OLHAR SOBRE A MALJOGA...

 

          A Maljoga é uma aldeia escondida, pequena e esquecida, sem nome no mapa. Eu, citadina, só sei dela porque vim vinda de um homem que nasceu lá: o meu pai Já-quim, no dialecto da aldeia e para a minha avó que, entre outras coisas, era parteira (mesmo de si). Logo nos nascimentos, furava com uma agulha as orelhas das meninas. Eu não nasci lá, ela não furou as minhas, sou de raça misturada.

          “Ó Ja-quiiim!” Era assim que o nome do meu pai ecoava pelos montes e matas até perto da ribeira, onde ele, muito muito pequenino guardava, sempre descalço, as cabras, guardando-se também a si em forçada maturidade. Contudo, deixou os montes e fragas: filho o mais novo, meus avós, generosos, entregaram aquele seu filho ao Seminário para que fizesse dele um padre santo. Padre não foi, mas pode estudar, calçar sapatos, a lavar os dentes, deixar a cama do palheiro e ter um quarto partilhado.

          Na aldeia, o tempo corre diferente. Ainda me lembro do dia em que a electricidade chegou pela primeira vez. Fim da luz amarelada das velas, do petróleo, do gás. Era Verão e eu, lá criança, passava com alegria as férias. A Maljoga sempre foi para mim o lugar do longe, da vastidão, em redor da casa grande, a “Eira Nova”, enorme face ao nosso pequeno 6º andar. À volta só pinhal e a ribeira ao fundo... Estes eram os espaços da minha correria com os meus primos e irmãos. Só ali nos movíamos verdadeiramente... Num esbracejar com gosto alargávamos a nossa imaginação em brincadeiras de todo impossíveis na cidade: corridas de rãs, todas por nós baptizadas e tratadas com cruel cuidado que muitas vezes as matava..., fazíamos mini hortinhas onde víamos romper rebentos de feijões e comíamos, entre as silvas, amoras que nos davam risos roxos. À noite, cantorias para as estrelas como só lá, víamos.

          Depois cresci adolescente e como era “fixe” emburrava, renunciando a todos os meus antigos afazeres campesinos. Hoje, ir à Maljoga, tem para mim a função de limpeza ritual. Não se trata apenas de mudar de ares, de esquecer trabalhos. Quando vamos à aldeia viajamos no tempo para tempos do ano onde vivemos uma espécie de  atemporalidade na repetição de actos que, sendo previsíveis, cíclicos, nos deixam em paz seguros de continuidade. Falo dos tempos das colheitas que os meus pais acompanham - da azeitona, das uvas, pêssegos, cerejas, diospiros, figos, maçãs que colho ao acordar de manhã no mais fresco dos pequenos almoços – mas, sobretudo, das festas sagradas. O Natal e a Páscoa são os mais belos e, quando os perco na cidade, sinto uma falta, uma espécie de desencantamento.    

Todos os anos, no Natal, há filhoses quentes e bolo-rei feito pelas mães presentes, lenha na lareira ardente, cânticos de manhã bem cedo, no dia de Natal, como desde sempre que me lembro. Há um presépio com musgo colhido fresco sob muitas figurinhas, umas meio partidas, ovelhas gigantes ao pé do menino dormindo. Há nuvens de vapor à nossa volta quando falamos na rua e, dentro da casa embaciada, janelas verdes de paisagem e caras vermelhas de fogo sorridente.   

Na Páscoa de todos os anos há uma vigília na noite. Começa na entrada da igreja ao redor de uma gigante pilha de lenha em chamas, de onde um mar de gente parte em cerimónia para o centro do altar aclamando o fogo que se torna Luz. Todas as velas que erguemos na cerimónia são acendidas nessa mesma fonte que é repartida, desde o centro até todos, exponencialmente. Chama diferente, é fogo de fé para os crentes contra o desencantado lume de isqueiro. Quando acaba a cerimónia vamos geralmente muito leves e alegres, em “Glórias, ressuscitou” e “Aleluias” para casa, porque foi o fim da Quaresma e há bolos dessa tarde feitos à espera e chá quente de tília e poejo para dormirmos bons sonos pesados, directos até manhã de sol bem alto.

Na Maljoga, os dias correm previsíveis na calma de um tempo que se apraz a caminhadas, longas leituras e, agora, a estudos concentrados. Não há telefone. A televisão com três canais ficou a preto e branco depois de uma trovoada. A água fria sabe a ferro e dói nos dentes, e tudo isso é bom....  bom de poucos dias: o tempo suficiente de umas férias pois, depois, eu quero logo voltar, pronta e desejante da agitação em pressa.

Pergunta meu pai o que nós, filhos, iremos fazer da Maljoga daqui a muitos anos. Esquecer na cidade, vender tudo? Não... Que faríamos quando precisássemos de ar para respirar, da paragem na continuidade? Mesmo não a visitando, temos de saber que a Maljoga existe igual e à espera da nossa vontade de refúgio, descanso e fuga, assim como ela é, oculta, sem nome no mapa.

 

Ana Mata Fernandes
Outubro de 2003