A MINHA ALDEIA

 

Por Lurdes Alves

Maio de 2007

 

 

Cercada de serras e vales, a aldeia estende-se no planalto, esquecida e desertificada. As casas foram, em tempos já longínquos, construídas, estrategicamente, unidas umas às outras, com paredes meias, em forma de comboio. Uma espécie de fortaleza aos ataques de lobos e de javalis que em tempos por ali abundavam.

 

O casario escuro de pedra e barro, a sugerir tempos antigos de invasões bárbaras e costumes medievais, já quase não existe: foi substituído por casas branquinhas a imitar os chalés, consequência de uma emigração forçada...

 

Para trás, ficou o tempo de uma vida cheia de cansaços: do semear do milho sequeiro e regadio, do trigo e do centeio, e das malhas nos eirados de pedra escura. Das desfolhadas, do fazer do pão e do vinho e do desventrar da terra dura e quase estéril...

 

Desse tempo, apenas ficou a memória de infância. Hábitos de partilha e rituais campestres que eram sempre motivos de festa.

 

No outeiro a nossa vista espraia-se por uma paisagem em tons matizados de verde e castanho. O matagal abunda por entre os pinheiros mansos e eucaliptos e onde é cada vez mais difícil embrenharmo-nos...

 

Ao fundo, a ribeira de água espelhada corre por entre pedrinhas redondas e escorregadias. As bogas e os eirozes tentam sobreviver a um ambiente aquático em vias de extinção...

 

No Inverno a minha aldeia tem o cheiro a pinho e a eucalipto; às rosas e às acácias floridas na primavera; e no verão cheira a alfazema e a madressilvas em redor dos poços de água fria.

 

Tem sabor a cerejas, a medronhos e a amoras silvestres. Mas às vezes sabe ao amargo do trovisco, da esteva e da carqueja, do tojo e dos picos das rosas e das silvas que invadem os espaços...

 

E tem sons. O som da água a correr, do crocitar dos corvos e dos milhafres a sobrevoarem a limpidez do céu; do cuco que canta no mês de Maio, do rouxinol e da coruja que fazem a noite misteriosa e assustadora.

 

E é esta mistura de cheiros, de sons e sabores agridoces, que faz com que o nosso reencontro com o passado aconteça, tal como laços difíceis de desatar, todas as vezes que aqui voltamos.