Lindo folheto[1] contendo 12 poesias[2] morais[3], sendo a primeira, Sentimento da Criancinha; a segunda, O que é o nosso corpo humano; a terceira, Que somos além da campa; a quarta, Conselho e Vigilância; quinta, Sentimentos de ceguinhos; a sexta, A equiparação entre o crédulo e o crente, imitando dois ceguinhos; a sétima, O Lobo e o Cordeiro; a oitava, O sol da justiça; a nona, Narrando a mentira; a décima, O que é a água; décima primeira, A criação da água; a décima segunda, O que é a morte.

 

1.ª poesia

Sentimento da Criancinha[4]

 

MOTE

Quando eu nasci chorava

Com pena de ter nascido

Parecia que adivinhava

As penas que eu tenho tido.

 

Quando me encontrei neste mundo

Dum grande sono despertado

Fiquei então admirado

Ao alvejar isto tudo

Confundi-me sobre tudo

Na luz que me iluminava

Não pronunciava palavra

Tudo me era confusão

Vedes aqui a razão

Quando eu nasci chorava.

 

O meu corpo quase imóvel

Mal movia pé e mão

Tinha o princípio da razão

Mais débil que um papel

Internado neste aduel[5]

Chorava para comigo

Que este grande mistério e perigo

Parecia que estava a adivinhar

No meio deste lupanar

Chorava de ter nascido.

 

Quando dei passadinhas

Primeira alegria do coração

Quando me pegava pela mão

Auxiliada[6] pelas vizinhas

Já dizia palavrinhas

Porque minha mãe me ensinava

E até meu pai me escoliava[7]

Fazia jestruz[8] para me rir

Mas o que estava a sentir

Parecia que adivinhava.

 

Fui à aula pouco sei

Conheço as letras e vi as cores

Vi na primavera as flores

Nos tenros anos seguei[9]

Na escuridão eu fiquei

Com perda do primeiro sentido

O pensamento do suicídio

Por vezes me quis sufocar

Aqui podeis avaliar

As penas que tenho tido.

 

2.ª poesia

O que é o nosso corpo humano

 

MOTE

Pus-me a pensar um dia

A sorte que tinha[10] o meu corpo

São trabalhos e fadigas na vida

Terra em cima depois de morto.

 

Quem este quadro edificou

Esta maravilha de tristeza

Foi o autor da natureza

Quem esta obra assim formou

Por certo eu também vou

Este caminho a trilhar

Ao cemitério ir findar

Onde acaba toda a vida

Nesta verdade conhecida

Pus-me um dia a pensar[11].

 

Já cantei como actriz

Já chorei em alto pranto

Às vezes de quando em quando

Julgo que sou feliz

Lá vem um pensamento que diz

Amanhã já estás morto

Lá vem outro desgosto

Que me faz arreliar

Ainda não acabei de pensar

A sorte que tinha meu corpo.

 

O rico por nada faltar

O indigente com sua pobreza

Sofre o revés da tristeza

Aqui no mundo a gozar

Nós devemos meditar

O que sofreu a Virgem Maria

Jesus morto em agonia

Para o exemplo deixar

Ninguém poderá evitar

São trabalhos fadigas da vida.

 

[12]Entrei em uma cerca fechada

Onde fiquei todo abismado

Olhei para um lado

Vi uma caveira mirrada

De pessoa tão dedicada

Que no mundo tinha conforto

Vi desfeito o seu corpo

Em pó, terra, cinza e nada

Vi a minha última morada

Terra em cima depois de morto.

 

3.ª poesia

Que somos além da campa

 

MOTE

O meu espírito se alegrou

Quando isto fui pensar

Se Deus para o Céu nos criou

Lá é que devemos ir gozar.

 

Levantei o meu espírito

Acima do que é terreno

Todo o homem grande e pequeno

Deve amar a Jesus Cristo

Ele não falta com isso

Prometeu e nunca faltou

Pois cristão também eu sou

Juro e não posso negar

Quando isto fui pensar

O meu espírito se alegrou.

 

Jesus é nosso pai

Com o sangue nos remiu

Ele para o Egipto fugiu

Em companhia de sua mãe

São José ia também

Como seu pai representar

Herodes o queria matar

Com sua ira e traição

Alegrou-se o meu coração

Quando isto fui pensar.

 

No mundo há tanta calamidade

Tanta gente anda a sofrer

Tanto ceguinho sem ver

Tanta viúva e orfandade

Tanto revés e contrariedade

Vejo sofrer amigo meu

Sofre amigo e sofro eu

Neste mundo de amargura

Nesta pátria não há ventura

Se Deus para o Céu nos criou.

 

O corpo abaixa[13] à sepultura

A alma voa para o céu

É uma pátria que Deus nos deu

Toda a fiel criatura

Com tanta alegria e doçura

Deus nos quer recompensar

Não devemos murmurar

Nas promessas do seu coração

Nesta pátria é que então

Nós devemos ir gozar.

 

4.ª poesia

Conselho e Vigilância

 

MOTE

Não deixes passar o que passa

Para nos salientar o futuro

A prática é a ciência das artes

O tempo é que traz e leva tudo.

 

Do teu lar faz história

Para melhor poder viver

Para depois compreender

Avivares tua memória

Depois acharás vitória

Na lida que te embaraça

Não julgues que o que se passa

Não deves estar[14] em lembrança

Põe-te sempre em vigilância

Não deixes passar o que passa.

 

Se teu pai morrer assenta

Se teu filho nascer escreve

Para te tornar mais leve

A um escrivão que te atenda

Não deixes perder a patenta[15]

De uma compra ou seguro

Arriscas-te a perder tudo

Ficas todo arreliado

Vive bem acautelado

Para salientares no futuro.

 

Até mesmo na agricultura

Não deves deixar passar

Para poderes reparar

Em qualquer sementeira ou postura

Tu artista e por ventura

Nos teus erros não pensaste

Tu nunca os emendaste

Vives sempre ignorado

Visto o que eu tenho pensado

A prática é a ciência das artes.

 

O antigo é o modelo

Para onde devemos dirigir

Para poderes corrigir

Qualquer erro ou empeno

O artista com o seu desempeno

O corta mão desempena tudo

Depois de nada veio tudo

Para o nada tem de voltar

Não te queiras admirar

Com o tempo traz e leva tudo.

 

5.ª poesia[16]

Sentimentos de ceguinhos

 

MOTE

O cego que nasceu cego

Eu que nasci e ceguei

Diz o cego que assim nasceu

Digo eu que depois ceguei.

 

Passa a vida a cantar

O infeliz que assim nasceu

É uma graça que Deus lhe deu

Para se poder resignar

Da alegria um segredo

Cumpre alegre o seu degredo

Porque não viu sol nem lua

Anda apalpando na rua

O cego que nasceu cego.

 

Passo a vida a chorar

Do mundo o melhor perdi

Agora choro aqui

Ninguém me pode remediar

Ando sempre a contemplar

As cousas que já olhei

Na escuridão assim fiquei

Nas trevas isolado

Vivo sempre desacoroçoado

Nasci e ceguei.

 

No céu há tantas estrelas

E um sol que nunca vi

No seu calor me aqueci

No meio de tantas belezas

Tantas cores brancas e pretas

Nunca vi longe e nem perto

Mas tenho que dar crédito
Por que ouço assim contar

O meu remédio é cantar

Diz o cego que assim nasceu.

 

Já vi cabelos doirados

Na donzela mais formosa

Já vi no jardim a rosa

E a verdura nos prados

O rouxinol nos silvados

Ler e escrever também sei

E os montes passeei

Vi alvura da neve

Agora o leitor se não percebe

Digo eu que já ceguei.

 

6.ª poesia

A equiparação entre o crédulo e o crente, imitando dois ceguinhos

 

MOTE

Quando correr esta cortina

Muitos tem[17] ignorado

Olhei[18] os dois ceguinhos

Que dão o exemplo equiparado.

 

Vejam bem os senhores

O que vos vou a dizer

Comprai todos para ler[19]

Até do lar pai e mãe

Educai os filhos bem

Do catecismo e sã doutrina

Ela declara e ensina

D’além campa a eternidade

Veremos toda a verdade

Quando correr esta cortina.

 

Entre o que viu e o que não viu

Houve uma discussão

Um que sim e outro que não

O que não viu se convenceu

Porque então nunca percebes

Do que andava rodeado

Agora alto dou um brado

Com esta advertência

Avivai na inteligência

O que muitos têm ignorado.

 

Os que tem fé dizem que há Deus

Os que não têm dizem que não

Vivemos todos num sertão

No meio de tantos segredos

Uns apontam com os dedos

Além vão os caminhos

Outros com os seus maus ensinos

Arrastam a religião

Abri os olhos à razão

Olhai para os dois ceguinhos

 

Entre o incrédulo e o crente

Entre o que viu e o que não viu

Tudo isto se discutiu

Que pode ler toda a gente

Que Deus Padre Omnipotente

Está um mistério encerrado

Tantos o têm negado

Como judas[20] negou Jesus

Andam como cegos na luz

Que dão o exemplo equiparado.

 

7.ª Poesia

O Lobo e o Cordeiro

 

MOTE

O lobo mais o cordeiro

Encontraram-se num riacho

O lobo pôs-se por cima

E o cordeiro ficou por baixo.

 

Acharam-se em liberdade

O inocente e o maldoso

O pequeno é desditoso

No meio da sociedade

Eis a expressão da verdade

Não foi este o primeiro

Porque o grande é ventureiro

Que no mundo tem a potência

Acharam-se em advertência

O lobo mais o cordeiro.

 

Dizia a raposa certa vez

Quem[21] suas forças não tem

Nem no mundo pai e mãe

Perde tudo num mês

O que tanto revés

No mundo se tem encontrado

Que o pequeno é desprezado

Que não tem no mundo poder

Que para esta água beber

Muitos se encontram no riacho.

 

Com esta má contrição

De devoradora fera

O pequeno. O que espera?

Em trágica ocasião

Com a falsa tradição

Turvas-me água cristalina

Se eu estou por baixo e tu por cima

Como te posso eu turbar[22]

Com as garras p’ro devorar

O lobo pôs-se por cima.

 

Fostes tu ou teu pai

O outro ano passado

Eu tenho seis meses contados

Deste ano que lá vai

De profundo deu um ai

Ai que estou devorado

Olhou para o seu lado

Ninguém o pode defender

Deitou os dentes e foi comer

O cordeiro ficou por baixo.

 

8.ª poesia

O sol da justiça

 

MOTE

Quando romper o  lindo Sol

Que a justiça aqueceu

Bem ditoso foi aquele

Que no seu calor adormeceu.

 

É o[23] grande e não o pequenino

Que a justiça dá poder

Que a fazem proceder

Como o  lobo ao cordeirinho

O hipócrita com o dinheirinho

É que no mundo tem valor

O envalido[24] e o menor

Não tem no mundo poder

Mas isto se há-de esclarecer

Quando romper o lindo Sol.

 

Vejam bem ó meus senhores

Da justiça a gravidade

Quando lhe faltar a verdade

Dos carvões fazem flores

No tribunal trocam-se cores

Que pela honra se jurou

Em justa a causa se deu

Porque lhe faltou o melhor

Veio a nuvem encobrir o Sol

Que a justiça aqueceu.

 

A verdade é um tesouro

Que tudo quer enriquecer

Tenho esta para dizer

No presente ao vindouro

Até na balança o ouro

A verdade é o modelo

Que faz grande o que é pequeno

Como criatura verdadeira

Quem defendeu esta bandeira

Bem ditoso foi aquele.

 

A verdade é como o azeite

Por cima de tudo há-de brilhar

Ainda que a queiram sufocar

Ela por cima há-de dar jeito

O seu progresso é perfeito

Quem com ela procedeu

O seu nome engrandeceu

De honrado e verdadeiro

Foi no mundo um cavalheiro

Que no seu calor adormeceu.

 

9.ª Poesia

Narrando a mentira

 

MOTE

O autor da mentira

Julga às vezes que é feliz

O resultado que dela tira

É desacreditar quem não diz.

 

Em qualquer algum negócio

A mentira é protecção

Aquele que tem a intenção

De enganar o seu próximo

Até na vida dos consórcios

Alcoviteira com a mentira

Desordena aquela vida

Por causa do ciúme

Quem usa este costume

É o autor da mentira.

 

Fica todo satisfeito

Em resolver o problema

Depois de corrida esta cena

O que o negócio também feito

Se não soubesse dar o jeito

Ele de si para si diz

Quem não tem manha é infeliz

E no mundo desprezado

Com a mentira ao seu lado

Julga às vezes que é feliz.

 

Quem mente cospe no ar

Para no rosto vir bater

Ainda que se queira esconder

Ela o há-de fazer corar

Nunca se há-de fartar

Nem encher a sua barriga

Há-de viver na mesma lida

Como vive o caloteiro

Para pagar nunca tem dinheiro

É o resultado que dela tira.

 

É hipócrita vigarista

Troca tintas verdadeiro

É falso e traiçoeiro

É a nobreza que conquista

A verdade põe à vista

Tudo declara e tudo diz

Até no tribunal o juiz

A mentira descobriu

O resultado que nela se viu

Foi desacreditar quem a diz.

 

10.ª poesia

A criação da água

 

MOTE

A água foi destinada

Para nunca sossegar

Ou nas nuvens ou na terra

Ou no rio ou no mar.

 

Água é um alimento

Sem ela não se pode passar

Para beber e derregar

A vegetação em todo o tempo

É tocada pelo vento

Nunca pode estar parada

Quer no rio quer na tirada[25]

Tem sempre de correr

Para volver e devolver

A água foi destinada.

 

É conduzida a um moinho

Para um rodízio tocar

Para moer centeio e milho[26]

A padeira o pãozinho

Com ela o vai amassar

O calor a faz voar

Quando está a cozer

Foi destinada para devolver

E nunca poder sossegar.

 

Não se perde uma gota

Ainda que a venham beber

Numa panela a ferver

Há-de sair pela boca

Ela vai de pouco a pouco

Conduzida à atmosfera

Depois o chão a espera

Para a sede saciar

Lá tem ela de voltar

Das nuvens para a terra.

 

Imita a respiração

Do nosso corpo humano

Naquele grande oceano

Está a contemplação

Quando é em ocasião

Da maré ir vazar

Lá torna ela a voltar

Em onda em campolada[27]

Anda sempre agitada

Quer no rio quer no mar.

 

11.ª Poesia

A criação da água

 

MOTE

Segundo o meu modo de ver

A água também se cria

É a terra que a consome

E ela mesmo é que cria

 

Segundo o meu uso da razão

A água também mingua

Quer em casa quer na rua

Ela tem muita extracção

A conta de subtracção

Em tudo tem que haver

No comer e no beber

A água tem de assistir

Ela tem de subtrair

Segundo o meu modo de ver.

 

Em máquinas e motores

Em comboios a fugir

Ela move e faz seguir

Até nos mares os vapores

As plantas e as flores

Ela alenta e segura a vida

Quando se vê oprimida

Ela move e faz girar

Segundo o meu modo de pensar

A água também se cria.

 

A terra é uma fábrica

De grande destilação

Até debaixo do chão

Estila[28] água salgada

A imundície numa palavra

Tudo extrai e tudo come

Até o animal e o homem

Tudo ela quer liquidar

Se alguma gota faltar

É a terra que a consome.

 

Mas ela quer restituir

Por plantas que dão vinho

Óleo e azeitinho

E mais frutas a seguir

O calor a faz extrair

Em gotas de água cristalina

Da nuvem à ribeirinha

Lá ela tem de voltar

Não quero mais duvidar

Que a mesma terra é que cria.

 

12.ª Poesia

O que é a morte

 

MOTE

A morte tem tantos laços

Tantos laços que ela tem

Mais que lhe ponham embaraços

A ela não escapa ninguém.

 

Todo o ente que nascer

Tem a morte por herança

Ou em velho ou em criança

Todos temos de morrer

Até antes de rescemnascer[29]

Tem-se dado estes casos

Temos a vida em vasos

De vidro bem frágil

Para tudo se cumbir[30]

A morte tem tantos laços.

 

Tudo o que nasceu herdou a morte

Ela nos traz a igualdade

Em qualquer outra idade

Somos herdeiros deste dote

Herda o fraco e o forte

O mesquinho e o potente

Até Deus Pai e Omnipotente

Ele a morte quis herdar[31]

Para tudo capturar

Tantos laços que ela tem.

 

Até o doutor de medicina

A ela não há-de escapar

Mais que faça para estudar

Para dar vida à criancinha

Ao mancebo e à velhinha

Faz operações e autópsias

No meio destas hipóteses

Toda a gente quer viver

Mas há-de sempre vencer

Mais que lhe ponham embaraços.

 

Ó morte és tão poderosa

Matas o Rei e a rainha

Matas a mãe e a criancinha

E ao general a sua esposa

Matas donzelas mais[32] formosas

Em ti tudo te está bem

Roubas o filhinho à mãe

Não temos ouro nem dinheiro

Matas o nobre e o guerreiro

A ela não escapa ninguém.

 

 

 

 

Desculpem todos ó meus Senhores

Se eu nalgum verso errei

É obra de um ceguinho

Mais que isto não sei.

 

 

Foi editor José da Mata

Do lugar da Maljoga

Da comarca da Sertã

Concelho de Proença-a-Nova

 

Maljoga, 27 de Junho de 1934.

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Dizem os que conheceram o poeta que este folheto e outros eram vendidos por feiras e romarias por onde deambulava.

Na edição que aqui apresentamos, optámos por utilizar a grafia corrente. Num ou noutro caso mantivemos a grafia primitiva por nos parecer “sugestiva”.

[2]  Formalmente as poesias são redondilhas populares onde predominam os versos de sete sílabas métricas. Também nos aparecem versos com seis e mesmo oito sílabas. São constituídas por mote em quadra e quatro voltas (estrofes) de dez versos cada. O último verso do poema é também o último verso do mote, tal como é uso neste tipo de composições. As rimas do mote são cruzadas do tipo abab; nas voltas predominam, de forma livre, as rimas emparelhadas e interpoladas, intercalados numa ou noutra composição por versos soltos ou brancos o que revela alguma naturalidade, privilegiando o ritmo das ideias.

[3] São 12 poesias morais, não mais... Doze é um número perfeito – 12 meses do ano, 12 apóstolos... Uma poesia para cada mês...

[4] Optámos por inserir novamente os títulos em todas as composições para facilitar a leitura.

[5] Em vez de aduela – cada uma das tábuas que formam o corpo das pipas.  Aqui toma-se a parte pelo todo. O corpo é comparado ao pipo.

[6] A concordar com criancinha (cf. título)

[7] É interessante o neologismo a partir de “escola”. O sentido é, pois, “até o meu pai era meu mestre-escola”.

[8] Tal como está no original. Corresponde à palavra “gestos”. A prótese do “r” a seguir à consoante “t” é comum na linguagem popular.

[9] Sem dúvida que, de acordo com o contexto, a palavra correcta é “ceguei”.

[10] É uma forma popular do condicional “teria” com valor de futuro.

[11] No original o verso surge “Pus-me a pensar um dia”. É falha do escrivão, pois a rima impõe a sequência que proponho.

[12] O poeta, numa visão moralizante, reconhece o seu próprio cadáver na sepultura.

[13] Forma popular do verbo baixar.

[14] Forma popular – equivalente a ter

[15] Patente – aqui numa forma popular de dizer.

[16] Estamos na presença de um texto autobiográfico. O poeta compara-se ao cego de nascença para concluir que a sua situação é bem pior. Enquanto o cego de nascença canta a sua infelicidade e vive resignado, o autor, que cegou já na sua juventude (foi à escola: sabe ler e escrever), “passa a vida a chorar” as lembranças de felicidade (bem presentes na última estrofe) do tempo anterior à sua situação presente em que “vive em trevas isolado”.

[17] Mantive a forma arcaica que o original apresenta. Tem aqui tem o valor de têm (plural).

[18] “Olhei” em vez de “olhai”. É uma forma de dizer ainda hoje comum entre as pessoas mais idosas. Nas voltas (estrofes) o imperativo já usa a forma correcta “comprai”, “educai”.

[19] Este é um pregão sem dúvida muito utilizado pelo poeta pelas feiras e romarias por onde vendia os seus versos.

[20] Judas está grafado com letra minúscula no original que manuseei em contraste com o nome de Jesus. Acentua, sem dúvida, a desconsideração popular  por tal personagem. Ainda hoje na Maljoga e arredores apelidar alguém de Judas é motivo de desprezo e segregação.

[21] No original está “querem”. Penso ser uma gralha do escrivão.

[22] Dois versos acima  “turvas-me”, agora “turbar”. A troca do b pelo v ainda hoje é comum.

[23] Este “o” equivale à contracção “ao”. Aparece mais uma vez neste verso

[24] inválido

[25] Cada uma das leiras por onde corria a água na rega do milho.

[26] Eram os cereais mais comuns cultivados na Maljoga. O centeio, em terrenos magros, nas encostas ou altos voltados ao sol, o milho nas terras ao pé da ribeira (da Isna) – As terras de regadio da Várzea da Ribeira, da Forga da Boa, da Fraga, da Fosseirina, da Milheirada e do Gamoal constituíam autênticos celeiros que alimentaram até finais da década de sessenta do século passado a população da Maljoga

[27] “em campolada” (encapelada). Palavra difícil de grafar mesmo para o seu...

[28] Note-se aférese (queda inicial) do “d” – (d)estila

[29] (sic) Mais uma nota da dificuldade em grafar palavras de uso mais restricto: “rescemnascer” – a epêntese (acrescento) do “s” re(s)cem. O verbo feito a partir de recém-nascido é curioso. Nós diríamos “Até antes de nascer”, sem fixar um momento. A ideia formulada pelo neologismo “recemnascer” parece referir-se à situação (infelizmente muito comum naquelas terras) do nado morto.

[30] O poeta popular conhece a palavra “sucumbir”, mas é cego e o seu escrivão, não a conhecendo, grafa-a erradamente.

[31] Dizem-me pessoas que o conheceram que o ti Zé (nome familiar com que ainda hoje é lembrado) da Mata era catequista. Daí a referência à teologia da morte de Deus na Cruz,  na pessoa do seu filho Jesus.

[32] “mas” no original que temos estado seguir... Pensamos ser um lapso tipográfico.