05/08/05

 

Comunicações e workshops em congressos, seminários, jornadas e encontros

A grande Orquestra (Voltar)

Novos desafios no ensino da música

Comunicação apresentada no Encontro de Professores PATIC2003 – Projectos e Aprendizagens com as TIC – (Évora) – Universidade de Évora – Programa Nónio, Século XXI e no Congresso Ibero-Americano Luzes no labirinto audiovisual – Edu-comunicação num mundo global – (Huelva) – Universidade de Huelva – Grupo Comunicar.

Resumo

A minha comunicação surge por me parecer que actualmente entender de equipamentos electrónicos é um requisito básico e essencial, e aquele que não se adaptar a essa nova realidade ficará excluído do circuito principal. Este aspecto também se aplica à área musical e por ter consciência disso, uma fatia maioritária dos músicos modernos lida com a tecnologia de maneira directa aplicando-a como parte da sua rotina de trabalho e esta também deve ser a tendência seguida no ensino da música. Com base neste pressuposto, também me parece que as tecnologias têm um importante papel a desempenhar nos processos de educação musical e que qualquer escola de formação de professores deve estar aberta e receptiva a estes novos desafios da modernidade, re-estruturando os seus métodos e as suas estratégias pedagógicas, facultando aos seus alunos novos instrumentos de trabalho e contribuindo para que estes adquiram competências que lhes permitam utilizá-los de uma forma consciente e equilibrada. É por isso que tenho vindo a desenvolver um trabalho com os alunos do curso de Professores de Educação Musical do ensino Básico da Escola Superior de Educação de Beja de modo a que estes possam utilizar nas suas actividades métodos e técnicas que recorram a novos materiais, mais reais e diversificados, criativos e originais, aquando quer da prática pedagógica que efectuam ao longo do curso, quer posteriormente no local de trabalho, quando já estiverem inseridos na vida activa.

Contextualização teórica musical da comunicação

1. Onde está a educação musical?

A música está em todo o lado, seja pela própria música enquanto arte que espelha a criatividade e o virtuosismo do seu compositor ou como complemento para uma performance ou uma peça de teatro. Pode estar no automóvel enquanto fazemos a viagem para o trabalho, na cozinha enquanto preparamos o jantar, na casa ao lado, ou até mesmo no assobiar melancólico de um desconhecido com que nos cruzamos na rua. Talvez ela esteja presente apenas no pensamento, evocando lembranças e sensações distantes do passado. “A música pode exprimir atitudes sociais e processos cognitivos” (BLACKING, 1973: 54) e tem poderes para acalmar ou exaltar, alegrar ou entristecer, diminuir a dor ou trazê-la de volta, fazer lembrar ou fazer esquecer. É impossível permanecer imune a esta forma artística que, ao longo dos séculos, se vem diversificando e expandindo, infiltrando-se e conquistando espaços, evoluindo sempre através da troca de influências e de misturas entre os seus estilos.

A música está em todo o lado, nas nossas casas no som dos talheres à mesa, nas ruas das nossas grandes cidades quando se ouvem as buzinas dos automóveis e quando estes aceleram ou travam frenética e bruscamente. A paleta sonora do quotidiano e que nos envolve é propícia para o despoletar de ritmos e melodias constantes, tanto nas composições agitadas das grandes cidades como nas tranquilas sinfonias dos parques e florestas. Hoje tudo é música, e quando falamos de música, falamos de som e de silêncio. John Cage já afirmou que o silêncio é música e chegou a apresentar uma obra feita da ausência total de som.

Por tudo isto podemos dizer que “a música invadiu totalmente a nossa vida. Infiltra-se em fábricas e oficinas, expande-se por campos e praias graças à estranha devoção da massa domingueira equipada com uma infinidade de transístores. A música acompanha-nos nas viagens de automóvel ou nas deslocações de avião. Nas salas de espera dos hotéis e aeroportos, nas barbearias, no bar, no restaurante, etc., automaticamente envolve-nos e embala uma suave e mole atmosfera musical que se escapa de recônditos e inesperados altifalantes” (GORINA, 1971: 115). Mas para identificar e apreciar essa música omnipresente é preciso sensibilidade, algo inerente a todo o ser humano mas que nem sempre se mostra à superfície do comportamento. A música “é útil e eficaz apenas quando é ouvida pelos ouvidos preparados e receptivos das pessoas que têm partilhado, ou podem partilhar, de algum modo, as experiências individuais e culturais dos seus criadores” (BLACKING, 1973: 54). Mas será que todos nós somos capazes de apreciar essa música? Talvez não, pois para a podermos apreciar é preciso desenvolvermos a percepção musical e criarmos condições para uma relação frutífera e integrada com os sons que nos rodeiam ao longo da vida. Portanto educar musicalmente é, acima de tudo, contribuir para que todos possamos alcançar estes objectivos. Assim, o papel do professor é o de mostrar os caminhos para a compreensão da música, uma compreensão que não se limita aos aspectos técnicos da organização teórica de ritmo, melodia, harmonia, etc. mas que envolve também o refinamento do gosto e do paladar musical. Contudo, a componente teórica faz parte da educação, pois proporciona a aquisição de estruturas significativas e imprescindíveis que sustentam toda a base para uma melhor compreensão e entendimento da realidade prática que nos rodeia constantemente, da mesma forma como o estudo histórico nos ajuda a compreender e entender os caminhos trilhados até ao momento presente. Para os estruturalistas esse processo de aprendizagem baseia-se na aquisição de novos conhecimentos, no processamento das informações recebidas, e na interacção dos conteúdos com a experiência dos indivíduos envolvidos e tudo isso pode ocorrer através de uma educação formal e/ou não formal.

2. Educação Formal e Não Formal

Em Portugal, o ensino formal da música ocorre nas escolas e instituições aprovadas pelos órgãos oficiais, ao nível dos ensinos pré-escolar, básico, secundário e superior. Durante o pré-escolar e o 1.º ciclo as crianças têm oportunidade de frequentar aulas de Expressão Musical e no 2.º e 3.º ciclos, quer através do regime regular quer do articulado, as crianças e os jovens podem frequentar as aulas de Educação Musical e de Música, respectivamente. No ensino secundário esta oportunidade apenas surge nos Conservatórios e Academias de Música e no ensino superior surge através de uma formação específica nos estabelecimentos de ensino vocacionados para o ensino da música e de uma formação complementar (para professores e educadores) nas escolas de formação de profissionais docentes. Sem emitir nenhum juízo de valor em relação à forma como na prática tudo isto se verifica, podemos acrescentar que o objectivo principal parece-nos ser, de uma maneira geral, criar bases musicais no indivíduo, sensibilizando-o para diferentes estilos de música e permitindo-lhe uma maior compreensão da sua história.

Assim, no ensino básico (e por vezes no pré-escolar) algumas escolas oferecem a expressão musical como uma disciplina individual ministrada por um professor da especialidade e outras, que não têm essa possibilidade, ou ignoram a disciplina ou a abordam de uma forma muito superficial pelo professor generalista ou pelo educador. Mas é necessário e fundamental destacar a importância da musicalização infantil por representar o primeiro contacto da criança com a música e, deste modo, ser um factor decisivo na formação apreciativa da mesma. Assim, tal como uma experiência positiva pode ser um factor de sensibilização da criança para a música e contribuir para lhe despertar o gosto por esta arte, fazendo com que a frequência das aulas de expressão musical seja uma escolha voluntária; forçar o estudo da música nessa altura pode criar uma aversão que irá persistir para toda a vida juntamente com a noção de que música e escola não se misturam e de que o universo do professor/educador é distinto do da arte de que a criança gosta. Depois de introduzir o assunto e desenvolver as potencialidades básicas da criança, é vital dar oportunidades para a continuação do processo, através de actividades extra curriculares que permitam a cada uma a prática das suas habilidades e interesses particulares. Um exemplo claro seria a formação de pequenos agrupamentos musicais de diversos níveis e estilos com crianças.

A educação não formal existe em diferentes ambientes e situações, podendo estar organizada dentro dos conservatórios e academias ou distribuída entre pais e professores que se especializam em determinadas áreas da música. “Nos dias de hoje há cada vez mais pais e programas educativos sensibilizados para a necessidade de incluir a música como uma das áreas de aprendizagem das crianças” (RODRIGUES, 1998: 39).

Para um nível mais elevado existem ainda materiais didácticos diversos – livros, revistas, métodos e manuais, etc. – que permitem ao aluno ser o seu próprio mestre, frequentemente adquirindo informações de várias fontes para formar o seu conhecimento. Nesta área artística conseguimos encontrar uma forte tradição de carácter autodidacta no aprendiz que persiste mesmo quando a figura do professor está presente. É a própria natureza do aluno que o deixa em estado de alerta permanente, numa procura constante com todos os meios ao seu alcance e em todos os espaços em busca de algum conteúdo que lhe possa interessar.

O principal objectivo de quem recorre a uma educação não formal é habilitar-se tecnicamente para as suas próprias performances musicais dominando ao máximo a prática e de um modo menos enfatizado também alguma teoria. De uma forma mais resumida podemos concluir que o recurso à educação não formal visa essencialmente desenvolver instrumentistas (músicos práticos). Esta centralização no instrumento é atraente para muitos alunos que acreditam assim dominar o essencial, relegando para um plano secundário o raciocínio intrínseco da academia onde a preocupação existente é criar bases para uma melhor compreensão e entendimento da realidade prática que rodeia constantemente o aluno. Nessa perspectiva, são várias as disciplinas que utilizam discursos marcados por um teor filosófico para o qual muitos músicos não estão sensibilizados e ao qual não estão habituados. É este aspecto, obviamente contrastante, que causa muitas vezes um distanciamento entre o mundo académico formal e o mundo autodidacta não formal que está na origem de grande parte dos instrumentistas.

A utilização das TIC pode estabelecer um novo padrão no ensino da música, tanto no ensino formal quanto no não formal. A tecnologia pode ser vista como o elemento de conexão entre diversas matérias, contribuindo para a associação da prática e da teoria e consolidando a educação musical de forma a agradar a professores e alunos. Desta forma, o acesso à informação fica facilitado e há a possibilidade de criar uma nova consciência musical onde não exista radicalismo ou aversão contra nenhuma área do conhecimento. No entanto, parece-nos que para avaliar o recurso às TIC no ensino da música é preciso saber quem são os professores e, essencialmente, quem são os alunos, onde obtêm a informação e qual o tipo de estudo mais adequado.

3. Quem são os alunos?

Todo e qualquer ser humano é um potencial aluno de música. Cada um têm um ritmo próprio dentro de si, marcado pelas batidas do coração ou pela cadência dos seus próprios passos ao caminhar. Em maior ou menor escala todos nós estamos, de certa forma, emocionalmente envolvidos por determinadas melodias e transportamos connosco sentimentos e recordações associados a músicas do passado. Porém, nem todos conseguimos fazer emergir a musicalidade que se encontra no interior de cada um de nós, e alguns de nós jamais desenvolverão a sua percepção musical ou até mesmo uma carreira nesta área artística.

Mas concentremo-nos nos três grupos principais que podemos encontrar entre aqueles que têm oportunidade de aceder à informação. O primeiro grupo é composto por crianças: estas estão a ter o seu primeiro contacto com a música – o que lhes pode despertar interesse e o que irá perdurar por toda a sua vida. O segundo grupo é constituído pelos estudiosos da música propriamente ditos: os instrumentistas (ou músicos práticos) que fazem música e os teóricos académicos que reflectem acerca do universo musical. O terceiro grupo é formado pela população em geral: esta não está envolvida directamente na produção da música, mas ouve-a, aprecia-a e muito possivelmente uma grande parte gostaria de aprender mais a respeito dela.

O trabalho realizado com crianças tem como objectivo desenvolver a sensibilidade e criar as primeiras noções de ritmo na criança através de jogos e brincadeiras, ou seja, através de uma forte componente lúdica. Na fase pré-escolar, através da participação em actividades musicais, a criança aprende a cantar em grupo e começa a percepcionar diferenças rítmicas e melódicas. Esse momento é marcado pela total ausência de preconceitos que possam interferir no processo de musicalização da criança. É importante proporcionar à criança o contacto com instrumentos musicais e dar-lhe a hipótese da sua experimentação e manipulação usando a curiosidade, uma característica própria da idade, e contribuindo assim para o desenvolvimento de capacidades específicas do seu sistema auditivo no que diz respeito à distinção dos sons. A partir daí a escola passa a interferir de uma forma bastante significativa no presente e, por consequência, no futuro musical da criança.

Mais tarde, quando o aluno já adquiriu a estrutura básica e deseja aprofundar os conhecimentos, passa para uma nova etapa de estudos, que pode até culminar numa vida académica dedicada à música. Nessa fase posterior são vários os campos que compõem a aprendizagem, juntando a prática e a performance com a teoria musical, bem como estudos de História da Música, Análise e Técnicas de Composição, etc. A par destes também existem aqueles que não se dedicam ao estudo da música mas que necessitam de uma formação cultural mais acentuada para fazer face ao seu próprio gosto pela música. Para estes, mais do que a parte técnica e prática necessária aos instrumentistas, interessa a história da música – especialmente aquela dos seus ídolos – para poderem compreender a realidade musical em que vivem e que apreciam.

A missão do educador é formar indivíduos emocionalmente controlados, livres de preconceitos, observadores, críticos e conscientes, indicar os caminhos que devem ser percorridos para tal, mostrar onde está a informação necessária e como é que ela pode ser utilizada. Certas áreas de estudo da técnica musical exigem repetições mecânicas contínuas e é aí que o professor tem um papel importante ao comentar, avaliar, incentivar e assinalar progressos ao aluno. É necessário também fazer uma selecção criteriosa da informação que chega aos alunos de modo a que estes não sejam confrontados com informações erradas e/ou desnecessárias e que a informação certa chegue até ao aluno certo, dentro de seu nível de capacitação e entendimento, bem como das competências já adquiridas e a adquirir. Por tudo isto parece-nos que a educação musical tem nas novas tecnologias um aliado vital na medida em que permite mais facilmente disponibilizar essas informações e a influência que estas tem exercido na música pode ser notada fortemente ao longo da história.

4. As Novas Tecnologias

Assim, o desenvolvimento tecnológico teve uma ampla influência na música, quer seja nos seus meios de difusão e divulgação, na forma de registar os sons (primeiramente através das partituras em suporte de papel e mais recentemente nas cassetes, discos, cds, etc. através de um suporte áudio), na sua produção e distribuição, ou mesmo nos seus estilos e tendências. Actualmente, “o domínio da tradição ocidental, que privilegiava a Música Erudita, caiu por terra e surgiu uma multiplicidade de experiências que reivindicaram igual dignidade no tratamento, como o Jazz, o Rock, etc.” (MARQUES, 2003: 192). O desenvolvimento dos meios de comunicação de massa trouxeram novas oportunidades a músicos e compositores, abrindo-lhes os horizontes e permitindo-lhes vislumbrar outras possibilidades de combinar os sons, quer aqueles com que já vinham a trabalhar, quer outros novos e fruto da utilização das novas tecnologias. Este facto deixou-os então imersos no complexo sistema industrial que tem vindo a evoluir até chegarmos ao mundo actual com a utilização de gravadores multipistas, computadores, estúdios virtuais, etc.

Provavelmente o primeiro efeito da tecnologia na música foi através da melhoria técnica dos luthiers – nome atribuído aos fabricantes artesanais de instrumentos – e das diversas experiências no campo da acústica que vieram a contribuir para o aperfeiçoamento dos instrumentos. Com instrumentos melhores e mais bem acabados é possível chegar a um resultado sonoro mais satisfatório. Mas outro aspecto desde cedo se mostrou preocupante para os compositores: a forma de fazer perdurar no tempo as suas composições, uma vez que, depois de executadas, as composições perdiam-se no espaço e no tempo, e somente seriam recuperadas se mais tarde voltassem a ser interpretadas novamente. E se enquanto os compositores eram os músicos práticos esse aspecto estava minimizado, pois a composição musical conseguia permanecer viva enquanto o próprio executante fosse vivo, a partir da altura em que começaram a existir compositores e músicos esse aspecto começou também a agudizar-se com a agravante de ser necessário passar a existir uma linguagem comum entre ambos para que o músico prático soubesse o que deveria cantar ou tocar. Assim, com o aperfeiçoamento da notação musical no séc. XI por Guido d’Arezzo, a forma mais eficaz de passar a música do compositor ao músico ou entre músicos era a escrita, sendo que as cópias de partituras eram feitas à mão, uma de cada vez. “Com a invenção da imprensa por Gutemberg, estas árduas e demoradas tarefas desempenhadas pelos monges, que viviam enclausurados entre quatro paredes e rodeados de papéis manuscritos, foram dando lugar à edição de partituras impressas pelas editoras musicais e no séc. XIX, antes da popularização da rádio e do gramofone, a música era difundida através de partituras impressas que apresentavam versões para piano dos sucessos da época” (MARQUES, 2003: 193). Esta evolução na forma de copiar as partituras viria facilitar a produção de diversas cópias de modo quase instantâneo, viabilizando assim o primeiro canal de transmissão de informação musical e actualmente é possível imprimirmos as nossas próprias partituras recorrendo apenas a um computador multimédia e uma simples impressora. Mas já anteriormente, com o surgimento de meios de gravação, primeiramente, através das fitas magnéticas e, mais recentemente, com a tecnologia digital, a música passou a poder ser registada auditivamente com a interpretação e a sonoridade característica de cada compositor e/ou intérprete, existindo actualmente gravações de altíssima qualidade.

Mas a evolução tecnológica afectou também a produção musical fazendo surgir, como já referimos anteriormente, uma multiplicidade de experiências e estilos de música, com novos e modernos timbres que transformaram e revolucionaram não somente o som mas também o papel social desempenhado pelos músicos até então. Como exemplo podemos referir a rebeldia e agressividade da guitarra eléctrica no rock’n’roll dos anos 50 e o uso de sintetizadores (teclados capazes de sintetizar diferentes tipos de som) na década de 80, originando o que iria chamar-se new wave.

Recentemente, o estabelecimento do protocolo Midi (Musical Instrument Digital Interface) foi outra contribuição notável no âmbito da produção musical. Este protocolo permite conectar instrumentos electrónicos entre si e com computadores, tornando possível actualmente compor e executar “toda uma parte instrumental por uma única pessoa, apenas com o auxílio de um conjunto de duas máquinas ligadas entre si – um sequenciador e um teclado Midi (sintetizador)” (MARQUES, 2001: 127). Este tipo de comunicação pode ser utilizado em vários contextos, inclusive na educação.

Resumindo, a tecnologia ao longo dos anos tem ajudado a delinear o funcionamento das estruturas que regem a música nos dias de hoje. Mas para podermos acompanhar a história da música é necessário compreender como ela tem sido afectada pela evolução tecnológica, tanto como por factores sociais, políticos, económicos, etc. É necessário combater o medo do futuro que por vezes nos domina, ou talvez, o receio de que as máquinas possam um dia substituir os músicos. Parece-nos que hoje o que acontece mais frequentemente é a integração da tecnologia na realidade já existente, onde actua como instrumento facilitador, e não como instrumento destrutivo e complicado.

5. As Novas Tecnologias Aplicadas à Educação Musical

Parece-nos que hoje, no início do terceiro milénio, podemos afirmar sem receios que a situação musical no século passado se caracterizou por um domínio da tecnologia, do consumo e das comunicações. Graças à tremenda evolução destas áreas, a música tornou-se cada vez mais acessível a todos e a difusão do disco veio permitir a qualquer um e em qualquer momento ouvir, não só as grandes obras do passado, mas também as músicas de todos os povos.

Porém, no que diz respeito aos meios de comunicação social como a rádio e a televisão, podemos afirmar que estes foram, e são ainda hoje, uma das formas mais importantes de divulgação musical, não só de Música Erudita, mas também de novos géneros musicais que vão surgindo. “É através deles, dos meios de comunicação social, que se constróem públicos específicos e se formam audiências” (MARQUES, 2001: 139). “A audição de música reproduzida através da rádio e da televisão, e dos discos, das cassetes e dos Cds, veio influenciar bastante a nossa forma de a apreendermos, compreendermos e até de a consumirmos” (MARQUES, 2003: 192). Graças a eles surgiram gostos populares nacionais e até internacionais com base numa cultura capitalista americana que consegue manipular, de uma forma subtil mas eficaz, uma nova e globalizante noção de gosto que alcança hoje todo o mundo, tal como a Coca-cola, e com a mesma irrelevância para as necessidades reais.

Assim, por todos os aspectos anteriormente mencionados, a tecnologia também tem um importante papel a desempenhar nos processos de educação musical. A facilidade com que permite a transmissão de informações, principalmente através da possibilidade de gravar um som e reproduzi-lo pelos meios de comunicação de massa, marcou uma nova era em que o acesso à música é extremamente simples. Hoje pode-se aprender com os grandes mestres da actualidade mas também com os do passado – já é possível ouvir numa pequena sala de aula toda a gama tímbrica de uma grande orquestra recorrendo a um pequeno leitor de mini-disc, bem como a interpretação de determinada obra por este ou aquele concertista de renome; aprender com a música vinda de países distantes – com o auxílio de um computador multimédia e um projector de dados já podemos ouvir e visualizar, mesmo que de forma virtual, instrumentos oriundos dos locais mais diversos que possamos imaginar e ainda ver como são tocados; aprender com metodologias feitas por professores de renome, ou até mesmo aprender com os próprios erros. “Na área do ensino da composição, instrumentação e orquestração, já se pode ouvir de imediato como resulta a execução das ideias do compositor ou do arranjador através da utilização de um computador multimédia e de um simples kit Midi” (MARQUES, 2003: 195). Graças a esta possibilidade a partitura de uma peça pode ser visionada no monitor do computador ao mesmo tempo que é interpretada, tendo o ouvinte a possibilidade de escolher quais os instrumentos que quer ouvir, subtraindo ou adicionando-os um a um até chegar à orquestra completa. Esta utilização sincronizada do áudio com o acompanhamento visual da partitura pode ser vista como uma nova forma de estudo, para além de desenvolver a leitura musical num contexto não tradicional.

6. Conclusão

Chegamos à reflexão final sobre a importância da utilização das novas tecnologias na educação musical. Parece-nos que, apesar dos diversos trabalhos já realizados, ainda existe um campo bastante amplo a ser explorado no sentido de utilizar as TIC no ensino da música. São inúmeras as vantagens para a educação musical, sendo que algumas delas quase que ainda não foram colocadas em prática.

Uma análise do perfil da maioria dos aprendizes de música revela um alto teor de autodidactismo, o que faz com que os alunos cheguem às suas próprias conclusões a partir duma mistura de informações oriundas de diversas fontes, sempre colocadas em contraste com os seus gostos pessoais e as suas experiências passadas. Em determinados momentos o estudo da música é fortemente subjectivo, e em vez de se procurarem verdades absolutas procuram-se respostas que funcionem, de um modo particular, para cada indivíduo. Com o recurso às TIC, diversificam-se as opções em relação aos diversos sistemas de aprendizagem, e um maior número de alternativas de referência são oferecidas. A figura do professor ou educador surge cada vez mais como um facilitador das aprendizagens, orientando o aluno para uma absorção mais efectiva do material disponível.

A utilização das TIC pode associar elementos da educação formal com outros da não formal, beneficiando tanto a teoria mais generalizada presente nos meios académicos quanto o aspecto prático dos meios não formais. Consequentemente, temos uma maior aproximação da prática real - da performance: o lado puramente instrumentista – à teoria veiculada pelos meios académicos, incentivando um maior número de músicos práticos a tornarem-se também investigadores.

Actualmente entender de equipamentos electrónicos é um requisito básico e essencial, e aquele que não se adaptar a essa nova realidade ficará excluído do circuito principal. Este aspecto também se aplica à área musical e por ter consciência disso, uma fatia maioritária dos músicos modernos lida com a tecnologia de maneira directa aplicando-a como parte da sua rotina de trabalho. Esta também deve ser a tendência seguida no ensino da música, onde professores e alunos precisarão de mais material, irão produzi-lo e, consequentemente, por existir mais material disponível outros professores começarão a incluir tais recursos nas suas metodologias.

Para terminar gostaríamos agora de vos mostrar alguns exemplos de trabalhos realizados pelos alunos do Curso de Professores de Educação Musical do Ensino Básico, resultantes da aplicação destes pressupostos teóricos nas aulas de Novas Tecnologias Aplicadas à Música I, leccionadas na Escola Superior de Educação de Beja.

(Voltar)

Este site foi actualizado pelo última vez em 05/08/05