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O Monstro e a Sereia

 

 

o monstro

 

nessa noite o monstro levantou-se

e percorreu todos os jardins da cidade

numa volúpia de liberdade

 

mas depois ao despertar da alvorada

foi tomar um café quente

e já não conseguiu voltar a adormecer

 

ficou então por aí

vagueando na neurose do sol esfumado

tristemente excitado

 

meia tarde o monstro afogou-se

no panorama tétrico das ruas

embriagado de mulheres nuas

 

mas depois ao cair sobre as colinas

descascou duas maçãs

e já não conseguiu cantar ao seu amor

 

ficou então por aí...

 

 

rio

 

deserto dos meus últimos passeios

ao fundo cheira a ervas esmagadas

já temos o coração cheio de luz

talvez nos queiram dizer alguma coisa

depressa vamos desfolhar o diário dos nossos sonhos

rever todas as loucuras passadas

como matéria em atraso

um beijo finalmente para sermos transportados

abrimos as portas do céu para fugir

mesmo sem querer somos levados

rio de avalanches de electrões que não param

 

 

haxixe

 

também já encontrei alguns fantasmas

e visitei ilhas do tamanho de uma bola de cristal

e nunca o meu barco se afundou

quando o ódio eram tempestades

entre os dentes das caveiras deles

e muito encolhidinhos ao canto

os meus amigos engoliam ansiosamente

encorajadores bafos de fumo milagroso

e já sorriam sem forças

quando a névoa os visitava

 

 

flutuações

 

passou por nós algum tempo

visitámos florestas bem ao longe

e abrimos as portas de casa

quando apareceram os primeiros fantasmas

 

bebemos da mesma fonte

dormimos sob árvores enormes

e acordámos um dia na lua

destruímos todos os labirintos

e fizemos por nós o caminho

construímos nós mesmos o bote

flutuámos pelo horizonte

 

 

hoplocampas

 

nunca mais vimos as flores

os medonhos sinais povoaram o outono

crescia no ar um sol diferente

e o tempo era mágico agora

nunca mais descemos o caminho

as maçãs enlouqueceram

e foram ficando esquecidas

 

aconteceu o encanto disforme de artifício

foi o pulverizar lento duma estranha orgia

esperávamos tudo isso nas sombras

as maçãs enlouqueceram

e foram ficando esquecidas

 

 

corte no real

 

numa tarde cristalina de verão

os meus olhos turvados pelo sono

entreviram por entre os vapores do forno

da cozinha, a tesoura na tua mão

com as suas lâminas de metal

que serravam os fios vivos da roupa

descaídos como uns cabelos de louca

abrindo um corte, um corte no real

 

as malhas abriram-se e deram lugar

a uma luz crua e sem nome

que me baralha a mente e me come

os sentidos e me pôe a chorar

a minha visão hesita e mal

espreito pela ferida aberta no tecido

percebo um líquido viscoso e húmido

que escorre como sangue de um corte fatal

 

o sangue clareia, vejo um céu

estriado de cores vivas e mortas

que se derramam sobre casas sem portas

mas cobertas de flores cheirando a fel

envolto em coral, um animal

de formas e cheiros impossíveis

fita-me com uns olhos sensíveis

neste meu sonho delírio total

 

o animal treme e a visão arde

sem qualquer tipo de fumo ou chama

como que soprada por quem me ama

és tu, dizes-me: “acorda já é tarde”

ontor pisca seus olhos de coral

sem ainda querer acreditar

que a imagem surgida no ar

pudesse ser mais do que um corte no real

 

 

um papel desenrolado

(suite para orquestra de câmara cibernética)

 

I – nnt 1;  II – barcabela 1; III – interlúdio 1;  IV – orquídea; V – interlúdio 2; VI – nnt 2;

 

VII – barcabela 2

 

hoje a barca vai partir

regressar ao alto mar

não sei quantos sonhos chegarão

quando ela de lá voltar

 

mas a barca vai partir

e as mulheres já estão no cais

não sei se chorarei

não sei se sorrirei

mas a barca vai partir

sem vontade de largar

a saudade está ali

nos rostos cansados e saudosos

do alto mar

 

os homens já são feios

de tanto tempo parados

não sei se chegarão a voltar

cansados, do alto mar

mas a barca vai partir...

 

e os sonhos acabaram

sem vontade de partir

a saudade é diferente

não há tempo para sorrir

mas os rostos cansados

de voltar ao alto mar

no cais há o remorso

de os deixarem no alto mar

 

mas a barca vai partir...

 

VIII - liquén (ao fred lessing)

 

IX - a ceia está pronta

 

a tua face transfigura-se

qual bela adormecida, bruxa ou unicórnio

na floresta do nunca

na ilha dos espectros

sentimos que a paisagem

não é mais do que um papel desenrolado

como um cenário pintado

pelas mãos de uma criança

ou de um velho louco

depois de uma noite de esquecimento

percorremos os caminhos ínvios

dos dias que substituem os sonhos

e concorrem com as melodias subtis

e as harmonias subliminares

que encontras no vento forte que abana a ponte

por onde passas todos os dias

em busca de mais um compasso

ou de mais um simples passo

uma valsa ou quem sabe mesmo

um deserto quente mas húmido

como só nos livros acontece

há poucos filmes que revemos

com o mesmo prazer

com que ouvimos a nossa música favorita

 

X - liquén reprise

 

XI - se fomos descobertos agora

 

se fomos descobertos agora

na certeza de nos amarmos entre as flores

mastigando com raiva um gomo de laranja

no poente das nossas bocas

é preciso gritar

é preciso saber de cor

esta tão antiga sensação

como num acto de cuspir sobre corações

vomitar nos espelhos

deixar arder o tempo que falta

para aprender o teu corpo

é preciso acordar com frescura

 

 

falésia

 

foi a falésia e a maresia

foi o ar quente e o oceano

foi uma história já repetida

o passar de horas até cair

 

foram as nuvens e a areia solta

foram pegadas tão indistintas

foram caminhos sempre ao acaso

os sons antigos da tua voz

 

foi mais um gesto e uma palavra

nesta paisagem de amanhecer

foi mais um sonho de sermos loucos

sentir o outono a cantar

 

 

sereia

 

olhei para o mundo

vi umas folhas cairem

vi umas aves voando

e tu sorrindo

 

olhei depois

para além do mundo

para além de ti

nada vi