Para todos os cervanenses e seus descendentes espalhados pelo mundo

Arqueologia                      

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Este trabalho foi extraído da revista "Anim'arte", edição de Abril, Maio e Junho de 2003

Introdução 

A Arqueologia estuda o passado, passado do Homem, sua vida quotidiana, objectos que fez e utilizou, as suas habitações as técnicas que usou, os materiais que empregou, como se defendia com que armas, seus mitos, religião, crenças, tudo enfim com que se serviu que estava ao seu alcance e que nos deixou como prova da sua existência e para que agora possamos perceber corno eram, como se moviam em sociedade, que sociedade etc.

A arqueologia é uma ciência que contribui assim para o conhecimen­to da história da nossa espécie, da espécie humana. Não são só os objectos encontrados, os artefactos, é tudo o que está relacionado com a vivência do homem social, do homem em sociedade.

Move-me o grande interesse em descobrir algo mais nesta parte da Terra em que habitaram antepassados da família, em ver onde estão as suas origens, decidi por isso realizar este trabalho que me levará a entender o porque de existirem marcas em penedos, sepulturas escavadas na rocha, etc..

Sei que no final muito ficará por dizer e por ver, mas o melhor é poder subir montes e descer, atravessar pinheirais para poder observar o que durante alguns anos não foi mais que simplesmente urnas pedras e agora se mostra corno um retrato vivo de "gentes" que outrora aqui viveram.

que escrevo neste trabalho tem parte de observação directa, pesquisa local, bem corno pesquisa bibliográfica, sem a qual seria muito difícil percorrer e encontrar tais locais por vezes em montes e campos cobertos de vegetação e de difíceis acessos.

É pois  com alguma dificuldade que vamos para o campo desconhecido, mais ainda porque aliado a isto ternos a escassez de documentação escrita e publicada.

É contudo neste lema de conhecer a nossa espécie  e de contribuir para a evolução do conhecimento da história que este estudo é feito. Registo e saliento a enorme alegria que tive em encontrar urna sepultura escavada na rocha na Freguesia de Póvoa de Cervães, a qual desconhecida e nunca mencionada em documentação sobre estas terras.

Pretendo mesmo contribuir para o enriquecimento cultural destas regiões e para "aguçar" o apetite para a arqueologia e seu interesse quer histórico, quer de estudo.

Fica ainda a nota de que a escolha destas duas freguesias para objecto deste estudo prende-se com laços familiares que me ligam a estes locais do Concelho de Mangualde.

 

Localização geográfica

 

O distrito de Viseu é parte integrante da Beira Alta constituído por vinte e quatro concelhos dos quais destaco para este trabalho o Concelho de Mangualde.

Concelho de Mangualde:

O Concelho de Mangualde tem uma área aproximada de 223 quilómetros quadrados e é uma região de média altitude. Tem como limites a Serra da Estrela a Sul, a Sudoeste ficam as encostas do Buçaco e a Poente as primeiras elevações do Caramulo. A Norte as Serras de Montemuro e Gralheira e a oriente as Terras da Guarda. Os Concelhos limite são, Penalva do castelo, Viseu, Fornos de Algodres, Gouveia, Seia e Nelas.

Este Concelho de Mangualde chamou-se até finais do século XVIII Azurara da Beira.

Tem dezoito freguesias, 21808 habitantes (em 1991) as freguesias neste momento são: Abrunhosa-a-Velha, Alcafache, Chás de Tavares, Cunha Alta, Cunha Baixa, Espinho, Fornos de Maceira Dão, Freixiosa, Lobelhe do Mato, Mangualde, Mesquitela, Moimenta de Maceira Dão, Póvoa de Cervães, Quintela de Azurara, Santiago de Cassurães, São João da Fresta, Travanca de Tavares e Várzea de Tavares.

O Concelho de Mangualde foi povoado desde há muito tempo. O homem marcou bem a sua presença nesta região. Desde Castros, Antas, Padrões até aos Romanos, há indícios da vida humana nestas zonas.

Os romanos também povoaram muito este Concelho, do qual assinalamos a Citânia da Raposeira, vilas, vias romanas, marcos miliários, aras, aras votivas etc..

Teve este Concelho Castelo Medieval, conquistado em 1058 aos Mouros por Fernando Magno, rei de Leão.

O seu foral foi-lhe concedido em 1102 por D. Henrique e D. Teresa. Teve depois desenvolvimento com vários reis até ser cidade em 3 de Julho 1986.

Das Freguesias referidas temos Póvoa de Cervães e Abrunhosa-a-Velha que são contíguas e terminam na margem direita do rio Mondego, o qual separa o distrito da guarda do distrito de Viseu. Estas duas Freguesias são separadas entre si pela Ribeira da Senhora dos Verdes.

 

Freguesia de Póvoa de Cervães

É Freguesia constituída por um único lugar com o mesmo nome. E uma aldeia que dista 10 Km da sede do Concelho - Mangualde, e que faz fronteira com o Rio Mondego (margem direita) a Sul, com a Freguesia de Abrunhosa-a-Velha a Este, com a Freguesia de Contenças a Oeste.

É uma freguesia muito pequena, orago é S. João Baptista. Foi curato da apresentação do Abade de Cassurães, no extinto concelho de Azurara da Beira.

É tradição que a primitiva capela de Nossa Senhora das Cervas, esteve no vale de Cervães, onde teria aparecido a imagem da Nossa Senhora. Do primitivo Templo do século XV já nada existe, só a imagem da Senhora.

De documentos antigos do tempo de D. João III conclui-se que a Póvoa de Cervães já foi muito populosa. Hoje pouco mais tem que 200 habitantes. Esta Freguesia tem vindo a perder população com a emigração.

Notório é o abandono de actividades agrícolas (actividade essencial).

A população existente (muito pouca) está envelhecida, o que dificulta a dinamização económica e cultural.

O "Património Cultural" é constituído por todos os bens materiais e imateriais, que pelo seu reconhecido valor próprio, devem ser considerados como de interesse relevante para a permanência e identidade da Cultura Portuguesa através do tempo (artigol0 da Lei n0 1%I%5 de 06 de Julho de 1985 Património Cultural Português).

 

 

Póvoa de Cervães tem valores históricos e tradicionais que importa salientar.

É pois nos valores históricos e arqueológicos que me vou mais em pormenor debruçar.

 

Vestígios Arqueológicos de Póvoa de Cervães

I- "Castelo Mendo"

II- «Santa Marinha»

III - «Sepulturas escavadas na rocha do Cumareiro»

IV - Para além destes achados arqueológicos já referenciados constatei a existência de mais uma sepultura escavada na rocha no lugar da Santa Marinha .Esta descoberta aconteceu fruto de conversa havida com o pastor Sr. Mário Azevedo e que documento com fotografia neste trabalho.

I- Castelo Mendo

Localização:

Lugar de Castelo Mendo, que fica a cerca de 1100 m da povoação de Póvoa de Cervães, com altitude de cerca de 650m. Tem latitude sensivelmente de 41 graus norte, longitude de 3 graus este. Pela estrada nacional n0 201 em direcção a Gouveia, a cerca de 200m da povoação de Póvoa de Cervães, ao lado direito, encontra-se um caminho de terra batida (Norte/Noroeste), após cerca de 500m encontra-se a linha do caminho de ferro a qual se atravessa continuando para Norte. Seguidamente encontra-se um cruzamento de caminhos florestais, toma-se a esquerda, o ponto mais alto do morro é cerca de 300m depois (NE).

Descrição desta estação :

São dois montes que se distinguem bem pela sua elevação e pelo granito ai existente. Ficam na Serra da Poisada e o local denomina-se de "Castelo Mendo", um dos montes e de <Alagoas" o outro. Desde logo o nome de castelo nos indica que houve algo ali de

fortificação. Estas duas elevações distam entre si cerca de 250 metros. Entre eles se nota ainda que ali existiram terras de cultivo pelos muros de divisão e pelas pequenas parcelas divididas entre si.

 

Distinguem-se á volta de cada monte, á superfície do terreno, respectivamente "Castelo Mendo e "Alagoas" pequenos montes de pedras mais pequenas que indicam muros existentes em redor, nalguns sítios ainda bem visíveis. Não encontrei mais nada de registo, nem vestígios de cerâmica nem de outros.

II - Santa Marinha

Designação: Santa Marinha

Localização:

Lugar: Santa Marinha assim denominado, dista cerca de 500 metros/SE da povoação de Póvoa de Cervães. Vai-se pelo caminho municipal público n0 201 em Direcção a Gouveia. Entrando na Povoação de Póvoa de Cervães localiza-se a Igreja Paroquial e o cemitério. Para deslocação em direcção à Santa Marinha passa-se entre a Igreja Paroquial e o cemitério e procura-se o chamado "caminho velho" que segue em direcção ao Rio Mondego, este caminho é talvez parte de um antigo caminho romano que seguia em direcção ao rio e que o atravessaria no sítio denominado de "Quinta dos Moinhos" onde existiam umas poldras, as quais hoje já não se conseguem identificar devido ás enumeras cheias que as arrastaram.

Neste local denominado de Santa Marinha encontram-se vestígios de ocupação romana, um possível habitat romano que se pode comprovar com a existência de fragmentos de cerâmica, quer de utensílios domésticos quer mesmo das construções.

A este local está anda ligada a lenda que diz que teria sido aqui que originalmente apareceu a Senhora de Cervães e que foi posteriormente levada para Santiago de Cassurães, voltaria para ali sem qualquer conhecimento e foi novamente levada para Santiago, onde hoje se encontra.

Diz ainda a tradição popular ter existido neste local uma capela ou igreja.

Tem uma altitude de cerca 370m.

Sepulturas escavadas na rocha

Breve Introdução

Teriam sido escavadas por eremitas ou grupos organizados (pequenos grupos talvez itenerantes de operários. Corresponde a um rito e não era a sepultura talhada ao acaso. Talvez até houvesse uma série de preparativos e rituais.

A pedra escavada era escolhida, segundo a dureza, segundo a forma a escavar, a medida a utilizar e procedia-se à escavação. Existem assim sepulturas com as formas perfeitas, outras apenas delineadas e outras ainda não completas a nível do corpo, o que se pode ver neste trabalho e nas descobertas arqueológicas mencionadas.

Verifica-se ainda que as formas são arredondadas ou quadradas, o mais parecido com o corpo humano.

Estas sepulturas eram destinadas provavelmente às famílias de maior prestígio e de maior possibilidade económica, isto porque o número das encontradas é sempre muito reduzido. Os grupos maiores talvez correspondam a aglomerados maiores.

O facto de serem escavadas numa rocha e não na terra (que é mais fácil), poder-se-á traduzir no facto de quererem que o tempo não limpasse, não esquecesse aquele ou aquela pessoa, que provavelmente teria sido importante para o grupo, comunidade. Também se pensa que no decorrer do tempo as mesmas foram utilizadas por outras famílias.

Começa a aparecer no final do século Xl o enterramento nas Igrejas, começaram também a ser destruídas, esquecidas, tapadas e utilizadas para outros processos as sepulturas escavadas na rocha, que então existiam.

Muitas interrogações se colocam acerca destas sepulturas e as respostas são poucas e diversas.

Muitas em mau estado, outras por identificar, algumas apenas sabemos que existiam.

 

III- Sepulturas escavadas na rocha do Cumareiro (período medieval)

Localização;

Lugar: Cumareiro, ao lado da povoação de Póvoa de Cervães. Morro com bastante granito e alguma vegetação rasteira devido aos incêndios que em anos anteriores queimaram este local. A altitude deste local é de sensivelmente 403m.

Entra-se na povoação de Póvoa de Cervães pelo caminho municipal n.º 201 em direcção a Gouveia, localiza-se a lgreja Paroquial e o cemitério, do lado leste da Igreja e passando ao lado direito do cemitério encontra-se um caminho que vai dar ao local designado de Cumareiro.

Este local fica sensivelmente a 200 metros da Igreja Paroquial.

Neste local de espólio nada se regista, existe sim uma Necrópole com cinco sepulturas escavadas na rocha, parece que seriam mais só que, devido à destruição por parte da população por motivos vários restam apenas estas cinco. Todas se encontram separadas e com posições diferentes. São antropomórficas (forma de corpo humano), só que quatro são em formas arredondadas uma com forma mais recta, com ângulos rectos.

 

Descrição de cada uma:

 

Sepultura 1:

Esta sepultura é a que tem formas mais rectas, a cabeça forma mesmo ângulos rectos, é distinta dos ombros, estes fazem também ângulos rectos, os lados são em linha recta e paralelos. Afunila aos pés sendo estes bem demarcados. Esta sepultura é perfeita podendo mesmo ser comparada a uma urna actual. Pelas suas medidas é de um adulto.

Esta sepultura tem orientação NO/SE.

Medidas:

Comprimento: 170 cm

Largura da cabeça: 31 cm

Largura de ombros: 46 cm

Largura do meio: 38 cm

Largura dos pés: 26 cm

Profundidade: 26 cm

Sepultura 2

 

Descrição:

Distingue-se das outras, é antropomórfica, não tem forma perfeita, é um pouco disforme, quer na cabeça, quer nos pés. Assimétrica não tem por isso linhas direitas e simétricas, curva-se toda ela para o lado esquerdo. Pelo tamanho é uma sepultura de adulto.

Medidas:

Comprimento: 190 cm

Largura da cabeça: 39 cm

Largura dos ombros: 46 cm

Largura do meio. 50 cm

Largura dos pés: 39 cm

Profundidade média (nem sempre tem a mesma profundidade): 34cm

Esta sepultura tem orientação NO/SE

 

Sepultura 3

 

 

Descrição:

Os ombros parecem puxados para cima, tem forma um pouco diferente, a cabeceira tem forma original. É simétrica, os lados são paralelos e rectos. Tem os pés arredondados. É também antropomórfica. É uma sepultura de adulto devido à sua dimensão.

Medidas:

Comprimento: 184 cm

Largura de cabeça: 19 cm

Largura do meio: 40 cm

Largura pés: 10 cm profundidade média (devido a não ter sempre a mesma profundidade):18 cm

Devido a esta pequena profundidade dá ideia que não chegou a ser concluída.

Esta sepultura lá tem como orientação 50/SE.

Sepultura 4

 

Descrição:

Mais arredondada em todo o corpo, com inclinação para o lado esquerdo devido ao facto de a rocha ter uma falha do lado direito. Não tem simetria. É antropomórfica.

Medidas:

Comprimento: 170 cm Largura de cabeça: 41 cm Largura de ombros: 49 cm Largura de meio: 46 cm Largura de pés: 22cm Profundidade: 30 cm Esta sepultura tem também uma orientação diferente que é SO/NE.

Sepultura 5

Descrição:

Esta sepultura sobressai porque é aquela que se encontra em cima da rocha mais elevada em relação a todas as outras. Ao lado desta encontram-se seis covinhas escavadas na rocha. É assimétrica. Antropomórfica. Faz ângulos rectos nos pés e cabeceira. Tem forma diferente a cabeça é rectangular e muito pequena em relação ao corpo, que tem um acentuado afunilamento até aos pés.

Medidas:

Comprimento: 185 cm Largura cabeça: 31 cm

Largura dos ombros: 50 cm

Largura meio: 50 cm

Largura nos pés: 26 cm

Profundidade: (média porque não tem a mesma profundidade em toda a sepultura): 29 cm

 Esta sepultura tem orientação SO/NE.

 

Sepultura de Santa Marinha (Inédita)

 

 

Localização:

Lugar denominado de Santa Marinha, mas um pouco mais para Sul cerca de 200 metros. Entrando na povoação de Póvoa de Cervães localiza-se a Igreja e o cemitério. Segue-se pelo caminho em frente ao cemitério "caminho Velho" que segue em direcção ao Rio Mondego. Encontra-se um sepultura com orientação SO/NE. Encontra-se no meio de uma mata que ardeu e neste momento é bem visível no terreno. É monolítica, antropomórfica. A cabeceira não é bem redonda, e os ombros são desnivelados. Aos pés encontra-se partida não podendo saber como seriam, mas dá ideia de serem mais quadrados que arredondados. Pelo facto de não ser muito perfeita dá sensação de não ter sido finalizada. Os lados são paralelos. O local é uma mata, esta é a única pedra de maior dimensão que aqui se encontra, dando a sensação de ter sido deslocada para aqui. A pedra onde está escavada é toda ela arredondada dando impressão de ter sido toda em volta trabalhada, mas poderá ter sido com a erosão dos tempos. Medidas.

Comprimento: 1.65 cm

Largura da cabeça: 24 cm 

Largura de ombros: 40 cm 

Altura da cabeça aos ombros: 25 cm

 

 

Natália Carvalho Mendes

Trabalho realizado para a disciplina de Arqueologia Professor Doutor Jorge Adolfo Marques

 

Bibliografia

Gomes, Luis Filipe C. E Carvalho, Pedro Sobral de "Terras de Azurara e Tavares" – O património arqueológico do concelho de Mangualde - edição da Câmara Municipal de Mangualde, 1992

Tavares, António Luís Marques, Sepulturas escavadas na Rocha no Concelho de Mangualde - edições ACAB, 1999

Correia, Alberto, Mangualde Roteiro Turístico edição Câmara Municipal de Mangualde, 1997

Grande Enciclopédia Luso Brasileira, editorial Enciclopédia, limitada, Lisboa - Rio de Janeiro

Marques, Jorge Adolfo de Meneses, Sepulturas Escavadas na Rocha na Região de Viseu, Viseu 2002

Viseu - Lugares no tempo edição LEMA - Cultura e divulgação Regional

Silva, Valentim, Concelho de Mangualde, antigo concelho de Azurara da Beira: Subsídios para a História de Portugal, Tipografia e Encadernação Alberto Oliveira, Lda, Porto,1945.

 

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 2003 Póvoa de Cervães