
"[...] Durante milénios, o homem deu à dificuldade uma solução mágica e, portanto, nenhuma solução. Mas certo dia teve uma inspiração genial e para detectar o animal cautíssimo recorreu ao instinto detector de outro animal, solicitou a sua ajuda. Esta é a entrada do cão na arte venatória, único «progresso» efectivo imaginável na caça e que consiste não no exercício directo da razão, mas, pelo contrário, em aceitar a sua insuficiência e o homem intercalar, entre o animal e a sua razão, outro animal.
Isto teria sido impossível se o cão por si não caçasse. O homem não fez mais que corrigir o seu estilo instintivo de caçar, moldando-o à convivência de uma colaboração. Deveria ter bastado este facto tão central na actividade caçadora do homem para que a ninguém ocorresse isolá-la por completo da caça geral que tantos animais praticam, atribuindo à razão um papel excessivo que faria desta ocupação humana algo totalmente novo. Aí está o cão, que era desde sempre e por inspiração própria caçador entusiasta. Graças a isso, o homem integra no seu caçar o caçar do cão e leva assim a caçada à sua mais alta complicação, à sua forma mais perfeita. Vem a ser o que na música foi o descobrimento da polifonia. E, com efeito, ao agregar-se a batedores e atiradores a gente canina, a caçada adquire não sei que majestade sinfónica. [...]"
José Ortega y Gasset
SOBRE A CAÇA E OS TOUROS – Ensaio - Edições Cotovia, Lda 1989
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A caça com cão de parar é para quem desfruta desta
actividade uma benção divina. Herdei do meu avô, esta motivação
cinegética, foi ele que me ofereceu a primeira carabina de pressão
de ar. Depois a vivência rural durante a juventude, o contacto com o campo,
caçadores e caça contribuíram para esta minha paixão,
comum ainda a muitos de nós.
Hoje, vivendo e trabalhando na grande urbe, vigorando o calendário venatório,
aí vou eu madrugada dentro em convívio com amigos e cães
respondendo ao chamamento da natureza... O futuro desta actividade dependerá
de sermos capazes de obter a compreensão dos cidadãos que manifestando
uma certa "urbanodependência" deixaram de contactar
com a relação vida e morte, predador e presa, no quotidiano da
natureza, e encaram o animal como algo que lhe devolve a companhia e o afecto
que os humanos lhe negam, no alucinante ritmo de vida da "selva" urbana
e nos consideram enquanto caçadores, seres primitivos e violentos.
Em relação ao espaço onde se desenvolve esta actividade,
numa altura em que por vezes surgem densidades de espécies cinegéticas
suportadas artificialmente, será de manter determinados princípios,
de modo a não perdermos a incerteza na jornada, os nossos cães
a crença e o instinto e, a caça a bravura.
A perspectiva modesta do autor desta página, pretende apenas, juntamente
com outras seguramente bem mais avalizadas, contribuir para que a
actividade venatória em geral, e com cão de parar em particular,
nomeadamente o PERDIGUEIRO PORTUGUÊS,
continue no futuro como actividade cultural, de princípios éticos, de
saber estar e agir na natureza, com meios adequados, cabendo-nos
enquanto caçadores a responsabilidade de escolher os limites onde nos
devemos situar.
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"[...] Ser caçador - não magarefe - é um estado de alma, uma bênção da natureza, que induz princípios de conduta, capacidades especiais, que nos conduzem, neste campo, à felicidade e à realização pessoal, com elevação e dignidade.
E este estado de graça, jamais alguém será capaz de o alcançar, se não tiver a capacidade de compreender e sentir o encanto e a magia do trabalho do cão que nos adora e nos faz sonhar. [...]"
Moisés do Nascimento Costa in "Caça & Cães de Caça, nº 97 - Novembro 2005"
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"Sinto a vida pelas épocas de caça e não pelos anos!... Tem sido à sombra da augusta Natureza, no seu generoso e fecundo seio, nas profundezas dos vales e na vastidão das pradarias, nas difíceis escarpadas dos cerros, sorvendo ares leves e bem-cheirosos, por horizontes largos e ravinas acanhadas, vendo e vivendo «coisas» cinegéticas com as bênçãos de Santo Huberto, sob o manto da inefável Diana e da magia envolvente do perdigueiro, que eu tenho passado os momentos mais altos e felizes da minha vida e encontrado as maiores e melhores amizades.[...]"
Moisés do Nascimento Costa in "O Ensino do CÃO PERDIGUEIRO" Porto Editora 1984
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"[...]
Mas há raças caninas, em geral bastante antigas, em que é
possível detectar uma "moldagem" humana e um conjunto de características
que a mão do homem "ajudou" a fixar geneticamente e resultam
claramente de uma processo de adaptação secular a factores característicos
do meio ambiente local, regional ou nacional em que essas raças são
criadas e desempenham a sua função, neste caso a caça.
É o que se passa com o perdigueiro português. [...]"
Jorge Rodrigues in "PERDIGUEIRO PORTUGUÊS O Cão de Parar" Edições inapa Lisboa 1993
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"[...]
Mas a forma de caçar modifica-se com os tempos, em virtude das mutações
do meio envolvente. Essas alterações levaram a que o Homem sentisse
necessidade de ter um cão que, para além de encontrar a caça,
se imobilizasse e imobilizasse a mesma com a sua presença. Se esta vertente
específica e bem diferenciada de todos os outros cães de caça
surgiu e se desenvolveu por uma questão de natureza prática, ela
veio a ter uma maior e melhor evolução quando a caça assumiu
um papel fundamentalmente desportivo. [...]"
Jorge Piçarra in "Em Honra do Cão de Parar" TEMA 1998
