numa outra estação

o mar arrasta os corpos

corpos que sofrem

meu amor.

 

é tanta a crueldade

é tanta a maldade

os olhos fechados em agonia

os passos quebrados

a melancolia

 

vivemos num mundo cão

que nos morde

meu amor

 

alimentamo-nos de cinza

e dos restos do almoço

do outro domingo

distante domingo

domingo errante

errante, distante

 

os meus olhos no teu sorriso

o teu sorriso no meu umbigo

e tantos sonhos escritos

tantos sonhos cantados

desenhados no nosso destino

hoje desfeito em pó

como os nossos nomes

num outro comboio

numa outra estação.

 

chegamos um dia depois

mas chegamos

meu amor

 

havia tanto para contar

tanto por desvendar

os dedos golpeados na escuridão

os lábios feridos

as fendas

 

sofremos por dias assim

as cicatrizes

meu amor

 

respiravamos o nosso arfar

e pequenos pedaços de almofadas

a sonhar (a sonhar)

 

distante sonhar

sonhar errante

errante, distante

 

os meus dedos nos teus seios

os teus seios nos meus cabelos

e tantos sonhos falados

tantos sonhos suspirados

rabiscados no nosso destino

hoje desfeito em pó

como os nossos corações

no mesmo comboio

numa outra estação

 

(numa outra estação, meu amor)

 

(meu amor)

 

 

. rui malheiro

<    >