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teia de aranha

 

há uma teia de aranha

dentro da minha guitarra

há uma pedra bem escura

dentro do meu coração

há histórias que nunca acabam

nos sonhos morrem deuses

heróis que existem apenas

como fumo que se dissolve no ar

 

há um jantar em família

e um serão enjoativo

há uma explosão de ideias

e eu sou o tubo de ensaio

há histórias que se repetem

 sem surgir algo de novo

palavras são sempre as mesmas

e nunca conseguem dizer nada

 

as pessoas vêm

as pessoas vão

os caminhos cruzam-se

e eu fico aqui

sempre aqui

 

há exorcismos de areia

na praia dos meus sentidos

há terras que se visitam

num pensamento sagrado

há sonhos sempre presentes

que se escondem nas palavras

há pessoas que nunca saem

do seu lugar há muito reservado

 

há um entardecer

fervendo dentro do meu corpo

 

 

 

bicicletas

 

quando estamos fora

é como se não pudéssemos alguma vez

estar dentro

mas quando estamos dentro

é como se nunca tivéssemos estado

senão lá

estranhos pensamentos estes

que nos oferecem as manhãs nostálgicas de Novembro

disfarçando sorrisos

em terraços debruçados

 

…reviver alguns sons,

cheiros,

a luz daqueles dias,

o frio,

o calor,

a praia,

as inseparáveis bicicletas

 

 

 

o que se vê

 

o que acaba realmente quando acabam os sonhos

o que acaba realmente quando acaba a madrugada

 

subsiste na memória

pulveriza o labirinto

de emoções

 

o que plana sobre o limbo da nossa existência

o que plana sobre o limbo do nosso dia a dia

 

rende juros neste banco

nesta conta interior

sentimental

 

por cada noite que passa

habita a música residual

nos projectos que teimamos

em reinventar

 

o que fica para lá de tudo aquilo que se vê

o que fica para lá do que arde e volta a arder

 

subsiste na memória

pulveriza o labirinto

de emoções

 

 

Menino

 

Eu vou adormecer o meu menino

De oiro também de Primavera

Já folha que voa e rodopia

Que sente o pulsar da mão na terra

 

Eu vou adormecer o meu menino

Sem medos nem papões nem fadas más

E se falo do passado é pra lembrar

Que o menino quer dormir e descansar

 

Dorme, dorme sem medo menino

Pra pouco a pouco ires construindo

O sono desta noite que é tua

O sonho nos teu olhos que são lindos

 

 

azul muito claro

 

há um rio escondido

dentro dos teus olhos

há um sorriso aberto

que brilha até doer

há o teu corpo no ar

a dançar ao vento

como um arco íris inventado

na ponta do lápis

cheio de segredos e surpresas

e tu danças

e tu cantas

e o meu rio vai correndo

sem que a gente saiba

onde ele nasce e desagua

e assim é que está bem

há um sonho atrás da porta

para brincar contigo

há uma bola a uma boneca

e nuvens no céu

há uma voz doce a alegre

com sabor a água

e um monte de aventuras

na palma da mão

cheia de segredos e surpresas

 

 

Coral

 

Caminhamos muito além

Encobertos por estranhos vendavais

Descobrindo seres ancestrais

Seres irreais

 

Descrevemos já aqui

As paisagens de estrelas sem ter fim

Junto com poeira espacial

Como vinho fatal

 

Rota sem limites

Na vontade de fugir

A sede dos monstros

Tão antigos como nós

 

Navegamos muito além

Afagando o desejo de viver

Aventura de reinventar

A criação de sonhar