
Santo António - O Nosso Patrono
Responso a S.to António
Nascimento e Juventude
Lisboa foi seu berço e Coimbra a sua escola de estudos superiores. Santo António ocupa
um lugar privilegiado no coração e na devoção de todos os portugueses.
Nasceu em Lisboa, de família nobre, à volta de 1195. Há, portanto, oitocentos anos.
Recebeu sua primeira formação na escola da catedral da Sé. Aos quinze anos entra no Mosteiro de
S. Vicente de Fora dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, donde partiu depois para
o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra a fim de frequentar os estudos superiores. Uma das
razões para escolher Coimbra foi a procura de paz e serenidade: "para uma maior entrega a Deus e
ao estudo", pois em Lisboa, parentes e amigos provocavam grande dissipação com as
frequentes visitas.
Com bons professores fazia grandes progressos na ciência e na santidade,
nas ciências humanas e nas ciências eclesiásticas, aquele que iria ser declarado Doutor
da Igreja e Mestre da Fé, pelo Papa Pio XII, em 1946.
O ideal franciscano
A vocação franciscana de Santo António despertou e efectivou-se em Coimbra. Foi aí
que teve o primeiro contacto com os primeiros frades enviados por Francisco de Assis. Foi
em 1217 que alguns franciscanos se instalaram no eremitério de Santo Antão dos Olivais.
Estes irmãos viviam da mendicância, entregavam-se à oração e pregavam o Evangelho mais
pelo testemunho de vida pobre e alegre do que com grandes sermões. Fernando de Bulhões -
este era o seu nome de Baptismo - deixou-se cativar e atrair irresistivelmente pela
singeleza, incontida alegria, simpatia, pobreza e vida tão alegre quanto apostólica, pelo anúncio
do Evangelho, sem medo do próprio martírio. Mais tarde ficou impressionado com o
testemunho de fé e de coragem dos cinco proto-mártires de Marrocos, cujas relíquias terá
acolhido respeitosamente no seu Mosteiro de Cónegos Regrantes. Assim tomou a decisão de
se transferir de uma Ordem rica - o Mosteiro de Santa Cruz, para uma Ordem pobre, trocou o
centro cultural de Santa Cruz pelo humilde ermitério dos Olivais. Em sinal de conversão deixou
de chamar-se Fernando para ser o irmão António.
O Ideal Missionário
Fazendo-se franciscano, António pensava em viver à maneira da vida apostólica de
S. Francisco, e na ideia de ir para o meio dos muçulmanos, para Marrocos, disposto a ser
mártir pela fé. No entanto, por desígnios de Deus, foi entre os povos cristãos da Europa, sobretudo
no Norte da Itália e no Sul da França que veio a exercer sua actividade apostólica, a ensinar o
muito que aprendeu e recebeu em Coimbra.
Em todas as regiões da Europa, ao tempo de Santo António estava em gestão uma
nova Europa, política e culturalmente. Surgia um mundo de contrastes, de novas pobrezas e
novas riquezas, de novas servidões e novas liberdades. Santo António referencia
frequentemente essa situação nos seus Sermões falando da usura, da avareza, da prepotência, da
liberdade de costumes.
Santo António fala nas feridas da época, manifestando um amor profundo à Igreja e
ao Evangelho, semeando a esperança, lutando contra as heresias, e acredita que é dentro
da própria Igreja que ele ama com ternura e paixão, que se há-de operar a renovação e a
mudança. Vê a Igreja como "Povo de Deus", como "Casa do Pão", como "Cidade de Deus». Há na
sua pregação inconformismo, mas também compreensão e um veemente apelo à conversão,
como regresso à vivência pessoal com Cristo.
O Santo propõe um Evangelho redescoberto nas suas linhas mestras de liberdade,
fidelidade, pobreza, fraternidade, justiça, respeito pela pessoa e serviço aos irmãos.
Santo António é designado Doutor Evangélico. Isto exprime não só a tonalidade bíblica
da sua pregação, mas também a opção evangelizadora da sua vida. A obra escrita confirma a
sua formação bíblica e muitos testemunhos históricos referem a eficácia da sua acção e da
sua palavra junto da sociedade do seu tempo, pela sensibilidade aos anseios dela, pelo
acertado diagnóstico das suas carências, pela adequação da sua linguagem e pelo testemunho do
seu próprio modo de viver" assim o diz a Conferência Episcopal Portuguesa em Nota Pastoral.
A Igreja, que hoje procura novas formas de evangelizar tem em Santo António um modelo
de consciência da sua missão e preciosas indicações para a levar a efeito. Foi um
homem "entusiasmado pela missão evangelizadora", "apaixonado pela Missão da Igreja".
Tinha consciência de que o anúncio do Evangelho a todos os homens é parte essencial da missão
da Igreja e de cada um dos seus membros. Era seu forte anseio levar a Palavra viva de Deus a
todos: sua acção apostólica por onde passou e o seu incansável serviço pastoral demonstram
sua paixão incontida pela evangelização.
A época das Descobertas, imprimiu esta mística de evangelizar, na empresa
marítima. António auscultou, sentiu e foi ao encontro dos apelos que o próprio mundo dirigia à Igreja
nesse tempo. Para ele a ciência das coisas de Deus e a ciência da linguagem e cultura adaptada
aos tempos de então, eram coisas imprescindíveis ao missonário.
O mestre da fé e da ciência
"Homem de fé e de ciência", chamou a Santo António, D. João Alves, na homilia do início
das Comemorações do 8.° centenário do seu nascimento.
Notória, bem cedo, a sua paixão pela ciência e pela cultura. Seu vasto e seguro saber
lhe abriu as portas de várias e notáveis Universidades da época, quer na França, quer na
Itália: Bolonha, Montpellier, Toulouse, Bourges, Limoges, Arles. Saber que o tornou
"incansável martelo dos herejes", saber aliado à santidade, produto de esforço pessoal e da força da
graça, "homem enamorado da santidade", "homem de fé e de ciência".
A obra escrita dos seus Sermões, dominicais e festivos, harmonizando uma intensa
cultura e um insuperável zelo apostólico, acolhe a grande tradição humanista e cristã e espelha
os anseios de um mundo novo, bem se devendo considerar Santo António uma das
figuras pioneiras da nova época. Versado nos valores da cultura ocidental foi verdadeiramente
uma alma nova, integrandoos no horizonte da Sagrada Escritura, o que lhe valeu ser chamado
"Arca do Testamento" e "Armário das Sagradas Escrituras", por Gregório IX.
O religioso e santo, célebre pelas suas virtudes e conhecimentos literários, poderoso
em obras e palavras, habitou finalmente com os seus irmãos em Pádua, mas habitava no céu. E
foi o zelo devorador pelo anúncio da Palavra de Deus que veio a consumir seu corpo.
Cantando a Maria, e esboçando um sorriso beatífico para os presentes, a sua alma
desligou-se dos
laços da carne. E as crianças de Pádua percorreram as ruas gritando: "Morreu o santo! Morreu
Santo António!"
Santo de todo o mundo
Santo António de Lisboa ou de Pádua é santo de todo o mundo. Conhecido e
invocado sobretudo pelo povo humilde, os fracos e os oprimidos. A sua vocação franciscana fez dele
o mais santo dos portugueses e o mais português dos santos. Foi sem dúvida o mais
universal e é o mais universalmente conhecido dos Portugueses.
Como dizia o P. António Vieira: "se para nascer lhe bastou Lisboa, para viver lhe faltou
mundo, porque se não levou a sua doutrina a mais partes do mundo, foi porque ainda as não
tinham descoberto os Portugueses".
Conquistou através dos séculos o coração de todos, pequenos e grandes, sábios
e ignorantes, pobres e ricos, entre gentes e povos muito diferentes, tornando-se presente
em qualquer lugar.
Santo para a missão
Providencialmente a mudança vocacional na vida de Santo António havia de se repercutir
na história de Portugal, não só no processo de evangelização do nosso povo pelos filhos de
S. Francisco, como também na marca que imprimiu no nosso encontro com outras culturas e
na sua acção missionária pelo mundo, um sonho de António que Deus não permitiu ele
concretizasse em África.
Seja Santo António estímulo e modelo, e apelo para todos, apelo ao estudo, apelo à
missão como paixão devoradora, apelo ao serviço dos irmãos, sobretudo dos que mais precisam.
Reinventemos o santo (ele que é o nosso padroeiro) na sua vida e obra e no zelo
apostólico. Sintamo-nos, como ele, irmão dos homens de todo o mundo. Descubramos o santo na
sua verdadeira estatura como homem de Deus, como homem de ciência e de cultura e
como verdadeiro evangelizador dos homens e cultura do seu tempo.
E termino com as palavras de Pio XII, quando em 1946 o proclamou Doutor da
Igreja: "Alegra-te, feliz Lusitânia; salta de júbilo, Pádua ditosa, pois gerastes para o céu e para a
terra um varão que bem pode comparar-se com um astro rutilante, já que brilhando, não só
pela santidade da vida e gloriosa fama de milagres, mas também pelo esplendor que por todas
as partes emana e derrama a sua celestial doutrina, alumiou e ainda continua alumiando o
mundo inteiro com uma luz fulgidíssima".
Armando Soares in Boa Nova nº 811, Junho de 1995 (com pequenas adaptações) |