lua de seda

olhou e disse:

- escreve uma canção.

todas as frases são tristes.

escrevo mal.

desisto.

acumulo tanto papel

no caixote de lamúrias

saudades daquilo que nunca leste

suores, agruras, desventuras.

paisagens desfeitas,

dias riscados,

sonhos de neblina

que dizem:

- não, nunca a lerás.

 

e se não te esgotasses

num abraço, num beijo, numa noite?

será que sonhas comigo?

como sonho contigo?

será que só me queres foder

como fodias com ele?

o que posso fazer por ti?

o que farás de mim?

 

olhou e disse:

- é uma mentira.

todas as verdades são falsas.

minto mal.

insisto.

acumulo-as sem palavras

no livro dos dias

saudades daquilo que nunca sentiste

amores, orgasmos, pureza.

paixões imersas,

rostos escassos,

corpos que brilham

que dizem:

- não, nunca o saberás.

(não! nunca o saberás!)

 

e se não te esgotasses

num abraço, num beijo, numa noite?

será que sonhas comigo?

como sonho contigo?

será que só me queres foder

como fodias com ele?

o que posso fazer por ti?

o que farás de mim?

 

 

 

. andré santos, rui malheiro

 

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