último suspiro

mergulho na sofreguidão da noite

luzes supridas, choro convulso

objectos cortantes à procura de um pulso

sonhos desfeitos, o pesadelo que me acoite

 

o frio rasga o homem solitário

que se esconde debaixo da cama vazia

o silêncio é a sua desesperante melodia

páginas sangrentas e lacrimosas constituem o seu diário

 

sem memória, sem esperança

não existo onde me procuras

eu estou aqui

e este é o meu último suspiro

 

não há remédio para sarar a invisível ferida

nem as memórias de quem agora é inacessível

dos tempos em que o paraíso era crível

e em que o sabor dos teus beijos rimava com vida

 

amarga e angustiante saudade

que me conduz à solitária depressão

lento e doloroso final de canção

por entre gritos mudos e sinceridade

 

sem memória, sem esperança

não existo onde me procuras

eu estou aqui

e este é o meu último suspiro

 

parto rumo à última estação

fica apenas um frasco vazio

e pequenas manchas no tapete luzídio

e um corpo...

um corpo a dançar no chão.

 

sem memória, sem esperança

não existo onde me procuras

eu estou aqui

e este é o meu último suspiro.

 

 

 

. rui malheiro

 

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