05/08/05

 

Comunicações e workshops em congressos, seminários, jornadas e encontros

O Estatuto do Animador Sociocultural (Voltar)

Comunicação apresentada na Reflexão Animação Sociocultural e Animadores Socioculturais (Beja) – Escola Superior de Educação de Beja – Turma do 2.º ano do Curso de Animadores Socioculturais.

Resumo

A minha comunicação surge porque neste momento penso que se colocam aos animadores vários problemas, quer inerentes à sua própria actividade – a problemática da animação sociocultural – quer ao seu próprio estatuto, que não existe. É necessário que se institucionalize o animador enquanto agente interveniente no processo de desenvolvimento social e cultural de uma comunidade. Definir o estatuto do animador significa um salto qualitativo na prática da animação. Mas que formação deverá então ter um animador sociocultural? Uma formação de carácter geral e/ou uma formação de carácter específico? Parece-me que a existência de cursos de animador sociocultural, ministrados, quer ao nível das ensino profissional, quer ao nível do ensino superior, constituem uma tentativa para responder, de uma forma cabal, a esta necessidade de formação com que se deparam estes profissionais, com todas as limitações e eventuais imperfeições que se lhes possam assacar. Parece-me pois legítimo profissionalizar o animador e dotá-lo de determinados conhecimentos, ministrados através de uma formação que este deverá receber de uma forma estruturada e baseada em factos científicos, pois só assim me parece possível que este venha a desenvolver um trabalho mais rigoroso e enriquecedor, dignificando a profissão e, simultaneamente, contribuindo para reforçar o seu estatuto.

Contextualização teórica musical da comunicação

Neste momento penso que se põem aos animadores vários problemas, quer inerentes à sua própria actividade – a problemática da animação sociocultural – quer ao seu próprio estatuto, que não existe. É necessário que se institucionalize o animador enquanto agente interveniente no processo de desenvolvimento social e cultural duma comunidade. Definir o estatuto de animador significa simultaneamente um salto qualitativo na prática da animação, uma vez que, a ausência de qualquer definição neste campo, deixa aberto a qualquer um o desempenho desta actividade. Mas será o trabalho do animador menos válido que o trabalho dum médico, dum enfermeiro, dum advogado? Penso que não, são apenas diferentes e não mais ou menos importantes. Então porque razão para se exercer medicina tem obrigatoriamente que se ter uma formação específica na área da medicina, para se exercer enfermagem tem obrigatoriamente que se ter uma formação específica na área da enfermagem, para se exercer advocacia tem obrigatoriamente que se ter uma formação específica na área do direito, e depois, para se exercer animação não tem obrigatoriamente que se ter uma formação específica na área da animação?

Não existe resposta a esta questão porque ela está mal formulada. Ao ser colocada deste modo (e isso só acontece assim, porque é o que se passa na realidade – não tem vindo a ser necessário possuir uma formação específica para exercer animação), parte-se do pressuposto de que a animação pode ser exercida por qualquer um. Isso não é verdade, a animação só deve poder ser exercida pelo animador. Deve ser ele o profissional possuidor de conhecimentos específicos na área. Assim, a dignificação do animador e a valorização da sua actividade – a animação sociocultural – estão relacionados intrinsecamente e o facto de até então isso ainda se encontrar em estado embrionário, leva facilmente a deduzir a fraca qualidade do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido. Mas, pelo que acabei de referir, somos levados a concluir que o animador deverá ser, tal como o médico, o enfermeiro ou o advogado, um profissional. E será que deverá ser um profissional? Para podermos responder de uma forma fundamentada a esta questão, será necessário recuarmos um pouco no tempo. Façamos uma pequena retrospectiva da evolução do conceito de animação e em simultâneo do papel e estatuto do animador.

O conceito de animação está muito significativamente ligado ao conceito de tempo, e mais propriamente ao conceito de tempo livre. Por um lado, com a Revolução Industrial e a mecanização do trabalho, nos princípios do nosso século, o trabalho que inicialmente era feito por vários homens passou a ser feito apenas por uma máquina comandada por um único homem. Mas, as alterações não se ficaram por aí, e o tempo que antes era necessário para realizar uma determinada tarefa foi gradualmente sofrendo uma redução. Estes factores levaram a que as empresas não hesitassem e adoptassem sem qualquer relutância estes novos procedimentos. Por outro lado, se na altura se trabalhava sem uma definição muito concreta de quando se deveria começar ou acabar, com o aparecimento de movimentos sindicais a situação alterou-se radicalmente. Estes vieram a contribuir para a fixação do horário de trabalho bem como para a sua redução, e isso deu origem primeiramente ao conceito de tempo livre e, gradualmente, o tempo livre, que sempre existiu, foi aumentando. Deste modo, todos estes factores fizeram do nosso homem um ser com mais disponibilidade. Mas, o que fazer com essa disponibilidade? Isto levou então a que o homem sentisse necessidade em ocupar os tempos livres. Assim, as actividades que o homem já exercia, depois de um dia de árduo trabalho, tornaram-se mais frequentes, pois o dia já não era tão trabalhoso e o homem também já tinha mais tempo para se dedicar a elas. Com o decorrer dos anos estas actividades começaram a ter um carácter, não só de entretenimento, mas também lúdico-pedagógico. Começou também a sentir-se a necessidade de estas passarem a ser planeadas e estruturadas de acordo com os interesses e as necessidades das populações. E foi nessa altura que surgiu o termo de animação sociocultural e consequentemente o de animador sociocultural como principal agente no processo de animação e, sem o qual este não existe. Mas, a emergência de novos hábitos sociais tem vindo a conduzir o homem para o seu isolamento. Hoje é possível, sem sair de casa e apenas com o pressionar de alguns botões, falar com um familiar que se encontra no outro lado do planeta, ver o que se está a passar noutro país a umas centenas de quilómetros, escolher a ementa para um jantar de aniversário, comprar um trem de cozinha anunciado pela televisão, enfim, até transaccionar acções na Bolsa de Nova Iorque enquanto se está a passar férias em Palma de Maiorca.

De uma forma geral, a evolução tecnológica e o processo de urbanização têm vindo a contribuir para uma quebra dos laços comunitários de cariz tradicional e espaços reais de convívio, como a mercearia ou o largo da aldeia, têm vindo a ser substituídos por espaços virtuais, onde um computador, um telefone, um fax, etc. são um interface que liga, de uma forma fria, distante e imparcial, as diversas personagens em jogo no palco desta enorme aldeia global em que vivemos. E, se inicialmente a animação assentava em formas tradicionais, e se baseava em manifestações de carácter ritualista, e como tal profundamente alicerçadas em hábitos ancestrais próprios de comunidades mais conservadoras, em que os animadores eram frequentemente espontâneos ou carolas, esta foi alvo de um gradual, mas significativo, processo de metamorfose e tornou-se necessário considerar as novas exigências. A melhoria das condições sócio-económicas, levou a que surgissem novas necessidades e apetências sociais. Se tivermos também em consideração, por um lado, que os destinatários de qualquer actividade de animação são cada vez mais diversificados e até mais exigentes e, por outro, que o número elevado de instituições envolvidas para levar a efeito qualquer actividade, podemos entender mais facilmente o grau de complexidade a que nos estamos a referir.

Assim, fazer animação nos dias que correm é uma tarefa mais complexa do que aquilo que pode parecer à primeira vista. Hoje, novos desafios se abrem à animação para os quais as formas tradicionais se têm vindo a mostrar incapazes de responder e ao animador é exigido um trabalho rigoroso e planeado que não se compadece com manifestações de carácter espontâneo e imediatista. Por tudo isto, o animador não pode continuar a ser alguém que, por carolice, tenta desenvolver algumas iniciativas, mas terá que ser alguém que, de uma forma profissional, planifica e põe em prática as actividades de animação. E se até há bem pouco tempo o animador era o tal carola, que possuía um saber de experiência feito, ou seja, possuidor de uma formação conseguida de forma empírica pelo trabalho que desenvolvia nas organizações a que pertencia, através das experiências adquiridas e acumuladas, cada vez mais se tem vindo a sentir a necessidade dessa formação ser feita de forma mais estruturada e científica. Assim, é exigida ao animador sociocultural uma formação de base que lhe permita fazer a gestão de todos estes factores de forma a poder concretizar os seus projectos de animação. E isto levanta-nos outro problema – Que formação deverá então ter um animador sociocultural?

Para responder a esta pergunta será necessário primeiro esclarecer o que é um animador sociocultural, pois do que já foi dito apenas podemos salientar que se trata de alguém que tem o papel preponderante de ser o agente principal no processo de animação. Assim, parece-me que animador deve ser: todo aquele que, tendo recebido uma determinada formação, é capaz de elaborar e pôr em prática um plano de animação numa comunidade, instituição ou organismo, utilizando actividades socioculturais e, visando em última análise o desenvolvimento harmonioso das potencialidades dos seus elementos, de forma a tornarem-se agentes transformadores do seu meio. Na sequência desta definição, é importante referir também que o campo de acção do animador poderá definir-se tendo em conta três principais factores. 1. Para quem – A animação destina-se a pessoas e não faz distinção entre elas. Assim, os seus destinatários podem ser adultos ou crianças, homens ou mulheres, etc., é alheia a credos políticos ou religiosos e não selecciona os seus destinatários pela sua condição social, pela sua raça ou cor de pele. 2. Onde – A animação desenvolve-se em espaços de animação, tais como instituições ou equipamentos socioculturais e, num âmbito mais alargado, em qualquer espaço que permita a realização das actividades previstas no plano de acção. Desta forma até o café ou o largo da aldeia são possíveis espaços de animação. 3. Como – através da realização de actividades concretas tais como: o cinema, o teatro, a dança, a música, etc.

Assim, tendo em consideração os pressupostos acabados de referir, o animador deverá ser possuidor de um leque muito diversificado de conhecimentos. Mas esta formação pode dividir-se em dois blocos: a formação de carácter geral e a formação de carácter específico. No que diz respeito à primeira, esta, segundo o meu ponto de vista, deverá incidir essencialmente em noções gerais de pedagogia, de técnicas de dinâmica de grupos e de ocupação de tempos livres, noções relacionadas com o associativismo e a liderança de grupos e, acima de tudo, uma vasta cultura geral. No que concerne à segunda, esta, deverá debruçar-se sobre as áreas de intervenção de cada animador, tais como a música, o teatro, as artes plásticas, a dança, o desporto, e todas as outras, mas também sobre diversas problemáticas relacionadas com o escalão etário dos destinatários, ou seja, das pessoas com que vai desenvolver as suas actividades de animação. Mas onde poderá o animador conseguir esta formação? Parece-me que a existência de cursos de animador sociocultural, ministrados, quer ao nível das ensino profissional, quer ao nível do ensino superior, constituem uma tentativa para responder, de uma forma cabal, a essa necessidade, com todas as limitações e eventuais imperfeições que se lhes possam assacar. Convém fazer lembrar que tais cursos se encontram ainda numa fase inicial (se bem que os ministrados pelas escolas profissionais tenham surgido alguns anos mais cedo). Contudo, não estamos obviamente diante de realidades imutáveis e os cursos agora ministrados, poderão sofrer alterações curriculares, de forma a adequá-los melhor ao grande objectivo final que é a formação dos animadores.

Por tudo o que foi referido anteriormente, parece-me pois legítimo profissionalizar o animador e dotá-lo de determinados conhecimentos, ministrados através de uma formação que este deverá receber de uma forma estruturada e baseada em factos científicos, pois só assim me parece possível que este venha a desenvolver um trabalho mais rigoroso e enriquecedor, dignificando a profissão e, simultaneamente, contribuindo para reforçar o seu estatuto.

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Este site foi actualizado pelo última vez em 05/08/05