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se não tivesse medo de te perder e de deixar de dançar contigo a valsa lenta dos corpos embriagados pela poção mágica à qual se convencionou chamar amor, eu pensaria seriamente em fazer comigo, aquilo que sonho para o meu momento final, em que o fogo já não me aquecerá, pois, nessa altura, terei colocado o último ponto no términos da última frase do livro da minha vida.
será um ponto de interrogação, o qual será lembrado por ti e pelos outros, em todo e cada anoitecer, quando os lobos uivarem a saudade, que os risos, os orgasmos e as horas tentarão apagar, enquanto que eu, na profundeza do poço escuro, cantarei o fado da vida, da alma, da raiva e da mágoa que jamais deixarão de estar dentro de mim.
o sol põe-se de costas,
o sol põe-se de costas,
o sol põe-se de costas.
os instintos humanos escondidos sob a carne lenta do tempo
as palavras que perecem sob a forma de dúvidas
os sons que se desvendam na melancolia sóbria do amor
os gestos cálidos na poesia sôfrega dos fins de tarde de outono
os lábios que se tocam em harmonia frágil de segundos reduzidos a sonhos
sorrisos líquidos que caminham como gotas de suor na banheira
isqueiros que se acendem como lágrimas de mel que escorregam pelas faces angustiadas
livros que se lêm enquanto portas se fecham em silêncios oblíquos
o sol põe-se de costas,
o sol põe-se de costas,
o sol põe-se de costas.
os insectos sujos pressentem os olhares perdidos que fingem o sono
as flores murchas invadem a ausência incerta do fulgor do meio dia
há um precípicio sufocante que aproxima a morte do rosto dissolvido em máscara
as imagens repetidas alicerçam a dor esquecida de todas as ruas vazias da urbe
eram três ...
as mulheres que pintavam os lábios e sangravam por um país desabitado
e ..
eramos nós
que procuravamos a cor na embriaguez desesperada do planeta fado.
o sol põe-se de costas,
o sol põe-se de costas,
o sol põe-se de costas.
o sol põe-se de costas,
o sol põe-se de costas,
o sol põe-se de costas (no planeta fado).
. rui malheiro
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