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Há uns bons
anos, era eu um adolescente irresponsável como quase todos os outros, quando,
no meio de um grupo de amigos, surgiu a ideia de formar uma banda. O objectivo
nunca se soube muito bem qual era, mas talvez alguma espécie de ambição de
fazer coisas bonitas e dizer coisas interessantes ao mesmo tempo. Assim, surgiu
o hábito de nos juntarmos onde quer que calhava – na praia, na rua, na casa de
alguém – a ouvir discos, ler poesia, cantar, conversar, beber copos e por aí
fora... Entretanto fomos aprendendo a tocar guitarra e outros instrumentos e
pudemos dar corpo a um conjunto de canções que íamos fazendo baseados no
material que habitualmente consumíamos – rock progressivo, jazz, música
clássica e canções de intervenção (estávamos em plena época do pós-revolução).
Esta foi a característica mais marcante do nosso grupo e que nos distinguia dos
outros: não fazíamos covers mas sim compúnhamos o nosso próprio reportório.
Como não abundava o dinheiro para
instrumentos eléctricos, muito menos para amplificadores, o som da banda era
essencialmente acústico (hoje dir-se-ia unplugged J); som esse que me iria apaixonar até hoje. Chamámos Miosótis ao
projecto e tratámos de gravar em cassetes rascas uma série de “álbuns” com esse
material que nos ia saindo da “alma”. Coisas sérias e com sonoridades muito
estranhas que íamos captando estoicamente num gravador ainda pior que as
cassetes no sótão da casa dos meus pais em Atouguia da Baleia.
No início éramos apenas três a gravar –
eu, o Rogério Pereira e o Jorge Pereira – mas aos poucos fomos angariando uma
data de gente para a causa, tendo, numa primeira fase passado pelo grupo o
Paulo Ferreira, o Humberto Perdigão, o Chico Sá, o Fernando Simões, a Célia
Santos, a minha irmã – Salomé -, o Joca, o Tonho João e o Fernandinho “Maior”.
O mais interessante disto é que até conseguíamos que nos ouvissem – dávamos
concertos e tudo!
No meu último ano de escola secundária
conheci o Álvaro Silveira com quem desenvolvi uma amizade e cumplicidade
notáveis que viriam a dar origem à criação de um panfleto literário escolar –
Vestígios – e à produção de novos “álbuns” dos Miosótis. O Álvaro ingressaria
entretanto na banda juntamente com a Mané, a Ana e a Mina, assim como passagens
esporádicas do Tó Ju, do Abel e do Marinho. Este foi permanentemente um espaço
com lugar para as passagens fugazes, já que, refira-se, Miosótis foi sempre
muito mais do que um grupo musical. No fundo tratou-se sempre de um projecto de
cultura alternativa, tendo como pano de fundo a música.
A idade adulta aproximava-se a passos
largos e com ela desvanecia-se o projecto Miosótis que teria ainda uma espécie
de extensão na primeira fase do Grupóide. O álbum “Queimaram as Berlengas”
(editado em vinil pela RCS em 1982) acabaria por incluir uma série de canções
que já tinham sido gravadas no sótão da Atouguia.
Passados
quase vinte e cinco anos, eis-nos a retomar o projecto!
Paulo Chagas
E perguntam vocês, como é que isso
aconteceu? A verdade é que eu e o Paulo já não nos viamos há uns bons 20 anos.
Eis senão quando, algures em 2002, deparo com uma coluna sobre música
alternativa no jornal digital de Peniche assinada por este velho amigo. Mail
para lá, mail para cá, reencontrámo-nos e afinal concluimos que não tinha
passado assim tanto tempo. O reencontro coincidiu com o lançamento da Portugal
Progressivo Associação Cultural e do primeiro Gouveia Art Rock, eventos que
acabaram por dar o mote para começarmos a tocar umas coisas e a gravar outras.
Parece que em Agosto de 2004, passeando pelas praias dos Algarves, uma luz no
horizonte aproximou-se e aí uma voz lhe disse que os Miosótis tinham que gravar
de novo. E assim foi.
Começámos por
uma primeira selecção de “gemas” perdidas de há 25 anos e depois fomos
introduzindo coisas mais recentes e acabámos por compor mais algumas novas.
Assim, O Monstro e a Sereia atravessa um ciclo de tempo de 25 anos.
Álvaro Silveira