Da Caça... Histórias-"Perdizes Fantasmas"

O Perdigueiro Português um Património Sociocultural

Perdiz Cinzenta (Perdix perdix)No Primeiro ano em que comecei a caçar em Andorra às Perdizes cinzentas pouco ou nada sabia dos seus usos e costumes.
Por isso sempre que em amena cavaqueira entre amigos o tema era a caça das "charrelas" em alta montanha, a minha curiosidade aumentava. Isto porque, segundo experiências vividas por estes amigos, esta perdiz tornava-se mais difícil que a nossa brava perdiz vermelha, ao ponto de depois de 2 ou 3 levantes nunca mais, lhes ver a cor das penas.
Um belo dia, suponho que no 2º ou 3° Domingo de caça eu e dois companheiros encontramos um desses bandos ."fantasmas".
Caçávamos há duas ou três horas sem ver uma perdiz, decidimos passar à vertente contrária da montanha que estávamos a caçar (isto a cerca de 2800 metros de altitude, com cerca de 3 a 4 graus negativos e um ventinho de arrepiar os bigodes). Ao passar um Ribeiro, comecei a subir em diagonal a outra parte da montanha e nisto levanta um bando de 12 a 15 perdizes, sem que os cães se apercebessem.
Embora largas saudei-as com 2 tiros, sem nenhum resultado prático. Os companheiros que estavam mais elevados, pois eu fazia a parte mais baixa, viram onde as perdizes pousaram. Colocámo-nos em linha e por sorte com o vento de cara começamos a caminhar lentamente, para deixar trabalhar os cães à vontade.
A mais de 300 metros, levantaram 4 ou 5 perdizes, e à medida que nos aproximávamos iam levantando pouco-a-pouco sem haver possibilidade de atirar.
Das últimas perdizes, duas delas, e não sei porquê, voaram para trás, passaram dentro de tiro e caíram as duas.
O companheiro que ia mais alto voltou a ver as perdizes pousarem. Definimos a estratégia de "ataque" e eu como já tinha morto duas perdizes, alinhei um pouco mais pelo .'fundo" e eles foram directos ao sítio que as perdizes pousaram.
Aqui começou a desenhar-se a teoria das perdizes "Fantasmas". Abro um parênteses, para explicar que na montanha que caçávamos, a vegetação era somente erva seca de 15 a 20 cm. de altura, montanha esta, com ligeiras ondulações, mas com forte inclinação.
Quanto aos cães que nos serviam, os dois companheiros tinham 3 excelentes Bracos Alemães de grande nariz e bastante experientes.
E eu caçava com dois nacionais, um cão: o Dick, e a cadela: a Pérola de Mibafe, respectivamente.
As perdizes tinham feito um voo de mais de 700 a 800 metros, razão pela qual o companheiro não sabia o sítio exacto onde "aterraram".
Para que os companheiros, ficassem na "direcção" das perdizes, baixei uns 100 metros em relação à linha que trazia anteriormente.
Quando nos aproximamos do lugar que parecia haver pousado, parei, para no caso das perdizes "meteram" montanha abaixo poder ver a direcção do voo.
Surpresa!!! - as perdizes não estavam. Devido ao relevo da montanha, vimos que as perdizes não tinham levantado, o meu cão ia mais por baixo, e a cadela estava a uns 20 metros por cima de mim.
A cadela levanta a cabeça e fica "estática". Fiz sinal ao companheiro mais próximo, que estava numa elevação do terreno, mas nesse momento arranca a perdiz, a uns bons 40 metros, não havia tempo a perder, pois o companheiro da posição em que estava nem sequer podia ver a perdiz.
Atirei rápido e consegui matá-la, formou-se o típico "reboliço", cães para cima, cães para baixo, mas claro como a cadela a tinha visto cair foi mais rápida e apanhou-a.
Ficamos todos à espera que saltasse o bando, mas em vão. Indignado, pensei, caminharam e estarão mais à frente, tão pouco, os cães não davam sinais de nenhuma saída das perdizes.
"Batemos" o terreno para a frente, para trás, por cima, por baixo a favor e contra o vento e nada nem penas (parecia obra do diabo).
Isto seria sobre as 10h30 ou 11 h00 da manhã, resolvemos comer a "bucha". Quase não comi, dando voltas ao miolo. Tinha que haver uma explicação. Se as perdizes não levantaram, como podia ser a cadela parar uma e as outras não saírem. Se elas tivessem caminhado o Dick tinha-lhes encontrado o rasto, pois tenho total confiança no cão (porque é um cão muito experiente a seguir os rastos e a "tirar" de ferido).
Só poderia haver uma explicação: as perdizes tinham que estar onde a outra levantou, pois se há coisas que eu não acredito é em Fantasmas.
Acabamos de comer, demos um "beijinho" final à "bota" que na circunstância transportava um Tinto Maduro do "Dão".
Talvez tivessem transcorrido 45 a 50 minutos. Por iniciativa minha voltamos ao mesmo local que matei a perdiz.
Cerca de 60 ou 80 metros do sítio em que a perdiz caiu, o cão parou, a cadela respeitou a paragem.
Os dois companheiros iam mais "altos" fiz-lhes sinal.
o cão fez uma guia sobre as perdizes de mais de 600 metros, nunca perdendo o contacto comigo, esperando sempre que eu parava para acertar posições com os companheiros.
O cão e a cadela "estacaram" não podiam avançar mais.
Fiz um gesto de aviso, pois sabia que estavam ali, como de facto, passei à frente dos cães e começaram a levantar perdizes para todos os lados.
Estava explicado o enigma, que tanta curiosidade me causava. Pois esta perdiz cinzenta de alta montanha uma vez perseguida opta por mimetizar-se e reter as emanações. "Um autêntico bico-de-obra para os melhores cães".
Confesso que fiquei feliz, e ao mesmo tempo orgulhoso destes dois Perdigueiros Portugueses, que demonstraram adaptar-se a qualquer tipo de clima, terreno e caça dando um excelente rendimento.

Andorra, 20 de Dezembro de 2000
Ernesto Matias

In "Boletim da Associação do Perdigueiro Português N.º 39"

Imagens:Associação do Perdigueiro Português(APP), Luís Ribeiro e "Caça e Natureza - O Perdigueiro Português" Calibre 12, Editores SA | copyright © Luís Ribeiro

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