morte súbita

o filme acabou

as tuas lágrimas despem

quatro semanas de outubro

dispersas nas memórias ácidas do verão

aprisionados ao corrupio torpe do vento

 

o amor enferrujou

os teus seios percorrem

quatro noites entre lençóis

arquivadas numa nesga ardente de manhã

esvaídas nas imagens difusas da tempestade

 

e eu vi o escuro

e chamei por ti

sorriste e disseste

que me vinhas buscar

e eu vi o escuro

e chamei por ti

beijaste-me e murmuraste:

sou a tua morte...

sou a tua morte...

sou a tua morte!...

 

o mundo empalideceu

os teus beijos enforcam

quatro canções de natal

angustiadas no esquivar lento do abismo

assassinado nas esquinas corrompidas da urbe

 

o silêncio apunhalou

os teus desejos sucumbiram

quatro cicatrizes depois

afogadas pelo esquartejante medo de ser

atormentados pela angústia fúnebre do não ser

 

e eu vi o escuro

e chamei por ti

sorriste e disseste

que me vinhas buscar

e eu vi o escuro

e chamei por ti

beijaste-me e murmuraste:

sou a tua morte...

sou a tua morte...

sou a tua morte!...

 

(e vim-te buscar)

 

 

. rui malheiro

<    >