Da Caça... Histórias - "Adeus Lebre"

O Perdigueiro Português um Património Sociocultural

Perdigueiro Português Macho - Morto por atropelamento em 14/08/2003As épocas de caça sucedem-se normalmente umas a seguir às outras com maior ou menor sucesso, e cada uma com histórias, merecedoras de destaque.

Para quem, como eu aprecia e vive intensamente a actividade cinegética, mais marcantes se tornam as suas vivências, sobretudo quando entram em cena a espécie cinegética, o cão e o caçador , cada um com o papel que lhe coube em "sorte" nestas "lides" da caça.
O episódio que vou relatar reporta-se à época venatória 1997/98, sendo testemunhado pelos amigos e companheiros de sempre, nestas andanças. Alexandre, António, Eduardo, Manuel e Vicente, em campos do Alentejo, no último dia do calendário venatório para caça de salto à Lebre.
O meu perdigueiro português tinha completado um ano em Maio embora novo evidenciava já grandes aptidões cinegéticas, por vezes com lances um pouco largos mas com uma paragem segura e uma busca perfeita, lateralizando muito bem, com a particularidade de o ano ter sido fértil em codornizes, o que contribuiu, para grandes mostras e paragens espectaculares, às quais nem sempre correspondi da melhor forma. Mas, como o assunto que me propus relatar se refere a lebres, vamos aos factos.

Dizia eu no início desta minha "charla" que cada temporada de caça tem sempre os seus particulares, que revivemos ao longo dos anos, e que, para os amantes destas coisas, se contam pelas épocas de caça, e são tema de conversa quando se juntam amigos e companheiros destas "artes".

Como era o último dia de caça às lebres, e o ano não nos tinha sido fértil no tocante a esta espécie, saímos cedo em direcção ao Alentejo, com destino a Beja, a fim de nos juntarmos ao amigo António, que já tinha definido a volta para os lados de "Barbas de Lebre", nome sugestivo e prometedor para quem tinha vontade de caçar as ditas. O tempo não ajudava, prometia chuva, como de facto se veio a confirmar, pois choveu praticamente todo o dia. Ao fim de mais ou menos meia hora do início da jornada, o meu perdigueiro fez uma "paragem". Tomei posição, acelerei um pouco o passo na tentativa de ganhar terreno e acompanhar mais de perto o cão que encetou uma busca mais cautelosa e direccionada, a "bom vento". Guiando avançava mantendo a ligação. Era uma encosta um pouco íngreme, semeada de aveia cuja seara já tinha algumas zonas bem crescidas, para a época. Ao chegar ao cimo, o cão, pára e fica seguro, mas quando me preparava para ver se descobria o "bicho", salta uma lebre. Retraio-me um pouco, na tentativa de atirar na melhor distância, e ao "desenrolar" do animal, disparo... .A lebre dá uma "cambalhota" e endireita-se de seguida, correndo para a minha esquerda, ainda na zona de tiro. Refaço a pontaria corrijo a distância, aperto o gatilho, o tiro não sai, fico "pendurado na gatilho". Adeus lebre! Tento verificar o que se teria passado com a minha «semi-automática» e vejo que a extracção do cartucho do primeiro disparo não foi bem feita, dando origem à não entrada na «câmara» do segundo cartucho.

No meio deste episódio, o meu perdigueiro, arrancou no rasto do animal. Eu desanimado, pela oportunidade perdida, retomei a minha posição na "linha", sem sequer me lembrar, por momentos nem da lebre, nem do cão.

Quando me refiz do desaire, olho em redor procurando ver o perdigueiro. Qual não é o meu espanto, que lá bastante longe, talvez a mais de um quilómetro, no cimo dum cabeço, descubro o cão, trazendo algo branco na boca (a pelagem da barriga as lebres é de grande brancura). Será uma Garça Boieira (v. Carraceiro)?... Comentei, em tom de graça! Depois de percorrer a grande distância que nos separava, chegou junto a mim com a lebre que eu já dava como perdida.

O António apercebendo-se do feito e apreciando o "cobro" do animal, que espumava e arfava por todo o lado, pelo esforço despendido, afirmou:

- Olha se quiseres vender o cão, compro-o já... E riu-se! Eu ri-me também mais satisfeito pelo feito do Perdigueiro Português do que pela lebre recuperada.

 

Alentejo, Dez. / 97
Luís Ribeiro

 

Imagens:Associação do Perdigueiro Português(APP), Luís Ribeiro e "Caça e Natureza - O Perdigueiro Português" Calibre 12, Editores SA | copyright © Luís Ribeiro

Made