|
atravessei
as arcadas
de
olhos vendados
e
adormeci.
sobre
as calçadas brancas
ouviam-se
pássaros lentos.
a
avó aproximava-se
sorrateiramente
da
minha silhueta.
beijou-me
as pálpebras
com
os seus lábios
enrugados
avó
(uma voz)
avó
(uma voz)
eu
vou (à avó)
eu
vou (uma voz)
à
avó (avó)
ela
tocava-me com os pés
embalando
o meu coração.
sobre
o conforto
da
erva seca
tive
sonhos
que
se esvaeceram.
avó
(uma voz)
avó
(uma voz)
eu
vou (à avó)
eu
vou (uma voz)
à
avó (avó)
avó
tira-me
os chatos das mãos.
lava
as tuas rugas
no
sangue
dos
meus irmãos.
e
queima as barbas
dos
heróis do paquistão.
fica
comigo no meu quarto.
avô
casa-te
com uma sereia
do
cais.
leva-me
para longe
e
dá-me um nó.
vou
estoirar de medo
ao
ficar só.
fica
comigo no meu quarto.
as
estrelas desleixadas
iluminam
o
sumo das maçãs.
crianças
amuadas
beijam
o
sexo das rãs.
senti
algo a cheirar-me os ouvidos
tão
carinhosamente.
era
um gambuzino que trazia
um
rato na boca.
o
meu corpo afundava-se
lentamente
na areia
e
os percevejos devoravam-me
alegremente.
avó
(uma voz)
avó
(uma voz)
eu
vou (à avó)
eu
vou (uma voz)
à
avó (avó)
. iuri algarvio, rui malheiro
<
>
 |