Querido
Amigo:
Um estudante escreve as seguintes palavras: “Gostaria muito de saber se
compreendo. A Bíblia assusta-me. Não posso resolver este assunto, e de pensar
nele estou a ficar quase louco. Pode dizer-me se basta aos olhos de Deus, nunca
pensar nas coisas da Bíblia e viver para os outros o mais possível? Muitas
vezes pergunto a mim próprio, “Como deve viver uma pessoa?” muitas vezes
proponho-me fazer o bem, mas sai mal.”
Evidentemente desgostam a este homem algumas das histórias que lê no
Antigo Testamento, as quais, tomadas literalmente são verdadeiramente imorais.
A que escreve pode simpatizar com este estudante, porque quando tinha catorze
anos a sua mãe insistiu para que lesse a Bíblia. Prometeram-lhe um vestido
novo de seda se lesse a Bíblia da primeira à última página. Uma irmã sua
também recebeu esta oferta. Lemos até à parte em que Lot vivia numa gruta com
as suas filhas, que se encontra no capítulo dezanove do Génesis, e assim pode
entender que não lemos muito. E quanto aos vestidos, nunca os recebemos, para
mortificação da nossa modéstia e não lemos mais. O Novo Testamento dará ânimo
ao neófito, mas a não ser que se compreendam as lições ocultas fundamentais
no Antigo Testamento, seria melhor não o ler.
Os quatro Evangelhos instruem muito e é bom lê-los frequentemente. Os
escritos de Paulo também dão ao homem as lições que necessita, e pensar nas
lutas dos cristãos daqueles dias primitivos muitas vezes nos dá o ânimo para
seguir adiante quando o nosso próprio caminho se encontra pedregoso e
escabroso. Mas se se viver uma verdadeira vida cristã, não há que
preocupar-se. Deus existe não só na Bíblia, mas em cada flor, no mesmo ar que
respiramos, e se nos tornarmos canais puros pelos quais possam correr as grandes
forças de Deus, se vivemos e servimos desinteressadamente, então somos salvos.
Há milhões de almas no mundo que nunca conheceram a Bíblia, mas são filhos
do Grande Pai, chispas do Divino, e por isso, estão a caminho da salvação por
outra via, porque todos os caminhos que são limpos e puros conduzem a Deus.
Pergunta
este homem, “Como deve viver uma pessoa?” A vida para viver é sua; é o seu
próprio caminho, só o próprio o pode percorrer. Por isso aconselhamos-lhe que
se sente frequentemente no silêncio em comunhão com o Deus interior que o
guiará e assim não errará no caminho.
No
capítulo sete de Romanos, Paulo admite que o seu ser inferior está sempre a
combater com o seu Eu superior. “Sei que o bem não mora em mim (na minha
carne). O querer o bem está em mim, mas não sou capaz de fazê-lo. Não faço
o bem que quero, mas o mal que não quero.” Aqui podemos ver que cada alma
trava esta batalha, cada um luta para se elevar sobre o ser material. Este esforço
é a obra do princípio Divino, que é de Deus. Se não fosse por esta luta o
homem seria um autómato e apenas existiria. Quanto mais dura for a luta, mais
depressa cresceremos. Quanto mais avançamos no caminho e mais nos elevamos,
mais severas são as lições que recebemos.
O
caminho da espiritualidade assemelha-se em vários aspectos ao caminho de instrução
de um estudante universitário; quanto mais adiantado nos seus estudos, mais difíceis
são as lições. Note-se que se avançou desde o jardim de infância até à
universidade pelo esforço de aprender as lições. É assim na escola da vida.
Nós, cada um, temos que aprender as nossas lições, e dia a dia enfrentamo-las
nos nossos problemas materiais. Há sempre uma luta entre o material e o
espiritual e as nossas vitórias tornam a vida interessante que vale a pena
viver. Mantenhamos pois, um ideal elevado, trabalhando para o alcançar, e
teremos ânimo para fazermos cada vez melhor, porque este é o caminho que
conduz à grandeza, ao êxito, tanto material como espiritual. “Sempre para
diante e para cima.”
Seus,
em serviço da humanidade, Outubro de 1937
The
Rosicrucian Fellowship,
Mrs.
Max Heindel
(cartas aos estudantes)