
Biografia do
artesão, Mestre João Neves – autor dos trabalhos

O mestre João Neves nasceu na freguesia de São Sebastião,
Lagos, Portugal, no ano de 1949. É oriundo de uma família ligada ao mar e à
pesca, onde colheu referências e memórias dos seus antepassados. Estudou até ao
3.º ano comercial.
Desde a adolescência que trabalhou a bordo de embarcações de pesca. Teve uma carreira de mar de 37 anos, onde atingiu a categoria profissional de arrais, mestre de redes e mestre de pesca.
Actualmente é artesão, vivendo no campo, na freguesia de Barão de São João, concelho de Lagos.
Desde muito cedo que o mestre João Neves é estudioso das coisas do mar, designadamente, das suas gentes, sua vivência e cultura, assim como das embarcações tradicionais, artes e redes de todo o tipo. Guarda ainda na sua memória as embarcações antigas e a vivência das gentes ribeirinhas.
Os seus modelos de barcos caracterizam-se por ser os mais fiéis possíveis às embarcações que os originam.
A técnica de construção caracteriza-se por utilizar madeira de pinho alemão e aglomerado de cortiça branco maciço. Os modelos são pintados e decorados manualmente pelo autor, as velas das embarcações são talhadas por medida, à escala das embarcações e cosidas à mão. O mesmo se passa com as vergas, mastros, retrancas e demais componentes dos modelos.
As suas peças de artesanato são únicas, tendo sido
apreciadas e valorizadas pela crítica.


Os lugres – patacho foram os mais belos navios da
pesca do bacalhau. O único que chegou à derradeira campanha com barcos de vela
foi o “Gazela Primeiro”, com 45 metros de comprimento e que carregava 6000
quintais de bacalhau salgado. Necessitava de cerca de 40 pescadores para fazer
aquele carregamento. Foi construído em Cacilhas, Portugal, em 1883, de madeira
e com o fundo chapeado a cobre. Foi reconstruído em Setúbal, Portugal, em 1900.
Fez mais de 65 campanhas até ter sido adquirido pelo Museu Marítimo de
Filadélfia, Estados Unidos da América, em 1967.
Modelo
artesanal construído pelo mestre João Neves, com o comprimento de 1,16
metros.

As canoas da picada eram barcos de pesca e de
comércio ligado à pesca. Encontravam-se em Portugal, nos rios Tejo e Sado e na
costa sul, designadamente nos portos de Olhão e Fuzeta, no século XIX e
princípio do século XX.
Eram utilizadas na pesca do alto, mas a sua principal
actividade era a da compra de pescado em pleno mar, aos pescadores, sendo o mesmo
transportado para qualquer porto. As canoas da picada saiam dos portos
carregadas de sal, que servia para a conservação do pescado que compravam no
mar.
Quando a carga era de sardinha, esta era geralmente
copejada ou desenvazada das redes para o convés da canoa, salpicada de sal e
acondicionada no porão. Esta sardinha era conhecida por “picada”, termo que vai
completar o nome da embarcação. O comprimento destes barcos variava entre 15 e
17 metros.
Modelo artesanal construído pelo mestre João Neves,
com o comprimento de 69 centímetros.


O caíque era uma
embarcação originária do Algarve, Portugal. Este tipo de embarcação foi
sucessora da caravela, sendo muito semelhante a esta nas proporções e dimensões
do casco e do aparelho, apenas diferindo daquela por não possuir castelos da
popa e da proa.
Os caíques navegavam longe da costa portuguesa, quer
para pescar, quer para carregar e comerciar.
Entre Janeiro e Abril e de Julho a Novembro pescavam
no alto mar, entre Vila Real de Santo António e o Cabo da Roca. Empregavam
aparelhos de anzóis e linhas de mão para pesca individual. Os aparelhos
utilizados empatavam de cada vez cerca de 20 000 anzóis (estes empatados no
estralho, que por sua vez estava pendurado na madre).
Os caíques tinham aproximadamente as seguintes
dimensões: 19 metros de comprimento, 5,60 metros de boca, 1,60 metros de pontal
e 20 toneladas de arqueação.
Sendo este barco sucessor da caravela, pescou desde o
século XVII até meados do século XX.
Modelo
artesanal construído pelo mestre João Neves, com o comprimento de 62
centímetros.


Muitos
galeões foram construídos no Algarve, Portugal e navegaram no século XIX e até
meados do século XX. Tinham aproximadamente as seguintes dimensões: 17 metros
de comprimento, 5 metros de boca, 1,30 metros de pontal e 14 toneladas de
arqueação. Possuíam convés, no qual eram fixados 7 bancos por bordo, onde se
sentavam 2 remadores por banco. Apesar de no convés se situarem 5 escotilhas
para acesso aos compartimentos interiores, era suficientemente espaçoso para
transportar e manobrar a rede. Eram barcos de linhas finas e alongadas, popa
ogival, leme por fora reforçado por uma cinta – tábua de forro mais grossa que
a restante.
Os galeões utilizavam remos para a manobra de lançar
a rede ao mar. Para a navegação e procura de cardumes utilizava uma vela latina
ou bastarda, com saia e 2 ou 3 ordens de rizos.
A tripulação era constituída por 44 a 50 homens, dos
quais 1 mestre de pesca, 1 mestre de leme, 1 pedreiro (conhecedor dos fundos da
costa), 1 proeiro (homem que assinalava os cardumes) sendo os restantes
tripulantes a campanha de 40 a 46 camaradas, que alavam a rede.
Modelo
artesanal construído pelo mestre João Neves, com o comprimento de 74
centímetros.
Buque (nome JM)

Embarcações utilizadas na primeira metade no século
XIX e até aos anos 20 do século XX, construídos no Algarve, Portugal. Operavam
em toda a costa portuguesa. Tinham características semelhantes às dos galeões,
diferindo apenas nas dimensões e por possuírem proa direita. Armavam remos na
falta de vento. Utilizava uma vela latina com saia. A tripulação era composta
por 1 arrais e 4 camaradas. As dimensões eram de aproximadamente 13 metros de
comprimento, 3,70 metros de boca e 1,20 metro de pontal e com 11 toneladas de
arqueação.
Estas embarcações davam apoio aos galeões a vela e
remos e, posteriormente, aos galeões a vapor, servindo para detectar cardumes e
para o transporte do pescado dos galeões para terra.
Modelo artesanal construído pelo mestre João Neves, com o comprimento de 69 centímetros.
Galeão a Vapor (nome Vivicajo)

Embarcações do princípio do século XX, também construídas
em estaleiros do Algarve, Portugal, vieram substituir os galeões de vela e
remos. Construídos em madeira, de proa direita e popa arredondada ou de leque,
com cabina para o leme e equipado com máquina a vapor. Tinham aproximadamente
as seguintes dimensões: comprimento de 25 a 30 metros, 6 metros de boca, 3
metros de pontal e 60 a 70 toneladas de arqueação. A tripulação variava entre
os 50 e os 60 homens.
O Vivicajo, julga-se, foi o último galeão a vapor em
Portugal, tendo como último porto Peniche, onde esteve até 1963.
Modelo
artesanal construído pelo mestre João Neves, com o comprimento de 68
centímetros.


Os varinos foram consideradas das mais belas embarcações
portuguesas. Eram originárias do Rio Tejo, Portugal, tinham linhas elegantes e
proa muito recurvada. Tendo fundo chato, podiam navegar em águas pouco
profundas, fazendo o transporte de pessoas e mercadorias no Rio Tejo. Estes
barcos tinham um comprimento entre os 16 e 20 metros. Tiveram utilização no
século XIX e até meados do século XX.
Modelo artesanal construído pelo mestre João Neves,
com o comprimento de 82 centímetros.
Barcaça de Lagos (nome Meia Praia)

Esta embarcação, julga-se, construída nos estaleiros
de Lagos, Algarve, Portugal, foi utilizada na primeira metade do século XX para
o transporte das conservas de peixe produzidas nas fábricas de Lagos para
navios de grande porte que regularmente fundeavam na Baía de Lagos. Tinha o comprimento
de aproximadamente 20 metros, sendo de propriedade do industrial de conservas
de Lagos, José de Abreu Pimenta.
Modelo
artesanal construído pelo mestre João Neves, com o comprimento de 60
centímetros.
Calão da Meia Praia (nome São Roque)

Embarcação
da arte de arrastar ou arte chávega utilizada na zona de pesca da Meia Praia,
Lagos, Portugal até meados do século XX.
Utilizava
4 remos por cada bordo e tinha aproximadamente 9 metros de comprimento. Varava
todos os dias na praia e aí se mantinha até ir ao mar para novo lance de pesca.
A tripulação era composta por 8 remadores e 1 mestre na praia. Para puxar a
arte de pesca para terra havia 10 homens por cada banda.
Termos
usados no falar do trabalho: “ála a mão barca”, “ála a mão da panda”.
Modelo
artesanal construído pelo mestre João Neves, com o comprimento de 52
centímetros.
Enviada de popa de buque (nome Mira Rio)


Esta
embarcação veio substituir o antigo buque, tendo sido construída em Lagos. Já
possuía motor diesel de 30 HP e uma pequena vela de carangueja. Esta embarcação
era muito típica na primeira metade do século XX em Lagos, Portugal. Tinha as
dimensões aproximadas de 9 metros de comprimento, 3,50 metros de boca e 2
metros de pontal.
Modelo
artesanal construído pelo mestre João Neves, com o comprimento de 52
centímetros.
Canoa da Sacada (nome Cândida)


Construída
em Lagos, Portugal, no estaleiro do mestre Pedro, fez pesca com arte da sacada,
até à década de 60 do século XX. Utilizava uma vela latina com bastante pano, grande
verga, 2 remos por cada bordo, tendo popa de painel e leme por fora.
A
pesca tradicional com arte da sacada
era efectuada por pescadores de Lagos, entre a Baía de Lagos e Sagres. A
tripulação era composta por 1 mestre, 1 homem do bote de apoio que suportava as
varas da arte e 5 camaradas.
Esta
embarcação tinha o comprimento de cerca de 10 metros.
Modelo
artesanal construído pelo mestre João Neves, com o comprimento de 68
centímetros.
Traineira (meados do século XX) (nome Maruja)


Traineira
construída em Portimão, Portugal e que pertencia à casa Freitas de Lagos.
Esta
embarcação tinha as seguintes dimensões: 22 metros de comprimento, com linhas
muito belas e de cor negra. Fazia pesca de cerco na costa portuguesa,
especializando-se na captura de sardinha, carapau e cavala, cujo principal
destino eram as fábricas de conservas de peixe de Lagos e Portimão. A
tripulação era composta por 1 mestre de pesca, 1 contramestre, 1 encarregado da
aberta, 1 motorista, 1 ajudante de motorista, 2 chateiros ou homens da chata e
12 camaradas para alar a rede. Esta traineira, no princípio da sua actividade
ainda não tinha alador de rede mecânico, pelo que o lance de pesca e a operação
de alar ou içar para bordo as redes era manual.
O
pai do autor deste modelo foi mestre de redes desta traineira, tendo o autor um
conhecimento especial da embarcação. Modelo artesanal construído pelo mestre
João Neves, com o comprimento de 75 centímetros.
Traineira (nome Milita)


Esta
embarcação foi construída no ano de 1963, no estaleiro do mestre Horácio em
Portimão, Portugal. Esta embarcação tinha 21 metros de comprimento. A
tripulação era composta por 1 mestre, 1 contramestre, 1 encarregado da aberta,
1 motorista, 1 ajudante de motorista, 2 chateiros (homens da chata) e 12
camaradas para alar a rede.
Na
época, as redes eram fabricadas de algodão e alcatroadas, por forma a que
fossem mais resistentes, aumentando também o seu peso. Assim a manobra de alar
a rede era muito penosa e para reduzir essa penosidade e ajudar a cadência, os
homens cantavam a cantiga do “leva-leva”.
Foi
nesta embarcação que o autor do modelo entrou como tripulante com a idade de 14
anos, com a especialidade de “remendador”, sendo responsável pela manutenção
das redes, tendo um conhecimento especial da embarcação.
Modelo
artesanal construído pelo mestre João Neves, com o comprimento de 66 centímetros.
Barca da Armação do Atum (nome Barlavento)

Embarcação
originária do Algarve, Portugal, era sobretudo usada nos portos de Faro e
Tavira, operando no século XIX e princípio do século XX. As barcas da armação
variavam entre os 9 e os 12 metros de comprimento, tinham proa direita, popa
ogival, remos e vela latina.
A
função das barcas era o transporte da campanha para a zona de mar onde se
localizava a armação e trazer o atum para o porto. As barcas eram lançadas ao
mar a partir da praia onde existia o arraial da armação, pelo que tinham
pequeno calado por forma a poderem encalhar ou varar na praia.
Modelo
artesanal construído pelo mestre João Neves, com o comprimento de 60 centímetros.
Enviada algarvia com popa de leque (nome Marimar)


Embarcação
construída no barlavento algarvio (Portugal) na década de 30 do século XX e com
fabricos posteriores. As enviadas construíram-se entre a década de 20 e a
década de 70 do século XX. Era uma enviada considerada de grandes dimensões,
com o comprimento de 15 metros e um motor diesel de 150 HP. Era tripulada por 1 arrais, 1 motorista e 1
camarada. Esta embarcação tinha linha abatida e convés, fazendo boa navegação
com mau tempo. Deslocava-se geralmente para norte do Cabo de São Vicente e para
o limite das águas territoriais com Marrocos, onde se fazia a pesca do
biqueirão. Era propriedade da casa Freitas, de Lagos e dava apoio à traineira
Milita na pesca e transporte do pescado.
Modelo
artesanal construído pelo mestre João Neves, com o comprimento de 62
centímetros.
Barca do Alto

Esta
embarcação era originária de Sesimbra, Portugal e operou no Século XIX e até
meados do século XX. Tinha 2 velas de espicha e mastros desmontáveis. Praticava
a pesca do alto mar com aparelhos de anzóis entre o Cabo de São Vicente e o Cabo da Roca. As dimensões
destas embarcações variavam entre os 9 e 11 metros.
Modelo
artesanal construído pelo mestre João Neves, com o comprimento de 66
centímetros.
Muleta do Seixal (antiga)


Embarcação
com cerca de 12 metros de comprimento, 4 metros de boca e 1,50 metros de
pontal, tinha uma arqueação entre 11 e 12 toneladas. Operavam nos séculos XVIII
e XIX entre o Cabo Espichel e o Cabo da Roca. De construção sólida, tinham
convés, proa arredondada, popa ogival, fundo achatado e pequeno calado para
facilitar a operação de pesca de arrasto à deriva.
Utilizava
uma vela latina ou bastarda de grande porte para navegação, e chegando ao mar
da pesca armava mais 6 ou 7 velas para que pudesse deslocar o arrasto à deriva.
Modelo
artesanal construído pelo mestre João Neves, com o comprimento de 82 centímetros.
Fragata


Barcos
construídos no século XIX e primeira metade do século XX, existindo unicamente
no Rio Tejo, Portugal.
Construída
para navegar em águas pouco profundas, deslocavam entre 10 e 100 toneladas, com
dimensões variáveis, sendo normal o comprimento de 22 metros, boca de 6,5
metros e calado 2,20 metros. Tinha como tripulação 1 arrais, 2 camaradas e 1
moço. Transportava pessoas e mercadorias no Rio Tejo.
Modelo
artesanal construído pelo mestre João Neves em 2003, com o comprimento de 68 centímetros.
Réplica da Caravela Latina (nome Boa Esperança)



Réplica
moderna da caravela latina utilizada pelos descobridores portugueses do século
XV. É actualmente um navio de treino de mar e de divulgação histórica e
cultural.
A “Boa Esperança” é uma réplica tão fiel quanto
possível de uma caravela dos Descobrimentos, construída por profissionais de
construção naval em madeira, de acordo com o que se conhece das regras da
construção naval daquele tempo, mas obedecendo aos requisitos modernos de
segurança e conforto.
A caravela “Boa Esperança” ostenta nas suas velas latinas a Cruz de Cristo, em memória da Ordem de Cristo, da qual o Infante D. Henrique foi Regedor e Governador, e que teve a sua primeira sede na vila algarvia de Castro Marim. No mastro principal, a “Boa Esperança” levará sempre as armas do Infante de Sagres.
Esta
réplica, tem o comprimento de 23,28 metros e boca de 6,59 metros, tendo sido
lançada ao mar em 28 de Abril de 1990.
Modelo
artesanal construído pelo mestre João Neves, com o comprimento de 65 centímetros.
