As escolas são instituições especialmente conservadoras, onde a mudança é difícil de acontecer. A resistência à mudança é inevitável porque a cultura escolar tende à estabilização e porque as pessoas em geral resistem à mudança. As recentes alterações que se têm verificado ao nível do ensino em Portugal são uma excelente oportunidade para que se comecem a utilizar os SIG na sala de aula. O objectivo deste trabalho consiste precisamente na recolha de informação acerca do uso de SIG no ensino básico e secundário. É feita uma pesquisa no sentido de se tentar perceber de que modo é que os SIG estão (ou não) a ser usados nas escolas portuguesas e de outros países. Tem-se a consciência de que em Portugal só agora se começa a falar de SIG nas escolas. Poucos são os exemplos que se conhecem, e existem ainda muito poucas publicações sobre o assunto. Um dos meios que poderão servir de grande divulgação dos SIG e trabalhos a eles associados é a Internet. Será essa a principal fonte de informação e de pesquisa para este trabalho. Tentar-se-á ainda perceber de que modo a Internet é aproveitada, quer para divulgar trabalhos quer como instrumento onde se colocam exercícios ao dispor de alunos e professores. A modelação, enquanto processo de simulação de fenómenos, quase não é contemplada nas actividades que envolvem informação geográfica. No entanto, ao nível da Matemática e da Física, existem algumas aplicações disponíveis na Internet voltadas para a exploração de temas específicos como, por exemplo, o Teorema de Pitágoras. Conclui-se que as tecnologias de informação e comunicação, onde se incluem os SIG, têm grandes potencialidades e devem ser usadas numa perspectiva interdisciplinar.
O conceito de "formação ao longo da vida" é uma realidade actual que afecta todas as profissões e cidadãos, enquanto forma de confronto com os desafios do mundo actual. Assim, os professores não podem fugir a esta realidade. As capacidades para pensar e comunicar as ideias, por um lado, e para trabalhar em equipa, por outro, são reconhecidas como fundamentais para o futuro da humanidade. No entanto, se olharmos para as práticas que imperam na escola actual, ainda encontramos nelas resquícios de uma concepção estática e compartimentada do conhecimento e da aprendizagem.
A escola, em geral, ainda é entendida como acumulação passiva, linear e individualista de conhecimentos, em que predomina a função instrutiva face à formação integral, dando prioridade aos conteúdos conceptuais e factuais, em detrimento da aprendizagem pela experiência. A falta de relevância das aprendizagens escolares para a vida e para o mundo do trabalho, com a consequente desmotivação da população escolar e uma competição cada vez maior entre o conhecimento adquirido dentro da escola e o adquirido fora desta, são alguns dos problemas fulcrais da escolarização actual
A escola deveria ser considerada como uma organização que aprende e é fundamental repensar o currículo e reconsiderar o papel dos professores, enquanto mediadores fundamentais deste projecto. Parece urgente, então, mudar os ambientes de aprendizagem promovendo, nos professores e alunos, as qualidades básicas da autoformação, da adaptabilidade, da flexibilidade e da capacidade de trabalhar em equipa.
Serão feitas algumas sugestões sobre como aproveitar melhor este recurso informático no ensino, não só na perspectiva da Geografia, mas sobretudo numa perspectiva interdisciplinar e transversal. Seria interessante que os professores usassem este tipo de ferramentas como veículo de transmissão de informação. Além do mais, estando estas ferramentas ligadas à tecnologia informática, são um excelente meio de incentivo e motivação para os alunos. O facto de se poder usar um computador que mostra mapas e imagens que podemos alterar, mover, aumentar, diminuir e interagir constitui certamente uma mais valia para um professor captar e prender a atenção dos seus alunos.
Estamos numa época de grandes mudanças ao nível da Educação em Portugal. Prepara-se para entrar em vigor uma Reforma no Ensino Secundário (a versão definitiva do documento orientador da Revisão curricular do Ensino Secundário é de 10 de Abril de 2003 e a nova Reforma entrará em vigor no ano lectivo 2004/2005). Iniciou-se o processo de Gestão Flexível do Ensino Básico (Decreto-Lei nº6/2001) tendo a Reorganização Curricular do Ensino Básico entrado plenamente em vigor no ano lectivo de 2002/3003. As escolas estão em fase de preparação dos seus Projectos Educativos e dos seus Projectos Curriculares. Para tal têm de atender a objectivos como assumir a escola como espaço privilegiado de educação para a cidadania e articular experiências de aprendizagem diversificadas que envolvam mais os alunos.
As Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) assumem grande importância e relevo nas filosofias das novas reorganizações curriculares, quer no básico quer no secundário. Os SIG podem e devem fazer parte deste conjunto de tecnologias que as escolas oferecem aos alunos. Podem entrar na escola por via da Geografia, disciplina que, por excelência lida com mapas e problemas espaciais. Mas deve também ser útil nas outras disciplinas e até nas áreas não disciplinares, que actualmente fazem parte dos curricula do ensino básico (Área de Projecto, Estudo Acompanhado e Formação Cívica).
No que respeita ao actual terceiro ciclo do ensino básico (isto é: do 7º ao 9º anos de escolaridade), aposta-se sobretudo numa avaliação das competências dos aluno. Estão definidas, pelo Ministério da Educação, as competências gerais e específicas para cada disciplinas, que o aluno que complete o nono ano deve ter.
No que respeita às competências gerais, o DEB (Departamento do Ensino Básico do Ministério de Educação, "Curriculo Nacional do Ensino Básico -Competências Essenciais" In: http://www.deb.min-edu.pt)considera que um aluno, ao finalizar a educação básica deverá ser capaz de:
O DEB acrescenta ainda que "o desenvolvimento destas competências pressupõe que todas as áreas curriculares actuem em convergência. Assim, clarifica-se, para cada uma destas competências gerais, a sua operacionalização. Esta deverá ter um carácter transversal. Compete às diferentes áreas curriculares e seus docentes explicitar de que modo essa operacionalização transversal se concretiza e se desenvolve em cada campo específico do saber e para cada contexto de aprendizagem do aluno."
É fácil de compreender que os SIG são instrumentos que poderão ser muito úteis em várias destas competências. A ênfase nas diferentes linguagens científicas e tecnológicas, na adopção de medidas personalizadas de trabalho e ainda no tratamento de informação, são temas que não são alheios aos SIG. Como já foi referido, parece óbvio que a entrada dos SIG nas escolas seja feita pela Geografia, mas deve ser alargado a todas as outras áreas disciplinares e não disciplinares.
É referido, nas orientações curriculares da Geografia do terceiro ciclo , que o "estudo da Geografia e o desenvolvimento das competências essenciais, através das várias experiências educativas que devem ser proporcionadas aos alunos ao longo do processo educativo do Ensino Básico, permite que as crianças e os jovens completem a educação básica com o conhecimento sistematizado do seu próprio país, de outros e do Mundo. Conhecimentos básicos relacionados com a localização relativa e absoluta, a dimensão territorial, a população e os recursos dos países e continentes do Mundo, fazem parte das competências essenciais de cidadãos activos e intervenientes. (...)"
"O ensino da Geografia deve desenvolver competências ligadas à pesquisa: a observação, o registo, o tratamento da informação, o levantamento de hipóteses, a formulação de conclusões, a apresentação de resultados". Assim, os SIG deveriam fazer parte das várias experiências educativas oferecidas pelas escolas. São instrumentos adequados a explorar situações de localização, dimensão e diferentes escalas de análise.
Ainda nas orientações curriculares do programa de Geografia do terceiro ciclo, é referido que "as competências essenciais da Geografia estão definidas de modo a centrar a aprendizagem da disciplina na procura de informação, na observação, na elaboração de hipóteses, na tomada de decisão, no desenvolvimento de atitudes críticas, no trabalho individual e de grupo e na realização de projectos. Os mapas são a forma mais eficaz de representar espacialmente a informação e, por isso, constituem a ferramenta de trabalho mais importante da Geografia. A linguagem cartográfica é desenvolvida à medida que os alunos, em conjunto com os seus professores, vão convertendo as diferentes informações e ideias geográficas em mapas. Os alunos mais jovens têm dificuldade em reconhecer a visão cartográfica da realidade observada, mesmo para os alunos mais velhos a projecção horizontal do espaço apresenta dificuldades de leitura. O recurso frequente e sistemático à leitura e construção de mapas permite ir ultrapassando estas dificuldades e desenvolver as competências essenciais relativas à representação da superfície terrestre".
Nada mais aliciante para um jovem do que poder ultrapassar estas dificuldades com a ajuda do computador, que ainda por cima lhe pode mostrar o mesmo mapa sob diversas perspectivas (incluindo a 3D) e diferentes escalas. O DEB aconselha que se proporcionem aos alunos diferentes experiências educativas, entre as quais o trabalho de grupo integrando pesquisa documental, tratamento da informação e apresentação das conclusões; simulações e jogos; estudo de caso. Todas estas experiências podem ser adquiridas com a ajuda dos SIG. O DEB vai mais longe, aconselhando mesmo que "ao longo do Ensino Básico, deve ser dada oportunidade aos alunos de estabelecerem classes a partir de uma série de dados e organizarem as respectivas legendas. Os alunos deverão utilizar mapas de escalas diferentes de Portugal (1:1000; 1:5000; 1:10000; 1:25000; 1:50000 e outras), da Europa, do Mundo e ortofotomapas, ortofotografias e fotografias aéreas a fim de desenvolverem o conceito de escala, pela observação do mesmo espaço representado em imagens com dimensões e representações diferentes".
A perspectiva transversal e interdisciplinar que se pretende que o ensino básico privilegie deve ser explorada também na Área de Projecto (uma das áreas curriculares não disciplinares que a nova reforma contempla) e ainda nas metodologias de trabalho de projecto que se pretende que os professores desenvolvam nas suas disciplinas. Uma vez mais nos reportamos às orientações curriculares da Geografia, onde se refere que "O trabalho de projecto é uma metodologia que pode ser utilizada para dinamizar o estudo de várias temáticas de uma forma integrada, substituindo uma lógica de conteúdos por uma lógica de mobilização dos interesses dos alunos, centralizando o projecto na realidade em estudo e nos conceitos estruturantes dos temas programáticos com ela relacionados. O trabalho de projecto é uma experiência educativa fundamental, pois permite o desenvolvimento de competências essenciais da geografia bem como de competências transversais. Ao mesmo tempo, o trabalho de projecto ajuda o aluno a desenvolver competências individuais no domínio da autonomia, pois é preciso decidir, planificar, coordenar, organizar e confrontar a sua representação da realidade com as dos outros e, a partir de consenso, tomar as suas próprias decisões e estabelecer os caminhos da sua própria aprendizagem."
"Por outro lado, o espaço pode ser o elemento integrador de uma investigação, já que é o palco das múltiplas relações entre variados fenómenos naturais e humanos.". Todos estes objectivos podem ser alcançados com a utilização dos SIG na sala de aula. Infelizmente, ainda predomina, no pessoal docente, uma visão da inovação em que as propostas de mudança das práticas educativas se apresentam fragmentadas, descoordenadas e isoladas da visão da escola como um todo.
Aposta-se na cidadania e no uso de linguagens de diferentes áreas científicas e tecnológicas. No que respeita à cidadania, surge nesta reorganização curricular o conceito de "cidadão geograficamente competente", como sendo aquele que é capaz de usar um SIG, pelo menos como meio de observação e análise.
Muitas definições de SIG referem que estes são sistemas de ajuda às tomadas de decisão. Pelo menos em teoria, os planos de ordenamento (como os PDM, os POOC e outros) começam a estar disponíveis para discussão pública e alguns estão disponíveis na Internet. São instrumentos que podem ser usados na sala de aula para exemplificar alguns aspectos respeitantes ao ordenamento do território (parte dos programas de 10º e 11º anos), aos problemas ambientais (parte dos programas de várias disciplinas do ensino básico) ou a outros assuntos. Neste sentido é importante que os adolescentes comecem a tomar contacto com os SIG, que serão um instrumento de grande utilização no futuro (já o começam a ser actualmente).
No que respeita a experiências com SIG nas escolas portuguesas, pouco se conhece. Se existem trabalhos a serem desenvolvidos nas escolas, a sua divulgação quase não existe. Existem alguns projectos isolados, em algumas escolas. De uma maneira ainda pouco consolidada, a Associação de Professores de Geografia tem procurado desenvolver actividades onde o uso de SIG (por professores e alunos) através de acções de formação na área dos SIG. Evidentemente que são acções que têm de ser feitas, até porque a grande maioria dos professores de Geografia nunca usou um SIG, e vai ter de os mostrar aos seu alunos.
Apesar de ter havido uma proposta de haver uma disciplina de SIG no ensino secundário, esta foi posta de parte com a nova reforma. No entanto queremos acreditar que em breve os SIG comecem a fazer parte dos curricula. Enquanto tal não acontece, sugere-se que os SIG sejam integrados nas aulas de Geografia e de outras disciplinas. Neste sentido, e da mesma maneira que gradualmente a maioria das pessoas se foi sentindo "obrigada" a ser capaz de usar o computador nem que seja para processar textos (no caso dos professores, para serem pelo menos capazes de fazer um teste ou uma ficha de trabalho), vai ser importante que todos os professores (pelo menos) de Geografia sejam capazes de explorar um mapa através do computador (mesmo que não seja capaz de fazer operações mais complexas).
No ano lectivo de 1999/2000, a Associação de Professores de Geografia promoveu, em parceria com o antigo CNIG, um concurso destinado a promover as TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) no domínio da educação geográfica. Destinava-se a alunos dos ensinos básico e secundário e visava sensibilizar os alunos para aspectos relacionados com o planeamento e o ordenamento do território. O concurso incluía um dia de formação para os professores envolvidos e, embora não se tratasse de trabalhar com SIG propriamente ditos, o concurso revelou-se bastante interessante pois utilizava informação de interesse público (ortofotomapas disponibilizados pelo CNIG, de Portugal continental). Pretendia-se que os alunos, com a ajuda dos professores, procurassem o ortofotomapa da área onde se encontra a sua escola e, trabalhassem essa imagem no sentido de identificar os diversos pavilhões, a orientação do portão de entrada da escola ou outros pontos de interesse. O software utilizado era à escolha de cada turma (ou professor) e muitas vezes utilizaram-se simplesmente programas como o PowerPoint onde se marcavam sobre as imagens aquilo que se pretendia. O interesse deste concurso residiu em grande medida no facto de desenvolver nos alunos capacidades de observação e localização numa imagem. Os ortofotomapas podiam ser usados com diferentes graus de pormenor, pois o local na Internet onde elas estavam disponíveis permitia alterar a escala através de um simples zoom. Infelizmente este tipo de iniciativas não teve continuidade.
A Associação de Professores de Geografia tem disponível na sua página da Internet (www.aprofgeo.pt e www.geotic.web.pt) alguns materiais de apoio aos novos programas de Geografia (3º ciclo), História e Geografia de Portugal (2º ciclo) e Estudo do Meio (1º ciclo). Estes materiais foram produzidos no âmbito do projecto GEOTIC, promovido pelo Ministério da Educação e co-financiado pelo PRODEP III. A componente de SIG existente nestes materiais é quase nula. Assuntos relacionados com a modelação são inexistentes. Considera-se, assim, que este espólio de materiais podia ser muito mais rico e estar muito mais voltado para as TIC e para a divulgação dos SIG na escola, sobretudo se incluísse exercícios e exemplos ligados à modelação.
A Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, conjuntamente com o Ministério da Ciência e Tecnologia promoveu, no âmbito do Ciência Viva o projecto GEOLAB (http://www.fcsh.unl.pt/docentes/rpj/geolab.htm). As últimas informações que existem na internet acerca deste projecto datam de 2001, pelo que não existe informação disponível acerca da continuidade ou não do projecto. O GEOLAB tem como objectivo principal envolver os alunos na área das tecnologias de informação geográfica, através da criação de uma rede de Laboratórios de Tecnologias de Informação Geográfica. Além disso, o projecto tem como objectivos específicos "consubstanciar a cultura científica dos alunos, dotando-os de competências próprias no sentido de melhor lidarem com a crescente complexidade da sociedade e suas organizações; apresentar a Geografia como uma ciência viva e actual que com o apoio tecnológico adequado permite-lhe enquadrar-se de forma útil na resposta às múltiplas solicitações do dia-a-dia; dar continuidade ao trabalho iniciado com os projectos anteriores o qual registou uma elevada receptividade por parte dos docentes e alunos. Mais, pretende-se cativar a atenção dos jovens para esta ciência, fundamental para uma melhor percepção do espaço e entendimento dos vários fenómenos, geográficos e ambientais, que nele se verificam. A ideia básica é a de que o futuro cidadão terá de dominar conceitos relacionados com o território bem como alguns princípios sobre as ferramentas de trabalho. Nada melhor do proporcionar essa possibilidade integrada no ensino secundário." (http://www.fcsh.unl.pt/docentes/rpj/geolab.htm)
É um projecto que envolveu 26 escolas secundárias ao nível nacional, apoiadas pelo Departamento de Geografia e Planeamento Regional da Universidade Nova de Lisboa, mas cujos trabalhos desenvolvidos estão pouco divulgados. Por conhecimento próprio podemos referir o caso da Escola Secundária de Pinhal Novo, uma das participantes neste projecto, que começou por formar professores na área dos SIG. Fez-se uma acção de formação acreditada, de introdução aos SIG, cujos objectivos eram basicamente a introdução ao software ArcView 3. A formação destes professores foi fundamental para que, no ano seguinte, se pudesse abrir aos alunos um clube (actividade extracurricular voluntária) em que os alunos podem começar a aprender a usar SIG. Na acção participaram professores de Geografia e de História, e produziram-se alguns exemplos de fichas de trabalho (guiões) para alunos dos vários níveis de ensino, em que o SIG era usado como ferramenta para que os alunos explorassem determinados temas. Alguns desses guiões eram multidisciplinares e de grande interesse pedagógico.
Em resumo, verifica-se um esforço por parte da Associação de Professores de Geografia (AprofGeo) em promover actividades e divulgar materiais no sentido de se adaptar (e ajudar os professores a adaptarem-se) a todas as mudanças que se têm operado ao nível do ensino. É um esforço louvável, embora se considere que muito mais pode ser feito.
À parte das iniciativas promovidas pela AProfGeo, são poucas as que existem (ou pelo menos não são divulgadas) no que respeita ao uso de novas tecnologias de índole geográfica. Considera-se que as principais iniciativas deveriam surgir dos próprios professores, que têm autonomia suficiente para solicitar aos centros de formação, acções de formação nas áreas onde sentem mais necessidade. Será que não há muitos professores a sentirem falta de formação na área dos SIG? Ou será que existe renitência em abraçar as novas tecnologias e procurar incentivar os miúdos a usá-las, ajudando-os assim a perceber que a Geografia (e outras áreas do saber) são interessantes?
Após uma pesquisa feita na Internet encontraram-se alguns exemplos animadores de utilização dos SIG nas escolas. Animadores porque os resultados parecem estar a ser positivos, contribuindo esta tecnologia para o sucesso em várias áreas. É importante que os jovens comecem a tomar contacto com estas tecnologias. A verdade é que os SIG começam a entrar no quotidiano de muitas empresas, e é cada vez maior a probabilidade de um jovem aluno do ensino secundário vir a usar um SIG no seu local de trabalho.
O SIG é uma ferramenta que privilegia a aprendizagem interdisciplinar. A integração das várias disciplinas num projecto SIG torna as aprendizagens mais reais. Os jovens apercebem-se que podem resolver problemas do "mundo real" com o que aprendem na escola.
Cada vez menos o professor é o principal agente de transmissão de conhecimento e os jovens passivos receptores de informação. Hoje em dia, o ritmo a que o conhecimento avança, assim como o poder das telecomunicações e a natureza ubíqua dos computadores transformaram a educação tradicional em algo cada vez menos eficaz.
Nos EUA, os educadores envolvidos em projectos públicos de educação K-12 (educação para jovens com menos de 12 anos) estão cada vez mais convencidos de que o modelo de ensino mais eficaz é a aprendizagem pela experiência. Os jovens devem ser capazes de construir o seu conhecimento, com a ajuda dos professores e de um ambiente rico em recursos informativos. Para tal, os professores têm de se sentir confortáveis com as estratégias pedagógicas experimentais, como a investigação científica.
Estes métodos de ensino são ainda raros e os professores capazes de o praticar, mais raros ainda. Neste sentido é fundamental que se operem mudanças nas estratégias pedagógicas que estão a ser praticadas. Cada vez mais a tecnologia é usada e cada vez mais os computadores aparecem dentro das salas de aula e ultimamente até com ligações à Internet. Com o aumento das capacidades informáticas e a redução dos custos destas tecnologias, os SIG começam a ser cada vez mais utilizados na resolução de problemas e no apoio à decisão.
Nos EUA, os SIG começaram a ser usados em projectos K-12 em 1992. O fascínio e o poder que os mapas exercem sobre jovens dos 4º ao 6º anos de escolaridade já tinham sido notados. Mas tornou-se mais evidente quando alguns projectos puderam levar para as salas de aula mapas em computador, que se conjugavam com imagens de satélite e outros dados geográficos. A explicação de conceitos complexos como o conceito de escala tornou-se uma tarefa muito mais fácil para o professor explicar e para o aluno compreender. A motivação e
o entusiasmo dos miúdos foram imediatos. Desde aí, os SIG têm sido responsáveis por melhorar a capacidade de análise e a competência geográfica de muitos jovens.
Os professores usam os SIG de diferentes maneiras, na sala de aula. Identificam, inclusivamente, questões como a facilidade com que os jovens se adaptam a ambientes informáticos, usando-os e compreendendo-os rapidamente. Compreendem que muitos dos projectos mais eficazes são projectos que envolvem diferentes disciplinas.
Numa escola básica no Utah (EUA), foi usado um SIG para avaliar de que maneira aquela região seria afectada por uma estrada que se previa construir e que ia passar numa área de lazer muito popular. Geraram-se dados de tráfego e cartografaram-se algumas hipótese para o traçado da estrada. No final, os alunos, pertencentes aos 3º, 4º e 5º anos de escolaridade, fizeram um exercício de jogo de papeis tentando decidir qual a melhor opção para o traçado da estrada. O professor dessa turma concluiu que o SIG foi importante porque as crianças puderam entender que se podem relacionar com o mundo à sua volta, mais vasto do que a escola.
De acordo com Braus (1998), os SIG fornecem aos estudantes, ferramentas de análise que podem ser transformadas em capacidades de comercialização. Alguns alunos que finalizaram o liceu em Detroit (EUA), conseguiram arranjar emprego por causa das experiências que tiveram com os SIG. No entanto, para os professores, o facto de os alunos terem aprendido a trabalhar com SIG tem mais vantagens do que apenas ter conseguido arranjar emprego. O SIG permite transformar uma simples actividade de aula e expandi-la à comunidade, além da escola. Os mapas e os computadores são, à partida, elementos apelativos. O processo de aprendizagem é enriquecido quando as actividades da aula podem ser usadas na "vida real".
Por outro lado, o uso de materiais relacionados com SIG provaram, em alguns casos (de acordo com Baker, 2002), mudar a atitude dos jovens perante a tecnologia. A maior facilidade em analisar dados e encontrar padrões levaram alunos que usaram SIG a ter melhores capacidades de análise e melhores resultados escolares finais. Há assim, um aumento da probabilidade de sucesso escolar.
Mas nem tudo são vantagens quando se usam SIG na sala de aula. As principais barreiras identificadas ao uso generalizado dos SIG são, de acordo com Braus (1998), o desconforto que os computadores geram em alguns professores, assim como a renitência em mudar os métodos de ensino. Por muito aptos que os alunos estejam para trabalhar com estas tecnologias, os professores precisam de ter formação nesta área e, mais importante do que isso, estarem dispostos a modificar os seus métodos habituais e integrar os SIG nas suas planificações de aula.
O acesso a computadores e a verbas que permitam instalar e manter material informático nas salas de aula, parecem ser outra das dificuldades sentidas por algumas escolas americanas. Os financiamentos para cursos de formação de professores também são, por vezes, uma barreira ao uso dos SIG na escola. Algum do software usado em SIG requer conhecimentos especializados, o que nem sempre é fácil de encontrar.
Finalmente, a bibliografia consultada alerta para o facto de os SIG não deverem ser usados de maneira superficial. É fácil levar os computadores para uma sala de aula e mostrar umas imagens e uns mapas aos alunos. Há uma grande diferença entre mostrar a tecnologia e usá-la.
De tudo o que foi anteriormente apresentado, fica-se com a impressão de que muito pode ser feito no sentido de integrar as TIC, e mais concretamente os SIG, no ensino. O conceito de "cidadão geograficamente competente", anteriormente referido, pretende demonstrar precisamente a importância do conhecimento geográfico na sociedade actual. Não se trata apenas de conhecimento geográfico enciclopédico e descritivo, mas antes de dotar os cidadãos de uma sensibilidade acrescida para a importância do relacionamento espacial entre diferentes objectos, lugares, entidades e ambientes.
É importante que a escola seja capaz de mostrar que a Geografia é uma ciência actual, essencial e experimental. Caso não se comecem a usar estas tecnologias nas escolas, corre-se o risco de se estar a formar cidadãos que não consideram a Geografia como parte da sociedade de informação, o que seria grave. A sociedade de informação é um modelo de acordo com o qual os países mais desenvolvidos estão e vão continuar a organizar-se. Neste tipo de sociedades. todas as formas de informação são importantes e a informação geográfica tem a vantagem de reunir componentes visuais, quantitativos e qualitativos, permitindo uma análise espacial globalizante.
Na perspectiva de que os SIG não se limitam à produção de cartografia, interessa saber, no âmbito da disciplina a que se destina este trabalho, de que maneira é que os SIG estão associados à componente de modelação. Os SIG são sistemas que utilizam informação geográfica susceptível de análise espacial, isto é, não apenas a informação cartografada, mas também informação de índole qualitativa e quantitativa georeferenciável. É um tipo de informação que desempenha um papel fundamental ao nível do Planeamento e Ordenamento do Território, sendo aplicável a domínios autárquicos, de construção de infraestruturas, de protecção ambiental, etc.
Os processos de modelação e simulação são métodos que descrevem, representam e simulam o funcionamento de situações do mundo real. Os modelos são abstracções simplificadas da realidade que descrevem os seus elementos e interacções mais significativos. A modelação é útil na análise e compreensão de fenómenos, pode servir de base a teste de hipóteses e teorias e ainda pode ser útil na previsão espacio-temporal do comportamento de determinados sistemas. Nesta perspectiva, a modelação e os SIG são úteis tanto às ciências naturais como às ciências humanas.
Tanto se pode modelar o comportamento de um ecossistema, procurando observar o que acontece quando um dos elementos da cadeia alimentar desaparece, por exemplo, como se pode modelar o comportamento de uma população, procurando estudar dinâmicas das populações (processos de migração, de comportamentos diversos ao nível das taxas de natalidade e mortalidade, etc.).
Existem diversos tipos de modelos, mas de uma maneira geral podemos considerar um modelo como uma equação matemática, mais ou menos complexa, cujos elementos e operações representam os vários elementos do sistema e os processo que nele actuam. Na prática, ao desenvolver um modelo, o que se faz é definir regras, que se traduzem por algoritmos que o programa de computador vai correr.
Os SIG são ferramentas de grande utilidade para a modelação. Para além de armazenarem grandes quantidades de dados, servem para processar informação, transformando-a de várias maneiras, utilizando métodos de interpolação e outros algoritmos matemáticos. Permitem ainda a visualização e análise dos resultados e são uma potente ferramenta de simulação em ambiente informático. Assim, quase se pode dizer que tudo o que se faz em SIG pode ser, duma forma ou de outra, considerado modelação.
É muitas vezes através de modelos que se ensina. Quando pretendemos falar do ciclo da água ou do funcionamento de uma cadeira alimentar ou até de fenómenos de vulcanismo, muitas vezes recorremos a esquemas, que aparecem nos livros e que pretendem ilustrar modelos. Quando mostramos aos nossos alunos um gráfico de evolução da população ou mapas sobre os diferentes níveis de desenvolvimento dos países, não estamos a fazer mais do que a mostrar-lhes modelos estáticos. Seria muito mais aliciante e até de mais fácil compreensão para os alunos poderem ver os mesmos esquemas com movimento no écran de computador. Melhor ainda: podem ser eles a manipular os dados de modo a ver como os processos ocorrem e como variam quando se alteram variáveis.
Há alguns sites (portugueses e internacionais) da Internet (ver ANEXO 1). com projectos sobre estatística, matemática, alguma modelação matemática, mas sem recurso ao SIG. Seria interessante explorar mais uma vertente interdisciplinar Alguns sites apresentam exemplos de modelos ou listas de software, que podem ser usados para resolver problemas de modelação. A maioria deles está ligada às áreas da Matemática e da Física e têm pouca ou nenhuma componente geográfica.
A principal conclusão que se pode tirar deste estudo, é de que muito mais se pode fazer no que respeita ao uso das TIC, dos SIG e da Modelação no ensino português. São inquestionáveis as vantagens que estas tecnologias proporcionam, tanto na motivação dos jovens, como na construção de conhecimento.
Pode verificar-se que outros países (nomeadamente os EUA) desenvolvem actividades deste tipo nos diversos graus de ensino, com grande frequência e com êxito ao nível das aprendizagens. Os resultados destas experiências têm-se mostrado benéficos, porque os jovens têm aptidão natural para os computadores, mas também porque os resultados académicos são animadores. Nota-se que os jovens conseguem resolver questões de análise espacial com maior facilidade, contribuindo assim para o aumento da literacia geográfica.
Não restam dúvidas que a aposta dos SIG na escola é uma aposta em direcção à formação de cidadãos mais competentes em diferentes sectores e com maiores capacidades de análise. Mas esta aposta não terá sucesso se os professores não forem os primeiros a aderir a ela, abraçando as novas tecnologias, trabalhando em equipa e promovendo a interdisciplinaridade. Os SIG podem muito bem ser a ponte para essa interdisciplinaridade uma vez que a análise espacial e os fenómenos de projecção geográfica são comuns a todas as áreas (científicas, humanísticas, artísticas, etc.)
BIBLIOGRAFIA:
PESQUISA NA INTERNET:
SITES QUE DIVULGAM TIC E INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA NUMA PERSPECTIVA EDUCATIVA:
SITES QUE DIVULGAM MODELOS, EXERCÍCIOS OU LISTAS DE SOFTWARES EDUCATIVOS NA ÁREA DA MODELAÇÃO E SIG: