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Homenagem a Miguel
Mota
Março de 2009, IBMC, Porto
- PUBLICO.PT
15 de Março de 2009 - 18h56
(Andrea Cunha
Freitas)
Miguel Mota esperou 30
anos para ver comprovada a sua teoria sobre divisão celular,
publicada em 1957. Esta semana, um grupo de investigadores quis
homenagear o cientista português. Chamam-lhe visionário
a Os olhos, pequeninos e quase transparentes à volta de
uma pupila negra, brilham quando fala de ciência. O corpo
agita-se quando fala de política e, principalmente, da
actual política do Ministério da Agricultura. Os
braços caem, rendidos, quando fala da mulher que teve
de "ir buscar" à Suécia e que é
a sua companheira há mais de meio século. O peito
incha quando fala do filho - "Descobriu a doença
do pinheiro, conhece?" - e da filha - "É ela
que põe os textos que escrevo no meu blogue". Cercado
por um bigode aparado, o sorriso abre-se com a perspectiva da
homenagem que está prestes a começar no Instituto
de Biologia Molecular e Celular (IBMC), no Porto, com o simpósio
sobre os mecanismos de segregação de cromossomas.
O título do comunicado do IBMC onde o apresentam como
um investigador visionário é: "À frente
do seu tempo: Miguel Mota".
Tem 83 anos. Passaram mais de 50 da publicação
do artigo A new hypothesis for the anaphase movement, na revista
International Journal of Cytology. O trabalho descrevia uma nova
teoria para o chamado "movimento anafásico",
a divisão celular que acontece "quando os cromossomas
se separam e marcham para os pólos da célula".
Miguel Mota defendeu que uma estrutura em especial dos cromossomas,
os cinetócoros, era determinante neste processo de divisão
celular. Os cinetócoros eram o "motor a jacto"
na anáfase, conseguindo mover os cromossomas para os pólos.
Trinta anos após a divulgação da teoria,
um investigador chamado Gary Gorbsky conseguiu finalmente comprovar
experimentalmente a teoria de Miguel Mota.
Mostrar o que se faz
Gorbsky era uma das muitas pessoas sentadas no início
da semana na plateia do auditório do Porto. Hélder
Maiato, investigador do IBMC e organizador desta homenagem e
simpósio, ocupava outro dos lugares. Tinha já elogiado
o cientista português que "nos anos 50, sem recurso
às tecnologias que hoje são comuns nos laboratórios,
avançou com uma hipótese que revolucionou a compreensão
dos mecanismos da divisão celular". O resultado do
trabalho foi citado em diversos artigos, mas o nome foi muitas
vezes esquecido. Talvez por isso o nome deste cientista não
seja conhecido da maioria das pessoas. Miguel Mota não
parece estar muito preocupado com isso. Sorri, encolhe os ombros
e conclui: "Já passou."
A homenagem é recebida com "grande surpresa",
diz o homem que em 1948 assumiu a liderança do Laboratório
de Citogenética da Estação de Melhoramento
de Plantas, em Elvas, após ter concluído o curso
no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa. Não há
aqui falsa modéstia. Apesar de sempre se ter mostrado
"mais empenhado em conseguir cereais melhorados do que artigos
científicos" - como notou o fundador do IBMC, Teixeira
da Silva, que apresentou o homenageado -, Miguel Mota sabe que
é importante mostrar o que se faz. "Acho que os investigadores
que não querem que se saiba o que estão a fazer
prejudicam-se a si e à ciência portuguesa e ao país."
O cientista que esperou décadas pela experiência
que provou que ele estava certo sabe do que está a falar.
O investigador Hélder Maiato comparou-o a George Mallory.
Quem? Pois. Terá sido o primeiro homem a subir ao topo
do Evereste, mas como nunca foi visto depois disso nunca foi
reconhecido por esse facto. E consagrou-se o nome de Sir Edmund
Hillary como o homem que chegou ao pico do mundo e voltou para
contar.
Hoje, Miguel Mota está afastado da aventura das descobertas
que fazia atrás das lentes dos microscópios, mas
ainda está muito perto do que se discute na sua área
de investigação: a genética, em particular
na sua aplicação aos problemas na agricultura.
Quando em 2006 recebeu um Honoris causa da Universidade de Évora,
não quis "aborrecer" ninguém com o assunto
da anáfase e a história da sua teoria, publicada
em 1957. Preferiu falar de clonagem, um tema que "tem andando
pelo mundo com grande divulgação".
Clones e estaminais
E no discurso, que está no seu blogue Melhor Portugal
(http://agriciencia.blogspot.com/), Miguel Mota dá algumas
lições, insistindo, por exemplo, que o termo "clone"
tem sido mal usado. "'Clone' é um substantivo colectivo.
Assim, como nenhuma pessoa é 'família', nenhum
organismo isolado é 'clone'. Mas esse disparate, filho
da ignorância, mesmo de quem tinha obrigação
de não o cometer, é um dos erros que vemos pelo
mundo e, naturalmente, também em Portugal", argumenta.
O investigador lembra assim que o conceito "clone"
recebeu esse nome em 1903, quando o agrónomo americano
Herbert J. Webber, num artigo na Science, o propôs para
"um conjunto de organismos derivados de um único
por reprodução assexuada".
Mas "clone" não é o único disparate
que anda nas bocas do mundo, segundo Miguel Mota. O investigador
prefere falar em "variabilidade" para se referir àquilo
a que "agora gostam de chamar 'biodiversidade'" e também
continua a tentar convencer as pessoas a desistir da expressão
"células estaminais" para o substituir por "células
tronco" (segundo explica, a confusão foi gerada por
uma tradução mal feita do termo stem cells). "Células
estaminais são as células dos estames das flores
(em inglês staminal cells) e, no estado actual da ciência,
não podemos obter com elas qualquer uso em humanos para
curar tecidos danificados."
E sobre "o ridículo nome de 'agricultura biológica'"?
"Enquanto as fábricas não fizerem couves sintéticas
e bifes sintéticos, toda a agricultura é biológica",
nota o especialista.
Falemos de agricultura, então. Pela voz do homem que é
o "pai" de algumas linhas de centeio melhoradas que
estarão implantadas em várias regiões do
país, nas Beiras e Trás-os-Montes. "Foi o
resultado de um trabalho que fiz em Elvas. São centeios
aos quais dupliquei o número de cromossomas, fiz aquilo
a que hoje se gosta de chamar 'biotecnologia', criando plantas
com 28 cromossomas que nalgumas zonas podem, com rearranjos,
autofecundações e selecção, dar 50
por cento mais do que os outros centeios cultivados." Onde
estão? "Não sei o que é feito disso,
porque o Ministério da Agricultura teve a gentileza de
cortar e impedir uma série de trabalhos."
Por essas e por outras, está zangado. "Não
pode haver agricultura que preste se o Ministério da Agricultura
não tiver uma investigação agronómica
em grande. E os últimos governos, de várias cores
- qual deles o pior? -, têm seguido o caminho contrário",
critica. Indignado com os rabanetes holandeses e os alhos da
China que vemos no supermercado, questiona: "Qual é
a dificuldade de produzir alhos em Portugal?" O que é
um facto é que os agricultores alegam que há, cada
vez mais, dificuldades em produzir. "Claro, com o Ministério
da Agricultura a fazer os possíveis para destruir a agricultura
e, assim, a assassinar a economia!", reage o especialista,
que ainda acredita num futuro nacional apoiado na agricultura.
E reforça: "A base de um progresso na agricultura
é a investigação agronómica."
Miguel Mota não perdoa a decisão "idiota e
criminosa" tomada em 2007 pelo Governo, que juntou num só
organismo toda a investigação nesta área
e "extinguiu" a Estação Agronómica
Nacional, em Oeiras, onde assumiu vários cargos de chefia.
E denuncia ainda: "O Laboratório Nacional de Engenharia
Civil é hoje uma sombra do que foi."
O investigador gostaria também de ver chegar o dia em
que se acabasse com o Ministério da Ciência e se
criasse um "conselho nacional de ciência" com
especialistas de topo de várias áreas. Como vê
a ciência que se produz em Portugal? "Há uma
quantidade de gente nova excelente. Ainda há alguns restos
dos antigos que são excelentes e depois há uma
quantidade de senhores medíocres, alguns em lugar de comando,
que conseguem estrafegar uma porção de trabalho
em vários sectores."
Olhar e ver
Aos mais novos deixa ainda o conselho que se espera de quem revolucionou
ou inovou, próprio de um visionário. "Não
se deixem cegar pelos livros. Tenham sempre as mentes abertas.
Se as vossas experiências disserem o contrário dos
livros, confirmem, confirmem de novo e publiquem-no. Os livros
podem estar errados."
Miguel Mota é um espectador de primeira fila da actualidade
do país. Agora tem mais tempo para "olhar e ver"
- o que fez ao longo de toda a sua vida profissional, segundo
notou Teixeira da Silva. Reformou-se em 1992 e, desde aí,
escreve mais do que nunca. Para os jornais, para o Linhas de
Elvas, onde é colaborador regular de opinião. Também
ainda dá aulas de Genética em universidades séniores,
entre outras actividades académicas. A mulher que hoje
o observa (sem esconder um pingo de orgulho) enquanto é
fotografado para o P2 foi sua aluna na sala de aula. Alguém
diz: "O Miguel está bonito hoje. É para a
homenagem?"
Ela corrige: "Ele é bonito."
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