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Entrevista com
Paulo Chagas ao jornal Nova Guarda (21/6/06) por João Aristides Duarte
Os Miosótis são uma banda de Rock progressivo, oriunda de Peniche. Com
boas referências da crítica especializada, a banda já editou o álbum “O Monstro
e a Sereia”, no qual um dos convidados foi Manuel Cardoso (dos regressados Tantra).
Paulo Chagas, membro da banda, concedeu-nos esta entrevista.
P: Em que ano se formaram os Miosótis e em que ano foi editado o álbum “O
Monstro e a Sereia”?
Os Miosótis formaram-se algures na 2ª metade dos anos 70. Era uma banda
de adolescentes que escrevia as suas próprias canções, gravava-as em cassetes e
fazia concertos em festas de amigos e bailes de finalistas. Entretanto o grupo
acabou, os diversos membros seguiram as suas vidas por caminhos diferentes até
que ao fim de 25 anos voltou a surgir entre alguns a vontade de voltar a fazer
coisas juntos. Foi assim que apareceu, em 2005, o Monstro.
P: Como tem sido a aceitação do público à música dos Miosótis,
nomeadamente nos concertos ao vivo?
A aceitação foi, sem dúvida, muito melhor do que aquilo que qualquer um
de nós poderia alguma vez imaginar. Desde as críticas ao disco, tanto a nível
nacional como internacional, até à adesão aos concertos. O apoio tem sido
extraordinário, quer por parte dos indefectíveis como ainda ao nível da
captação de novas faixas de público. Ora, tratando-se de uma música que não é
propriamente de consumo fácil nem de formato comercial, e não tendo nós
qualquer máquina promocional nem “padrinhos”, esta reacção acaba por ser um
fenómeno interessantíssimo, mostrando talvez que é tempo de algo diferente ir
começando a aparecer. Algumas rádios locais e universitárias, em programas de
autor, têm igualmente dado um certo destaque à nossa música. Pode ser que as
estações de maior cobertura venham um dia destes a interessar-se…
P: Em que corrente do Rock progressivo, se podemos pôr as coisas nesses
termos, se filia a estética musical da banda?
Bom, eu não acho que os Miosótis sejam exactamente uma banda de rock
progressivo, pelo menos no sentido tradicional do termo. Aliás, como sobre nós
escreveu um crítico do Jornal de Letras, esta música é um bocado
“inclassificável”, no sentido de que não nos enquadramos hermeticamente em
nenhuma corrente estética, mas circulamos um pouco por uma série delas. Nós
sempre preconizamos uma espécie de miscigenação cultural da música e julgo que
nos dias de hoje ainda haverá maior necessidade de se percorrer esse caminho,
até por uma questão social. Através da arte podem-se indicar caminhos à
sociedade e a música para mim apenas faz sentido enquanto factor de intervenção
social. A música tem que fazer as pessoas pensar, não pode ser apenas um
produto de alienação.
P: Nos anos 80 alguns dos membros dos Miosótis formaram os Grupóide, que
chegaram a editar o álbum “Queimaram as Berlengas”. Como correu essa
experiência?
Foi interessante, no sentido em que nos ajudou a crescer como pessoas e
como músicos. No entanto não se pode considerar que tenha sido um sucesso. Como
sabes, nessa altura vivia-se a euforia do rock português e nós, apesar de
cantarmos em português e termos alguma estética identificável com a música
portuguesa, não gravámos propriamente um disco de rock, daquele tipo de rock do
início de 80’s. Era uma música algures entre os restos do prog-sinfónico, do
folk e de alguma pop. Curiosamente, o disco está a ser hoje muito procurado,
nos circuitos do renascido movimento prog em Portugal. Há inclusivamente
pessoas que afirmam adorar o álbum e o conhecem quase melhor do que eu próprio!
P: Quais são, para os Miosótis, os projectos a curto prazo?
Para já temos uma agenda de espectáculos razoavelmente preenchida e ao
mesmo tempo estamos a reformular o conceito do concerto em si, sobretudo
através da inclusão de novos temas e novas abordagens a velhos temas. Por outro
lado, andamos em gravações de imenso material novo que poderá (ou não) vir a
ser incluído no próximo álbum que talvez surja no final deste ano. Temos
sentido igualmente alguma pressão no sentido de gravar e editar um concerto ao
vivo, uma vez que a abordagem ao vivo já tem pouco a ver com as versões
originais do Monstro. Se conseguirmos reunir as condições necessárias,
certamente que o faremos.
P: Achas que o Rock português, incluindo todos os estilos, continua a ser
uma corrente importante na música portuguesa?
Sem dúvida que sim! A música em Portugal evoluiu imenso nos últimos
trinta anos e grande parte dessa evolução ficou a dever-se à profusão de
estilos a que assistimos. O Rock, tendo funcionado como impulsionador de toda
uma corrente cultural, continua a ter um papel decisivo na forma como a música
portuguesa é hoje encarada, embora quando hoje em dia se fale em rock português
já não se saiba exactamente do que se fala. De qualquer forma sou adepto de que
as terminologias e rótulos, quando aplicados à música, para pouco ou nada servem.