Mestrado em Ciência e Sistemas de Informação Geográfica

Projecto final da disciplina Ciência e SIG

Cartografia e SIG

Professores: Marco Painho e Miguel Peixoto
Madalena Galvão de Melo e Mota
 Aluna nº G2002169
 Fevereiro 2003

1- Introdução

Os SIG usam-se para se conseguir informação (geográfica e não só) e, com base nela, decidir. O objectivo deste trabalho é mostrar as implicações da produção de mapas. Aborda-se sobretudo a perspectiva do leitor e do utilizador dos mapas produzidos nos SIG, e não propriamente a concepção do SIG nas suas fases iniciais, como sejam a elaboração de uma base de dados eficaz, ou a escolha de dados mais ou menos significativos. Parte-se do princípio que os SIGs estão bem construídos de raiz e a preocupação centra-se na produção do resultado final.

Explanam-se algumas teorias relacionadas com a "gráfica" e as implicações da escolha de técnicas de elaboração de mapas (tais como a escolha da escala, dos símbolos a utilizar, etc). Salienta-se o facto de o utilizador dos mapas poder ser, no caso dos SIG, o próprio cartógrafo, já que os SIG possibilitam que se alterem e produzam mapas consoante os objectivos pretendidos pelo utilizador.

Apresentam-se também exemplos de como os mapas (e a representação gráfica em geral) podem manipular e deturpar a informação.

2-Leitura e Utilização de Mapas

Um mapa é um importante instrumento de análise visual. É uma representação simplificada da superfície da Terra, ou de parte dela, para muitos e variados fins. Por definição, não são reproduções fieis da realidade porque estão sujeitos a simplificações, generalizações, omissões e projecções que distorcem inevitavelmente a informação neles contida. Deste modo, cabe ao cartógrafo decidir qual a informação que vai representar e qual a que vai omitir, (quer ao nível dos objectos representados, quer ao nível da generalização e simplificação que terá de fazer). Cabe-lhe ainda a decisão de como representar a informação. Estas decisões determinarão o modo como o leitor ou o utilizador do mapa interpretarão a informação nele contida.

Segundo Robinson (1984), a cartografia consiste num grupo de técnicas que se preocupam fundamentalmente com a redução das características espaciais de uma área, colocando-as num mapa de modo a torná-las observáveis. Robinson acrescenta ainda que há várias maneiras de elaborar mapas, diferindo nos objectivos e nos métodos. Mas é importante apercebermo-nos de que todos os mapas têm um mesmo objectivo comum que consiste em ser um meio de comunicação no que concerne às relações espaciais. Nesse sentido, por muito diferentes que os mapas pareçam, os métodos cartográficos envolvidos são fundamentalmente similares.

2.1- CARACTERÍSTICAS BÁSICAS DOS MAPAS

Todos os mapas têm algumas características básicas comuns. A maioria dos mapas são reduções da realidade a duas dimensões. Nesse sentido, há sempre uma relação dimensional entre a representação cartográfica e a realidade, a escala que se reveste de grande importância. Por outro lado, um mapa corresponde a uma transformação geométrica que consiste em representar num plano o que na realidade é essencialmente esférico. Essa transformação corresponde à projecção e pode ser feita de várias maneiras. A escolha da projecção é crucial pois afecta a maneira como o mapa deve ser usado.

Os mapas também têm uma simbologia para representar os vários elementos reais. O significado de todos os símbolos deve aparecer na legenda do mapa. É também importante que os mapas indiquem a sua orientação. Nos mapas topográficos existe, geralmente, a indicação do Norte geográfico e do Norte magnético. Nos mapas temáticos, só deverá aparecer uma rosa-dos-ventos quando o mapa não estiver com o Norte coincidente com o topo da página. Sempre que isso acontece, a indicação de Norte é desnecessária e redundante.

2.2-TIPOS DE MAPAS

Os mapas podem classificar-se de acordo com a sua escala ou com a sua função. Assim, temos mapas de grande escala (geralmente escalas maiores do que 1/10.000), que representam plantas (por exemplo de cidades), e mapas de pequena escala (menores do que 1/10.000) que representam áreas maiores, podendo mesmo chegar a planisférios, ou seja, à representação da totalidade do nosso planeta. Evidentemente que um mapa de grande escala representará uma área restrita, mas muito mais pormenor e que um mapa de pequena escala abrangerá uma área maior, mas não poderá mostrar grande pormenor.

Quanto à função, os mapas podem classificar-se em mapas de base (são mapas de referência, cuja função é, fundamentalmente, representar a associação espacial de vários fenómenos geográficos como estradas, povoações, fronteiras, elevações, linhas de água. O exemplo mais representativo dos mapas de base são as cartas topográficas), mapas temáticos (cujo objectivo se prende com a representação espacial de um atributo, tentando mostrar um padrão de distribuição. Um mapa de densidades populacionais seria um excelente exemplo de um mapa temático) ou ainda as cartas de navegação, que são especialmente concebidas com o objectivo de auxiliar a navegação naval, aeronáutica ou até terrestre (um mapa de estradas é uma carta de navegação).

2.3-A VISÃO E O CÉREBRO: UM SISTEMA COMPLEXO

Para se ler um mapa utilizam-se os órgãos da visão e do cérebro em estreita conexão. Ou seja: não é apenas através da visão que se lê um mapa. A percepção e a cognição são mecanismos envolvidos neste processo(1). É, pois, importante perceber como é que funciona a visão e o sistema visãocérebro para a definição das regras da representação cartográfica.

A retina, parte do olho constituída por células sensíveis à luz (os cones e os bastonetes) regista a luz que atravessa o cristalino. É na fóvea, a parte central da retina, que se regista a maior acuidade visual porque é aqui que existe uma grande concentração destas células. O olho, para se aperceber claramente dos objectos, precisa de se movimentar constantemente. As imagens, que se formam invertidas na retina, são conduzidas ao cérebro através de um sistema de transmissão. É na fóvea que se projectam imagens precisas, pelo que é necessário que os olhos e a cabeça se desloquem para focar vários pontos de interesse. Através dos estudos destes movimentos é possível definir o número e a ordem das fixações, definindo um trajecto de varrimento. São importantes informações acerca do mecanismo de leitura. Aquilo que vemos resulta de informações acumuladas (U. Neisser, também citado por Helena Dias, 1991, pp 28, refere-se, por isso, à natureza construtiva da percepção). No entanto, os resultados dos estudos dos movimentos oculares demonstraram (2) que:

Estes resultados apresentam, no entanto, algumas falhas de interpretação que resultam, de acordo com Maria Helena Dias, com a definição de "fixação" (uma vez que os olhos se movimentam continuamente), com o estabelecimento da ordem cronológica das fixações, ou ainda com o facto de não se saber se a "paragem" dos olhos em certas partes do mapa se devem às «características dos símbolos (contraste, cor, angulosidade e outras), ou a carga informativa que suportam» (3).

2.4- DIFERENTES MANEIRAS DE VER OS MAPAS: O LEITOR E O UTILIZADOR

Os mapas podem ser instrumentos muito importantes em muitas áreas e em muitas situações. Os utilizadores de mapas podem ser:

Assim, a função e o objectivo dos mapas pode ser muito diversificada, sendo que a sua concepção deve ter isso em consideração. Maria Helena Dias, distingue o "leitor" do "utilizador" de mapas. O leitor é aquela pessoa que detecta, discrimina e identifica o que está representado no mapa. O utilizador vai mais além, chegando mesmo a um estádio de compreensão da informação contida no mapa. Um utilizador lê, analisa e interpreta um mapa. Ao cartógrafo cabe a tarefa de produzir mapas diferentes para leitores diferentes.

3- Cartografia tradicional

3.1-NORMAS BÁSICAS DA CARTOGRAFIA TRADICIONAL

Jacques Bertin (4) publicou, em 1967, a obra "Sémiologie Graphique" onde estão expostas as regras básicas da EXPRESSÃO GRÁFICA, baseadas na análise de centenas de imagens a partir das quais definiu as variáveis visuais que se devem ter em conta quando se utiliza a expressão gráfica. Estas regras aplicam-se tanto à produção de mapas, como à de diagramas e foram confirmadas pela experiência, à qual se juntou alguma técnica e espírito crítico.

Independentemente de se estar a implantar num mapa um ponto, uma linha ou um polígono, os elementos cartografados podem classificar-se em variáveis visuais. Cada uma dessas variáveis caracteriza-se pelo seu nível de organização e têm (ou não) a propriedade de transcrever eficazmente uma diferença, uma ordem ou uma proporção. As variáveis são: o tamanho, o valor, o grão, a cor, a orientação e a forma. Por exemplo, a cor não tem a propriedade quantitativa nem de ordenação pois não há uma relação entre a cor e quantidades (o verde não é maior do que o vermelho ou o amarelo). A cor será uma variável selectiva pois visualmente somos capazes de agrupar todos os símbolos azuis e facilmente distingui-los dos verdes. O valor (que pode ser traduzido pelos diferentes tons de uma cor) já pode ser selectiva e ordenada, pois é possível ordenar os símbolos do mais claro para o mais escuro.

O conhecimento das propriedades de cada variável visual e das variáveis que está a representar é extremamente importante para o cartógrafo. Quando se cartografa a densidade populacional, por exemplo, não se devem usar cores diferentes, pois o que se quer transmitir é precisamente onde estão as áreas mais e menos densamente povoadas. Por outro lado, quando se representam os partidos vencedores das câmaras municipais, então a utilização tons diferentes dentro da mesma cor não faz qualquer sentido. A orientação da trama ou o valor dentro do preto/branco poderão ser variáveis úteis quando a cor não pode ser usada (se se pensar num mapa para um teste escolar, onde areprodução por fotocópias na escola tem forçosamente de ser a preto e branco, já é pertinente pensar nesta limitação).

Bertin define a "gráfica" como uma linguagem que utiliza as propriedades da imagem visual para mostrar as relações de parecença e de ordem entre dados, que constituem a parte racional do mundo das imagens. Alerta para que não se confunda "gráfica" (utensílio de trabalho, que utiliza dados previamente definidos) com "grafismo" (uma arte que pode ser discutível e que procura uma definição que estará no espírito do observador). A "gráfica" tem dois objectivos:

A "gráfica" estrutura a construção das imagens a partir de uma gramática que se apoia nas leis da percepção visual. A visão de uma imagem é imediatamente vista como um todo. Se a imagem tiver sido construída de acordo com as regras desta gramática, ela é imediatamente compreensível. Uma construção gráfica eficaz dá uma resposta visual às questões colocadas acerca das relações que existem entre os dados.

A construção de mapas deve ser feita de maneira a que a sua leitura seja eficaz. O título e a legenda devem fornecer as informações básicas acerca do assunto, da área que é representada, a data, os diferentes símbolos, etc.

De acordo com Serge Bonim, do Comité francês de cartografia, desde que se começaram a aplicar os princípios da semiologia gráfica, constata-se uma evolução positiva ao nível da gráfica. Esta evolução traduz-se numa melhor legibilidade de mapas e gráficos que aparecem, por exemplo na imprensa escrita, na televisão, etc.

3.2- QUE DADOS USAR?

Quando se pretende cartografar um determinado assunto há que escolher os dados cuidadosamente, tendo em atenção as fontes que se usam, sobretudo quando se usam fontes diversas. A fonte deve ser de confiança, as projecções (no caso de mapas) deve ser a mesma (ou conversível num SIG), os métodos de recolha de dados devem ser idênticos e os dados devem referirse a mesma data. Quando se trabalha com dados demográficos, sociais ou económicos, a data a que se referem os dados farão, certamente, diferença. Os valores alteram-se frequentemente. É falacioso comparar dados de dois países referentes a anos diferentes.

Quando se usam dados internacionais, há ainda a ter em conta o facto de nem todos os países usarem os mesmos métodos estatísticos. Há ainda regiões do mundo onde as condições económicas são muito precárias, logo as estatísticas não são uma prioridade. Nestes casos, os dados ou são pouco frequente ou há grandes probabilidades de serem pouco fiáveis.

4- SIG

4.1-OS MAPAS PRODUZIDOS POR SIG

Os mapas produzidos pelos SIG são importantes instrumentos de decisão, sobretudo quando a decisão tem impactos espaciais (por exemplo a escolha da localização de uma indústria, uma estrada ou um bairro). O espaço é um bem finito e a decisão de como o usar deve ser feita com cuidados, pois é um bem de todos. Se estivermos a basear essas decisões em mapas que nos induzem em erro, poderemos estar a cometer danos irreparáveis. Evidentemente que os dados introduzidos nos SIG são de enorme importância, e não queremos, com este trabalho, menosprezá-los.

Em sentido muito restrito podemos dizer que os SIG podem ser vistos como um instrumento de produção de mapas onde às funções cartográficas foram adicionadas funções de análise. Sobrepõem-se diversos mapas temáticos e efectuam-se análises com base no cruzamento de informação. As ferramentas cartográficas são de enorme eficácia, pois através do computador podemos alterar rápida e facilmente as características dos mapas. A quantidade de informação que se obtém a partir de um mapa produzido por um SIG é, geralmente, muito maior do que a que se obtém a partir de um mapa tradicional (de papel). O que, se por um lado é bom, por outro a dificuldade de análise também é maior. Os processos de análise que o utilizador deve utilizar tornam-se mais complexos.

4.2- ERROS DE PRODUÇÃO FREQUENTES

De seguida apresentam-se alguns exemplos de mapas produzidos por SIGs onde se salientam alguns erros básicos ao nível das regras cartográficas. Todos os mapas aqui representados foram retirados de www.esri.com/industries/k-12/atlas/index.html

Fig. 1

Este mapa, produzido por um SIG, apresenta vários erros. O mais evidente dos quais é a enorme variação de tons dentro da mesma cor. Isto torna o mapa extremamente confuso e ilegível. O olho humano não consegue distinguir mais do que um determinado número de tons dentro da mesma cor. Deste modo o mapa da figura um apresenta uma panóplia de tons que não se distinguem, o que significa que o mapa tem pouca utilidade porque dele não se consegue retirar informação com clareza. Para além disso, no mapa não há qualquer referência a localidades ou nomes de ruas, pelo que não se sabe a que área se reporta.

A indicação da rosa-dos-ventos não deveria aparecer uma vez que o mapa está orientado com o Norte para o topo. Quanto à escala, está convencionado que, para uma mais fácil leitura, os valores que devem aparecer numa escala devem ser 2, 5 ou 10 (ou múltiplos destes valores em conjunto). Então, nesta escala deveriam aparecer os valores 2 milhas ou 5 milhas. Está correcto, no entanto, o uso da escala gráfica, pois é de leitura mais fácil do que a escala numérica. Ainda no que respeita à legenda, é importante referir que há símbolos que aparecem no mapa que não são referenciados na legenda (nomeadamente as linhas pretas, umas mais finas e outras mais grossas, provavelmente divisões administrativas e estradas).

Fig.2

Relativamente à figura dois, apesar de ser uma view e não um layout (ou seja: a barra lateral é o table of contents e não a legenda do mapa), há erros que se podem apontar. Aparecem com a mesma simbologia duas características de linhas de água. Num mapa, se há lugar para diferenciação de entidades, estas têm de ser representadas com símbolos diferentes. Aparecem polígonos definidos com linhas pretas que não se sabe o que são porque não estão identificadas. Uma vez mais não há qualquer menção a localidades, não se percebe a que região se refere o mapa.

Fig.3

Na figura três apresenta-se um mapa, de aspecto aparentemente mais sofisticado e visualmente mais atractivo à primeira vista pois apresenta-se com a ilusão das três dimensões. No entanto, também tem erros. Aparecem dois tons diferentes para características de edifícios com a mesma denominação (commercial). A escolha da simbologia a adoptar para os tipos de edifícios está errada, pois sendo edifícios de tipos diferentes que não apresentam qualquer relação de valor entre eles, não devem ser representados com tonalidades diferentes dentro da mesma cor (isso leva o leitor a pensar que há algum tipo de hierarquia). Os edifícios deviam estar representados a cores diferentes.

Fig. 4

A figura quatro também apresenta alguns erros. É um mapa com uma área em branco, sem qualquer indicação de localidade, demasiado extensa, onde se encontra uma delimitação a preto que não se sabe o que é. Não apresenta escala gráfica, o que dificulta a leitura (a escala que apresenta é uma escala escrita de difícil leitura). Tem uma legenda que, para além de não ter todos os símbolos representados no mapa, tem símbolos que não aparecem no mapa (por exemplo, não está representado nenhum sismo de magnitude 7) e é de leitura difícil pois exige que se faça a conjugação do elemento "tamanho do círculo" com o elemento "cor". Além disso, devido ao tamanho dos pontos, não se distingue a cor dos sismos do dia anterior e da semana anterior. Também não é referida a escala em que a magnitude do sismo é medida (Richter ou Mercalli). A indicação dos pontos cardeais e colaterais é uma informação redundante, pois o mapa encontra-se orientado com o Norte para cima.

4.3-CONSIDERAÇÕES GERAIS ACERCA DOS ERROS DE PRODUÇÃO

Dos quatro exemplos aqui apresentados, facilmente se conclui que as regras não respeitadas comprometem a leitura do mapa, o que pode ser crucial na comunicação, na transmissão de informação e, em última análise, na tomada de decisões. É pois importante que os arquitectos de SIG tomem consciência destes aspectos por forma a melhorarem os outputs cartográficos que produzem. Evidentemente que os erros dos mapas atrás apresentados foram da responsabilidade de quem os produziu e não "culpa" do software utilizado. Os computadores e os seus programas são instrumentos potentes e valiosos porque nos poupam muito tempo de trabalho. Ao nível da cartografia essa poupança é incalculável, pois um mapa é algo moroso de se fazer. Só o facto de podermos guardar a informação e utilizá-la vezes sem conta sem termos de repetir o processo de inserir dados ou desenhar símbolos é uma vantagem sem igual. No entanto, é preciso ter algumas cautelas relativamente aos automatismos.

A maioria do software de SIG hoje disponível permite a produção rápida e quase automática de layouts a partir de dados. Isto é excelente, mas a elaboração de um mapa correcto e legível deve ser alvo de algum tempo gasto em frente ao computador. O espírito crítico é importante para nos apercebermos de que as escolhas automáticas que o computador faz relativamente às cores ou aos símbolos a utilizar, nem sempre são as melhores (na maioria das vezes não são). As escalas gráficas que são colocadas nos mapas devem ser "esticadas" ou "encolhidas" de maneira a respeitarem as regras para uma leitura fácil. A legenda deve ser cuidadosamente escolhida para que os símbolos sejam os mais apropriados.

Em suma: a rapidez e a perfeição que podemos obter quando fazemos um mapa num computador só serão vantagens efectivas se formos capazes de despender tempo a refazer o layout. Mesmo que seja preciso refazê-lo num programa mais vocacionado para o desenho, caso o software SIG que usamos não permita determinadas alterações. Programas como o ArcMap permitemnos fazer o cruzamento de informação com muita eficácia e produzir análises correctas com rapidez e eficiência. No entanto, a produção de layouts requer mais do que colocar os elementos automaticamente.

Não se pretende, de modo algum, transmitir a ideia de que os mapas em computador são terríveis e sempre errados. Já ficou demonstrada a enorme capacidade que os computadores têm em facilitar o trabalho ao cartógrafo e em permitir, geralmente, a alteração das escolhas que os programas fazem por omissão ("default"). Não queremos também deixar de salientar que ao nível da leitura e utilização há também diferenças entre mapas de papel e mapas em computador. Os programas de computador que permitem elaborar e visualizar mapas têm, pelo menos duas funções que flexibilizam a utilização dos mapas: são eles o "pan" e o "zoom". Estas duas ferramentas permitem alterar aquilo que se está a ver, quer no que respeita à área de visualização quer no que respeita à escala ou ao pormenor. No caso dos SIG, as "query" permitem-nos ainda visualizar e destacar determinados aspectos conforme a análise que se pretende.

5- Diferentes leitores diferentes mapas: Estarão os SIG a dar resposta?

Outro aspecto a ter em conta na produção cartográfica é o futuro tipo de leitor ou de utilizador do mapa que se produz. Melhor será dizer, o objectivo com que um mapa é produzido.

5.1- MANIPULAÇÃO DA INFORMAÇÃO NA CONSTRUÇÃO GRÁFICA E NO MANUSEAMENTO DOS DADOS

Uma das maneiras de manipular informação é através das próprias características e técnicas de construção de mapas. A simplificação ou a generalização podem ser usados de maneira a que um determinado mapa realce uns aspectos em detrimento de outros. A simplificação do traçado de uma estrada pode levar-nos a optar por um percurso bastante mais sinuoso que outro. Um empreendimento turístico pode parecer muito atractivo se, no mapa de apresentação publicitária, se a generalização se fizer no sentido de omitir informação sobre os bairros de lata que o rodeiam.

Podemos dizer que os dados estatísticos, se recolhidos com fiabilidade, são objectivos, não sendo possível alterar o seu significado. O mesmo não se poderá dizer da representação gráfica desses valores. Diversos autores referem este aspecto demonstrando claramente como é fácil manipular a informação, aparentemente objectiva. Em cartografia, os mapas coropletos(5) são especialmente adequados a este tipo de erro. Existem vários métodos de divisão em classes e cada um deles produz a divisão de maneira diferente. Uma vez mais, o software cartográfico e de SIG oferece, geralmente, a possibilidade de escolher o método mais adequado. Perante isto, o cartógrafo tem três hipóteses:

1-escolher aquele que mais se adequa à realidade dos factos (estão descritas as situações em que cada método é mais apropriado);

2-escolher o método que o software define por omissão ("default");

3-escolher o método que produza o mapa que mais se aproxima da "realidade" que quer mostrar.

As duas últimas hipóteses podem originar mapas que distorcem a realidade. Quando o cartógrafo assume o método que o "software" lhe oferece por omissão, a distorção fica a dever-se à preguiça na procura da melhor solução. Quando se opta pelo método que favorece determinados resultados o intuito é manipular a informação. O exemplo que a seguir se apresenta é retirado do livro "How to lie with maps" (título bastante sugestivo) de Marc Monmonier (pp 41).

 

 

 

 

 

Figura 5 -Manipulação de intervalos de classe em mapas coropletos para se produzirem interpretações políticas divergentes (Monmonier, 1996)

Os mapas foram ambos construídos com os mesmos dados. No primeiro caso, a divisão em classes originou um mapa onde a maioria dos territórios analisados apresenta uma elevada percentagem de casas sem telefone. No segundo caso, o mapa mostra precisamente o contrário, com os mesmos dados. A questão aqui é saber qual dos mapas apresenta a melhor definição de percentagem "elevada" ou "baixa".

Este tipo de manipulação é particularmente conveniente a vendedores, publicitários e políticos. A publicidade (no comércio como na política) partilha com a cartografia o objectivo de comunicar apenas uma parte da verdade. Um anúncio tem de criar uma imagem apelativa. Um mapa tem de apresentar uma imagem clara. Em nenhum dos casos se consegue mostrar TODA a realidade. Um comerciante ou um político pode pagar a um cartógrafo (ou a um gráfico) para que este lhe produza um mapa que realce os aspectos positivos do seu produto e que realce os aspectos negativos do produto do seu rival. Como refere Monmonier (1996), "(...)adds must attract attention and maps are proven attention getters. In advertising, maps that decorate seem at least as common as maps that inform."

A propaganda política é uma área onde os mapas podem ser usados com o objectivo de manipular a opinião pública. Usando técnicas de manuseamento de dados ou técnicas de divisão em classes, podem produzir-se mapas onde a imagem pode próxima ou distante da realidade.

5.2- MAPAS DE AUXÍLIO À DECISÃO

O uso de mapas é imprescindível em planeamento. Os planos directores municipais (PDM) têm grandes colecções de mapas onde se encontram as localizações específicas de uso do solo. Não se faz um estudo de impacte ambiental sem se apresentarem muitos mapas. Há empresas que produzem mapas e resultados destes estudos, precisamente de acordo com os interesses da entidade que os encomendou. Basta que a generalização feita nos mapas de menor escala seja feita de maneira a omitir certos aspectos e a realçar outros. Da mesma maneira, um investidor, que queira convencer um presidente de câmara a deixá-lo construir um empreendimento turístico ou qualquer outra coisa num determinado local, tem nos mapas excelentes instrumentos de manipulação. Para além dos mapas, os diagramas conceptuais são também instrumentos muito usados neste tipo de apresentações. Estes diagramas são mapas estilizados onde se representam relações e interacções entre espaços e elementos. Têm geralmente um enorme poder atractivo e podem ser altamente persuasivos. E serão tanto mais persuasivos quanto mais complicados forem e quanto mais entusiasta for a sua explicação. Monmonier (1996) lista onze regras para que uma apresentação com mapas e diagramas corra bem. O mais curioso é que esta lista refere sobretudo que o autor deve estar preparado para realçar o positivo, omitir o negativo, ter uma história preparada para o facto de se ser apanhado em falso (dar desculpas relacionadas com erros de computador ou técnicos incompetentes). Enfim, parte-se do princípio que uma apresentação serve sobretudo para enganar e iludir quem vai comprar o projecto ou decidir se este pode ou não ser implementado num determinado local.

5.3- MAPAS PARA O ENSINO

Como já se referiu, os mapas são atractivos. Este facto deve ser aproveitado pelos professores (de Geografia e não só). Sabemos, por experiência própria, que a entrada numa sala de aula com um mapa de parede enrolado debaixo do braço, cria expectativas nos miúdos (sobretudo nos de onze ou doze anos, altura em que pela primeira vez têm a disciplina de Geografia) de uma aula interessante. Evidentemente que essas expectativas podem ou não concretizar-se. Não é a presença do mapa que torna a aula interessante. Mas a presença do mapa pode ser usada como meio de motivar interesse. A curiosidade em miúdos de doze anos é muito grande.

Quando um mapa é uma novidade (e infelizmente é-o frequentemente, mesmo nas salas de aula), acontece por vezes que as aulas deixam de correr como inicialmente tinham sido planeadas, para se transformarem numa hora agradável e quase de lazer. Os miúdos perguntam onde fica este ou aquele lugar que ouviram falar na televisão ou onde decorreu o último mundial de futebol. Perguntam o que querem dizer as cores ou os símbolos, ou até "aquela barrinha preta com números", enfim. Sem se aperceberem de que estão numa aula a aprender, saem com a sensação de ter enganado o professor e terem conseguido não ter aula porque conseguiram empatar a hora inteira. Mas o professor sabe (ou deve saber) que a aula foi tanto ou mais proveitosa do que qualquer outra, pois a probabilidade de os miúdos terem realmente aprendido algumas coisas é muito grande.

Quando se fazem mapas escolares, especialmente para crianças ou adolescentes, não pode haver erros. É pedagogicamente desastroso utilizar um instrumento com incorrecções, mas infelizmente já tem acontecido. Há pouco cuidado por parte das empresas editoras de mapas escolares com aspectos como escalas gráficas que não obedecem às normas, títulos pouco sugestivos ou até legendas de difícil leitura. Aparecem mesmo partes de mapas (ampliação de uma secção importante do mapa principal) sem qualquer escala. Mas mais grave do que empresas a produzir estes mapas, são as escolas e os responsáveis pelos departamentos de Geografia que os compram e os usam sem qualquer menção a estes aspectos.

Por outro lado, é imperativo que a clareza dos aspectos cartografados seja a melhor possível, quer no que respeita às técnicas de generalização e simplificação, que no que respeita às cores utilizadas. Um mapa escolar tem de ser visível no fundo duma sala de aula, pelo que as dimensões do mapa devem ser também um aspecto importante a ter em consideração.

Quanto aos SIG, pensa-se que muito em breve integrem os programas do ensino secundário. A formação de professores a este nível é um imperativo. Equipar as escolas tem de ser uma preocupação dos Conselhos Executivos, mas sobretudo dos professores de Geografia. Podem ser desenvolvidos projectos que englobem a criação de clubes para os alunos e também a formação de professores. O Ministério da Educação já têm promovido algumas actividades no âmbito das tecnologias da informação, nomeadamente através do programa "Internet na Escola". Este programa, que equipou as escolas com computadores e ligações à internet, facilitou o acesso de milhares de jovens à informática. Organismos como o CNIG e o SNIG também chegaram a desenvolver concursos (6) e outras actividades dedicadas às escolas, no âmbito da informação geográfica.

6- Conclusão

A cartografia é fundamental para o uso dos SIG. As regras da semiologia gráfica já deram provas de bons resultados no que concerne à comunicação em geral. Sendo os SIG um instrumento de apoio à decisão, devem produzir "outputs" que sejam bons comunicadores visuais. Os mapas produzidos por SIGs devem seguir estas regras. A formação cartográfica nunca poderá ser descurada na formação de um técnico de SIG. Quando os mapas são produzidos por alguém que apenas domina o programa de computador, correse o risco de não se atingirem os objectivos pretendidos.

 

Notas de rodapé:
(1) Segundo R.H Forgus e L. E. Melamed, citados por Maria Helena Dias (1991, pp24), a percepção é o processo de extracção da informação, vista na perspectiva de uma necessidade humana básica de adaptação ao meio, enquanto a cognição foi considerada a aquisição de conhecimentos no geral. Todavia, estes conceitos são controversos e nem sempre os psicólogos os entendem exactamente do mesmo modo. 2 Maria Helena Dias (1991, pp32) cita H.W. Castnert relativamente a estes resultados.
(2) Maria Helena Dias (1991, pp32) cita H.W. Castnert relativamente a estes resultados.
(3) Maria Helena Dias (1991, pp33).
(4) Jacques Bertin é um autor largamente citado em grande parte da bibliografia respeitante à cartografia. A definição que fez das regras da expressão gráfica, da definição de varáveis e das propriedades a ter em conta na elaboração de qualquer elemento gráfico para comunicação, tornaram-no uma importante referência nesta matéria.
(5) Mapas coropletos são mapas temáticos que representam "(...)dados numéricos, geralmente agrupados em classes, referidos a unidades espaciais, cujo conteúdo é representado por manchas(...)" Dias, Maria Helena (1991, pp337).
(6) Por exemplo, o concurso "Mostra a tua escola vista do céu", em 1999/2000.

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