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Catástrofes Naturais
Madalena Mota, professora de Geografia
Publicado em "Sintra Regional", nº 9, Março de 2005

Com os acontecimentos do passado dia 26 de Dezembro no sudeste asiático, o mundo ficou mais atento e alerta para as catástrofes naturais. O que aconteceu na Ásia foi um violento sismo, que por sua vez deu origem a um tsunami, ou onda gigante.
A Terra é composta por camadas, das quais a mais superficial (crosta terrestre) se encontra fracturada, como se fosse um gigante puzzle, e assenta sobre uma camada viscosa (manto). As peças desse enorme puzzle chamam-se placas tectónicas. Por consequência dos movimentos internos da Terra e como resultado de a crosta estar assente numa camada viscosa, as placas tectónicas movimentam-se, originando sismos. No caso do sudeste asiático, o sismo foi originado num lugar onde duas placas têm um movimento convergente. Devido a essa convergência, uma das placas "mergulha" debaixo da outra, num movimento denominado subducção. A violência do movimento causou um dos sismos mais fortes alguma vez registados (9 graus de magnitude na escala de Richter de acordo com os serviços geológicos americanos - USGS). Como este sismo ocorreu no mar (maremoto), o movimento das placas tectónicas abanou o fundo do mar e deu origem a uma enorme onda que devastou as terras mais próximas. Embora a onda não tivesse atingido alturas muito grandes, o maior perigo esteve sobretudo na velocidade das águas, que, nalguns locais, ultrapassou os 700Km/h. E tendo em conta que as áreas atingidas tinham muito baixas altitudes, a onda inundou enormes áreas destruindo praias, construções e matando dezenas de milhares de pessoas.
A área afectada pelo sismo de 26 de Dezembro de 2004 encontra-se numa área onde a probabilidade de acontecerem sismos de grande intensidade é muito grande. O anel de fogo, como é denominada a área, é uma área de subducção onde ocorrem frequentemente muitos e violentos sismos.

Comparativamente a Portugal, o anel de fogo tem muito maior probabilidade de sofrer abalos sísmicos. Não quer isto dizer que não possamos estar sujeitos a sismos e a tsunamis. O sismo de 1755, sentido com grande intensidade em Lisboa, mas sentido também por vários países da Europa, é prova disso. Supõe-se que a sua magnitude tenha ultrapassado os 8 graus na escala de Richter e que o seu epicentro tenha sido no oceano Atlântico, a cerca de 200Km a sudoeste do Cabo de São Vicente. Se assim foi, terá ocorrido no encontro entre as placas europeia e africana (esse encontro de placas vem desde os Açores e atravessa todo o mar Mediterrâneo, e é denominado falha Açores-Gibraltar). O sismo de 1755 provocou também um tsunami que inundou não só Lisboa, mas também áreas ao longo do Mar Mediterrâneo. Há registos de mortos pela onda gigante não só em Lisboa, como no sul de Espanha e norte de África.
É importante saber, se ocorrer um sismo, o que devemos fazer (para obter informações completas sobre o que fazer antes, durante e após um sismo, consulte a página da protecção civil em http://www.snbpc.pt). Mas mais importante do que isso, é estarmos cientes de que estamos sujeitos, com muito maior probabilidade, a outro tipo de catástrofes. Até porque algumas podem ser evitadas, ou pelo menos diminuídas as suas consequências. Se não fossem permitidas construções demasiado próximas do litoral (como por exemplo no Algarve) podiam evitar-se perdas devido à rápida erosão do litoral ou até catástrofes como a que ocorreu na Ásia. Não se evita a erosão marinha, nem as ondas gigantes nem os sismos, mas evitam-se as tragédias humanas e a destruição de casas e campos que estão demasiado próximos da costa.
As cheias são outro exemplo de catástrofe que ocorrem frequentemente em Portugal. Estas desenvolvem-se quando um curso de água aumenta repentinamente o seu caudal. Quando tal sucede, o leito inunda, para além das margens, ocupando a área denominada "leito de cheia". Há estudos que identificam os leitos de cheia, ou seja, sabe-se exactamente até que ponto um rio pode encher, inundando as suas margens. Apesar disso, muitas vezes permite-se que se construa nestas áreas, colocando em perigo todas essas construções e a vida de quem lá reside. No caso concreto da grande Lisboa, onde o concelho de Sintra se insere, existem muitos exemplos de mau planeamento. Com o argumento da probabilidade de cheias ser diminuta, aprovam-se projectos (e noutros casos constrói-se clandestinamente, neste caso muitas vezes com falta de conhecimento) em áreas potencialmente perigosas. Mesmo que a probabilidade de ocorrer uma cheia seja ínfima, ninguém gostaria de morar numa casa que pode ser inundada ou até destruída de um momento para o outro. Daí a importância do planeamento, da aprovação de projectos de construção, da delimitação de áreas onde não devia ser possível construir (como os leitos de cheia, ou o litoral).

 

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