TEMA PRISÃO
Não cabe neste espaço, como antes
se deixou entender, exposições alongadas. O principiante gostará sobretudo de
possuir uma ideia clara e breve da definição dum dado tema.
A primazia cabe a um tema com
pergaminhos, que é merecedor (!!) de alguma detença. Mesmo impondo-nos
brevidade, seria imperdoável tratá-lo
com excessiva ligeireza.
Dum nosso longo estudo inédito
sobre o tema prisão, apetece-nos extrair este naco de prosa: “O tema de prisão
foi o mais trabalhado desde que ganhou autonomia aquilo que hoje designamos por
"problemismo". Não houve "prisão" que escapasse ao engenho
(bem solto!) dos compositores de todas as épocas. Mas foi no primeiro período
da história do problemismo em Portugal (décadas de 1900-30) que o tema de prisão
foi quase esgotado. Tornara-se uma obsessão para muitos autores. O terreno era
fértil e todos souberam semear algo”.
Denomina-se prisão
qualquer posição em que a cor
a jogar não se possa mover, não possa efectuar nenhum lance. No entanto
essa situação terá de comportar
dama(s).
Exemplo:
07, 11, 12, (15) x (16), 20, 24 JP

Trata-se dum exemplo especial. A db.
em “15” confere-lhe um ar verosímil. Em geral as prisões ocorrem na base
branca.
Exemplo: (02),
04 x (03), 06, 07, 11 JP

Na prática é um evento raro, mas
no problemismo foi explorado quase até à exaustão. Os principais tipos de
prisões foram-nos legadas pelos autores clássicos espanhóis.
Vejamos as “quatro magníficas”
que nos foram legadas:
1.
Ratoeira (Alonso Guerra, 1595): (02) x (01), 05 JP

Com ela A. Guerra rematou o seguinte
fim-de-jogo: 06,
15, 22, (24) x (01), 30 JBG.

Assim: 22-27 e 15-19 e 6-10 e 24-2 GB
Nota:
A expressiva designação desta prisão deve-se a Luís Marcos e Eugénio Ochoa
(dois espanhóis), autores duma pequena obra sobre damas.
2.
Prisão de Guerra
Denominamos assim o seguinte
desfecho: (02)
x (01), 05, 09 JP

Provém do problema de Alonso
Guerra (1595): 06, (08), 22, (24) x (01), 09, 30
JBG.

Assim: 22-27, 30x23; 8-19, 23x14;
6-10, 14x5; 24-2 GB
Nota:
Juan Canalejas (1650) retomou (involuntariamente?)
o problema apresentando-o com uma ligeira modificação, mas a suficiente para
bem esconder a ideia! Na versão
deste autor o pb.15 passou a db.08 e com isso leva-se o solucionista a tentar
vencer por meios práticos, o que é irrealizável, donde a beleza (e a
surpresa) da composição são realçadas... E Juan Canalejas haveria de melhorá-la
imensamente com o acréscimo dum soberbo artifício (a).
3. Prisão
de Timoneda
Denominamos prisão de Timoneda o
seguinte desfecho: 05,
10 x (01) JP

Vale igualmente uma dama branca no
lugar de qualquer dos peões, mais especificamente em “05”. É usual o
seguinte remate: 10,
(24) x 09 JPBG.

Assim: 9-5; 24-2, 5-1; 2-5 GB
Ela provém do seguinte imorredoiro
problema que propomos passe a chamar-se Problema-monumento

Jogam brancas e ganham
Solução: 13-18, 4x25; 10-14,
25x4; 6-11, 4x1; 9-13, 17x1; 2-5, 10-6; 3x10, prisão de Timoneda, GB
4. Prisão
de Flaquer
Denominamos prisão de Flaquer o
seguinte desfecho: (03)
x (04), 07, 08 JP

Provêm do problema de Enrique
Flaquer, 1909: 07,
11, 12, (22) x 08, 16, 20 JBG.

Assim: 11-15, 20x4; 22-13, 16x7;
13-3 GB
(a) O artifício reside tão-só em imaginar a prisão de Guerra um momento antes... Dito assim não dá para entender! Veja-se esta posição a que chamamos bloqueio pré-prisão: (24) x (01), (02), 05, 09 JP.

As pretas só podem movimentar uma peça... e vão cometer suicídio (!),
dando origem à prisão vista. E nisto reside a coroa-de-glória de Canalejas.
Mas, como se isto não bastasse, o imaginativo autor, idealizou um remate que
veio a inspirar imensos seguidores. Eis
o seu trabalho:

Solução: 24-15, 19x12; 6-11, 14x7 para a prisão estar consumada resta às brancas efectuar um lance, mesmo inócuo. Para tal Canalejas colocou um pb. em “16”. E então bastaria 16-20. Como isto tinha “pouca graça” teve a genialidade de acrescentar um pp. (o da casa “26”) e a luta prossegue: 26-22; 20-23, 22-19; 23-27, 19-14; 27-30, 14-10 (ou 14-11; 30-20 GB); 3-6!, 10x3; 30-17 etc GB.
Conclusão:
após 3-ad.lib;
17x3... onde estava um pb. passou a estar uma db. e consumou-se o cativeiro das
pretas. É a esta concepção genial que denominamos Tema de Canalejas.
Uma composição que, no género, se
manteve inultrapassada até ao advento do problemismo moderno em Portugal, isto
é, durante cerca de três séculos!