologia desempenha um importante papel no seio da música porque providencia um meio para a construção criativa, para o consumo e para o uso da música pelas pessoas que a ouvem. Mas, quando nos debruçamos sobre a evolução tecnológica, não podemos abordar apenas todo o desenvolvimento que se verificou na forma de registar ou reproduzir a música. É importante não esquecer todo o processo que envolve a sua produção, dando uma particular atenção à forma como, nos nossos dias, pode ser composta e executada toda uma parte instrumental por uma única pessoa, apenas com o auxílio de um conjunto de duas máquinas ligadas entre si – um sequenciador e um teclado Midi [1] (sintetizador).

Actualmente, a maior parte da música que ouvimos, em público ou em privado, é produzida e reproduzida mecanicamente e chega até nós através de um processo industrial elaborado e, por vezes, demasiado complicado, que está, na maior parte das vezes, ligado a um complexo sistema de fazer dinheiro. Assim, muitos “compositores” actuais usam um computador com um programa de sequenciação, o Cakewalk Sonar da Twelve Tone Systems ou o Cubase Studio da Steinberg, no qual criam as diversas pistas sintetizadas. Estas, que substituem os diversos instrumentos de cordas, sopro ou percussão, são tocadas pelos próprios através de um teclado Midi standard e, algumas vezes, com o apoio de uma caixa de ritmos, sendo-lhes, posteriormente, adicionadas as pistas áudio com a gravação das vozes.

Depois desta abordagem histórica acerca das influências da evolução tecnológica na música, debrucemo-nos agora sobre aspectos relacionados com a sua influência na educação musical. Gostaria de começar por salientar que a música sempre teve um lugar de relevo na educação ocidental e como exemplo disso posso referir que no séc. XVIII Jean-Jacques Rousseau, no seu livro Émile em que descreve a educação ideal para um rapaz, incluiu propostas pormenorizadas para a prática musical. Porém, é importante distinguir as influências da evolução tecnológica no lugar que a música tem ocupado na educação daquilo a que nos estamos a referir: as influências da evolução tecnológica no ensino da música. Assim, até há bem pouco tempo atrás a formação musical tinha exclusivamente o apoio do piano, instrumento que era utilizado pelo mestre para demonstrar ou exemplificar determinados conceitos e conteúdos, ou ainda para inquirir o seu discípulo sobre outros. Hoje é possível fazer uso de uma série de materiais e equipamentos que tornam os exemplos mais reais e diversificados e, simultaneamente, possibilitam outras vivências e outras formas mais interactivas e atractivas de ensino/aprendizagem.

Nos nossos dias, na área da formação musical, já é possível ouvir numa pequena sala de aula toda a gama tímbrica de uma grande orquestra recorrendo a um pequeno leitor de mini-disc; com o auxílio de um computador multimédia e um projector de dados já podemos ouvir e visualizar, mesmo que de forma virtual, instrumentos oriundos dos locais mais diversos que possamos imaginar e, ainda, ver como são tocados. Na área do ensino da composição, instrumentação e orquestração, já se pode ouvir de imediato como resulta a execução das ideias do compositor ou do arranjador através da utilização de um computador multimédia e de um simples kit Midi. Mas estes são apenas alguns dos variadíssimos exemplos de como o ensino da educação musical tem vindo a ser repensado e reformulado pela influência que nele tem tido a evolução tecnológica. Por esta razão, e por me parecer que qualquer escola de formação de professores deve estar aberta e receptiva aos novos desafios da modernidade, re-estruturando os seus métodos e as suas estratégias pedagógicas, facultando aos seus alunos novos instrumentos de trabalho e contribuindo para que estes adquiram competências que lhes permitam utilizá-los de uma forma consciente e equilibrada, é que no curso de Professores de Educação Musical do Ensino Básico foram incluídas duas cadeiras com vista à utilização das tecnologias no domínio da música. Com estas cadeiras, ambas semestrais e leccionadas logo nos primeiros dois anos de curso, pretende-se que os alunos atinjam os objectivos referidos anteriormente de forma a poderem produzir os seus próprios materiais aquando quer da prática pedagógica que efectuam ao longo do curso, quer, posteriormente, no local de trabalho, quando já estiverem inseridos na vida activa.

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[1] Midi são as iniciais de Musical Instrument Digital Interface.

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Este site foi actualizado pelo última vez em 05/08/05