Prefácio do editor

 

Como se pode explicar que, ano após ano, milhares de jovens chumbem nas provas nacionais de matemática? Porque é que, por exemplo, na Alemanha os resultados desas­trosos do chamado estudo de PISA são larga­mente discutidos e motivo para reformas do sistema educativo em todos os níveis, enquanto, em Portugal, os resultados ainda mais preocupantes passam praticamente des­percebidos? Quem ouve o professor univer­sitário que desistiu de ensinar os resultados da sua investigação porque os estudantes só querem adquirir conhecimentos básicos imediatamente aplicáveis na vida ou no que se chama a prática profissional? O que é que se diz quando os alunos continuam a preferir cursos cujas perspectivas de emprego são mais que duvidosas e quando, ao mesmo tempo, os cursos 'de alta empregabilidade' estão à espera de estudantes vocacionados? Pode-se aceitar que os jovens continuem a escolher as letras como uma das áreas de formação mais procuradas, mesmo não sabendo das letras no sentido da ortografia e mesmo em tempos que, a ultrapassar o analfabetismo, chegaram ao iletrismo?

O cenário é de crise; e já o é desde que se verificou que existe uma estreita ligação entre a educação científico-cultural dos jovens e o bem-estar social de todas as gerações. Podia-se até dizer que a própria crise já tem a sua história e que esta história nos ensina, ao menos, uma lição básica: que em todos os momentos de crise nunca há uma só solução. Pelo contrário, a história do cenário de crise na área da formação científico-cultural exige a conclusão que devemos acabar com tudo que se apresente como solução definitiva. Definitivamente não há soluções definitivas. Também podemos concluir que a inexistência de soluções definitivas não significa acabar com o senso comum - ou o bom senso - que é a base de toda a partilha social. Neste sentido, e em boa hora, deve-se, portanto, ultrapassar algumas ideias fixas que herdámos do século XX. Entre a experiência adquirida e a visão do desejável abre-se o caminho do saber-fazer-bem.

Uma das ideias fixas do século XX que se verificou verdadeiramente desastrosa para a formação científico-cultural é a ideia da exis­tência de duas culturas distintas, ideia essa apresentada pelo escritor e físico Charles Percy Snow já em 1959. Snow falava de duas culturas que não tinham relações nem ligações, dividindo a sociedade, o saber, o ensino e a aprendizagem em duas áreas: de um lado as ciências naturais com a matemática e de outro lado as chamadas ciências humanas ou humanísticas - na tradição de uma discussão do século XIX em que se questionara qual o destino a dar à formação dos jovens: entre uma orientação mais 'humanística', quer dizer literária, e uma outra mais 'real' (para usar o termo alemão), quer dizer mais técnica.

Desde então a ideia das duas culturas foi largamente aceite e espelha-se ainda - por exemplo - na organização das Universidades e Faculdades e nos ramos do ensino básico e secundário. Na procura de uma mais rápida e eficaz especialização dos jovens pareceu necessário determinar e vincular opções de formação com objectivos e vias distintos. Desde esse momento os jovens e os seus pais encontram-se em determinada altura perante a questão: O que é que se deve aprender? Mas em vez de poder encontrar uma resposta própria e livre a esta questão, os jovens são obrigados a escolher entre duas alternativas: ou uma ou outra via. Porventura o engano e os futuros desentendimentos já oscilam neste momento de escolha entre duas falsas alternativas. Será que não há, na realidade, objectivos e conteúdos que podem e devem ser comuns na formação de todos os jovens, antes, durante e depois de todas as especializações possíveis? E não é dema­siado redutor dividir o mundo do saber em apenas duas culturas? Qual é a cultura comum de um matemático e de um veterinário que se dizem pertencer à mesma cultura das ciências naturais? E qual é a cultura comum de um sociólogo da sociedade do século XXI e de um conhecedor da filologia clássica que se dizem fazer parte da cultura das ciências sociais e humanas? Não será que a verdadeira distinção entre cientistas reside menos nos objectos de estudo do que nos métodos aplicados? Um matemático que repete mera­mente o que lhe foi ensinado sem procurar novos saberes é tão pouco 'científico' como um sociólogo que se limita a aplicar as teorias adquiridas durante o curso. A procura do saber e - para utilizar mais um termo histórico - a vontade de 'iluminar' o mundo é comum a todos os cientistas que merecem este título.

Partindo destas reflexões, podemos até ousar dizer que existem objectivos na formação que devem e podem ser iguais para todos. O zoólogo alemão Hubert Markl (Der Spiegel 32/2002 de 5 de Agosto de 2002) definiu estes objectivos da seguinte maneira: a formação deve preparar e estimular os jovens para serem cidadãos criteriosos e críticos, responsáveis para consigo, com os outros e com as condições de vida de todos. Devem ter consciência de onde vêm e a que pertencem, mas devem, ao mesmo tempo, estar abertos para o mundo e para a aprendizagem permanente, capazes de dar rumo e sentido à sua vida, baseando-se em valores partilhados e respeitados por todos. Não basta ser capaz de ganhar a vida - também os velhacos a ganham. Mas também não basta ser uma boa pessoa que se rende às virtudes; são essas que facilitam a vida dos velhacos.

Neste sentido não se pode dividir a formação em duas culturas; o resultado seria sempre uma pessoa semi-formada - para não dizer deformada.

É natural que o tal objectivo não se atinja nunca se os formadores insistirem na importância incontornável da matéria que pretendem ensinar. Uma verdadeira formação nunca aposta nos conteúdos ou na matéria (e ainda menos na tal ideia fixa de ensinar 'toda a matéria'), mas sim nos métodos e instrumentos para a resolução de problemas. Uma formação holística deve abrir-se, como escreve Hubert Markl, para diferentes formas de experiência e de entendimento, para preparar múltiplas vias de realização, que cada um escolhe consoante a sua vocação, o seu interesse e a sua iniciativa para uma melhor e contínua aplicação e exploração.

 

Os verdadeiros problemas do século XXI não se resolvem com as ciências naturais de um lado e as ciências humanas do lado oposto. Os próprios problemas situam-se entre estas 'duas culturas', onde estas culturas se tocam e se sobrepõem. 'Dazwischen' é um termo alemão para este lugar no meio, um termo que Dieter Wuttke escolheu como título da edição dos seus escritos. Desde os seus tempos como jovem investigador em Bona, Bremen e Göttingen, nos seus anos como Professor catedrático de filologia alemã em Bamberg e até hoje, Dieter Wuttke procurou ajudar na resolução de problemas que a divisão do saber em 'duas culturas' e várias disciplinas tendem a negligenciar. A conferência intitulada "Über den Zusammenhang der Wissenschaften und Künste" ("Para uma visão holística das ciências e das artes") é uma espécie de suma do seu trabalho e um convite aos jovens para aceitarem o desafio de novos caminhos de aprendizagem e dos saberes. Se já é uma aventura intelectual ultrapassar os limites falsamente introduzidos no mundo das ciências e das suas duas culturas, a proposta de Dieter Wuttke ainda é mais radical: "As chamadas humanidades são a ciência natural do mundo cultural do ser humano", conclui o historiador e filólogo. E mais ainda ‑ no seu entender, tanto as ciências (no seu todo) como as artes têm um objectivo comum: contribuir para conhecer e servir melhor o homem. Tanto as ciências (e cada uma por si) como as artes têm os seus métodos específicos para garantir resultados que vale a pena respeitar mutuamente.

 

Na versão portuguesa desta conferência colaboraram alunos e docentes do 'Gabinete alemão' da Universidade Católica Portuguesa em Viseu, que merecem reconhecimento pelo trabalho difícil e, ao mesmo tempo, estimulante que efectuaram.

O convite ao Prof. Dr. Dieter Wuttke só foi possível graças ao apoio do Centro Interuniversitário de Estudos Germanísticos com sede em Coimbra. Além da já tradicional colaboração nos estudos alemães entre a Universidade Católica Portuguesa em Viseu e o CIEG, com a sua Directora Prof. Doutora Maria Manuela Gouveia Delille, inicia-se com este volume um projecto comum de publicações.

O CIEG já dispõe de duas colecções de publicações - a das monografias em colaboração com a editora Minerva e os chamados cadernos do cieg. Agora a passagem editores e o CIEG lançam, em conjunto, o primeiro título de uma série que pretende ser interuniversitária (CIEG e Universidade Católica em Viseu), internacional e inter­disciplinar. Espera-se que esta opção pelo "Dazwischen" não seja só frutuosa como também um modesto contributo para a reflexão do estado do saber e da cultura.

 

 

Viseu, Outubro 2002

Peter Hanenberg