O Perdigueiro Português na caça
[...] “A caça é um tema que movimenta forças, cria polémica e suscita discussão como poucos outros. É tão grande o interesse que, em toda a época e qualquer lugar, suscitou e suscita a caça, se escreveu tanto sobre ela, que se torna difícil acrescentar alguma coisa verdadeira e inteiramente original sobre o tema.
[...] Os que conhecemos a actividade venatória percebemos ainda mais esse entusiasmo, esse impulso, porque nele participo há mais de um quarto de século de fadigas e serranias, de sacrifícios e perigos nada desdenháveis, de disciplina e de rigoroso treino. [...]”
Mário Fernando Ramos do Carmo Pereira Bastos in O PROBLEMA VENATÓRIO NO ALENTEJO: Caça, Costumes e Tensões Sociais (1974-2000) Tese de Doutoramento em História Contemporânea - UNIVERSIDADE DE LISBOA – Faculdade de Letras – Departamento de História
A caça, sendo uma das actividades mais antigas a que homem se dedicou, não perdeu ao longo dos tempos, nenhuma da influência que exerceu, e exerce, no nosso comportamento enquanto caçadores ou não. São poucos os indiferentes a esta actividade.
Mas se assim é, a caça com cão de parar, a que me vou referir, pelo que envolve, pelos intervenientes, e pelo que representa, é em meu entender um dos expoentes máximos da actividade cinegética.
Tem sido este meu envolvimento na caça, com a singular companhia do Perdigueiro Português, raça muito antiga, mas que o tempo não fez desaparecer, antes pelo contrário refinou e melhorou algumas das suas potencialidades, de modo a que, para além do excelente cão de caça que sempre foi e deverá continuar a ser, comece hoje em dia a surgir em actividades ao lado de raças veteranas nestas andanças. Refiro-me claro, à participação do perdigueiro nas provas de trabalho.
Mas se estas são e devem ser a montra de exposição avaliação de desempenho e selecção para criadores e amantes do nosso cão, a caça, deve ser o laboratório onde os caçadores e utilizadores do perdigueiro, têm o dever à luz dos conhecimentos de que hoje dispomos, fazer com que este cão não perca a verdadeira essência para que foi criado, isto é, um cão de caça.
Por opção caço quase sempre em grupo, o que, condiciona a prestação dos cães. Assim, não querendo ser diletante, mas com objectividade e sentido prático, serve tal, para retirar ilações sobre o comportamento do cão em presença. Nestas circunstâncias, saem realçadas algumas particularidades, evidentes em determinados cães, as quais podemos aferir. A título de exemplo, a timidez, o nervosismo em excesso, o desnortear, a ligação ao condutor, a resposta ao chamamento, a paragem por simpatia, o respeito ao levante, etc. São aspectos que podemos e devemos anotar, em relação aos nossos cães. Em meu entender, fruto da utilização prática que faço desta raça e com base também em afirmações dos bons conhecedores, uma das principais características do nosso cão, como se comporta na busca, como procura a caça, como cobra de ferido, é, “caçar para o caçador”. Estou a falar da caça utilizando o cão de parar, e, como é óbvio, não de provas de caça em que a prestação do cão é avaliada à luz do estalão respectivo e dos rígidos regulamentos para este tipo de eventos.
É com esta premissa que vou relatar factos que servirão como exemplo paradigmático, daquilo que penso deve permanecer no nosso cão. Tendo como interveniente o cachorro que aparece nas imagens desta página, a fazer umas habilidades no jardim, com apenas dois messes e agora passados dois anos, é o protagonista desta acção de caça, pondo em prática os parcos ensinamentos que o dono lhe ministrou, algum treino, e por sua vez evidenciando também, todo o seu potencial genético.
É meu entendimento, que os cães bem ensinados, bem treinados para estes resultados práticos, têm como consequência o surgimento de cada vez mais e melhores perdigueiros na caça e em provas deste figurino. O que tem resultado na mostra de bons cães oriundos de criadores que atentos, vão aperfeiçoando as suas linhas de reprodutores. Mas isso são outras “músicas”, para as quais alguns, profetizavam, o nosso “nacional” nunca daria “baile”.
É comum dizer-se que a incerteza na jornada nos motiva e faz sonhar. Cada madrugada, após noite mal dormida, ainda hoje ao fim destes anos todos, nunca durmo bem, em véspera de dia de caça.
Quando “penduramos” uma peça trabalhada pelo nosso cão, bem cobrada por este, sobretudo quando não cai redonda, em sitio limpo e de bom acesso, onde qualquer “lulu” cego ou manco faz figura, um bico de obra para ter um final a contento, no recuperar a peça abatida, o lance bem sucedido, torna-se motivo de orgulho e elevada realização, logo ali com os companheiros a ajuizar, este comportamento, esta ou aquela prestação. É este objectivo que nos motiva e faz sonhar.
Não podemos estabelecer uma causalidade directa, mas, com certeza consequência destes comportamentos na caça, hoje em dia, ao invés do caçador matador que infelizmente alguns ainda teimam em manter, que cada vez mais o nosso perdigueiro aparece, a dar conta do recado em provas para cães de parar, como já fiz referência.
Caçando este ano mais amiúde, numa zona de caça, gerida pelo clube de que sou sócio, às lebres e perdizes, devo confessar que depois de uma primeira jornada em pleno, quer em resultado, quer na prestação do meu perdigueiro, tive uma, que não sendo para mim tão conseguida em termos de caçada, estou a falar de peças localizadas, trabalhadas, paradas e cobradas, o foi em desempenho do perdigueiro que utilizo, numa situação de cobro difícil.
São episódios destes, que me levam a esta reflexão, que aqui apresento e relatam a prestação de um perdigueiro, numa situação real, de caça real, com espécies verdadeiramente bravas, naquela que é a seguir à imobilização da peça, em qualquer modalidade que utilize o cão de parar, uma fase crítica, sobretudo pelo que representa, e pelo resultado, isto é, o cobrar de ferido.
No ambiente de caça, não devemos estar à espera que o cão vá cobrar depois da ordem. Embora, por experiência própria, saiba que em determinadas circunstâncias, a resposta do cão sujeita a condicionamentos bem treinados, e oportunos, melhoram em muito a prestação do animal. Até na recuperação da peça abatida, o que por vezes faz a diferença na jornada de caça, entre trazer o “chibato”, ou não.
É através da observação, do ensino e do treino, dum modo constante e permanente, no ambiente verdadeiramente indicado, isto é, no campo que aperfeiçoamos os bons desempenhos.
Embora não sendo praticante das provas com cão de parar, entendo que só assim podemos aspirar a conseguirmos bons resultados, não só na caça, mas também nas provas de competição, permitindo mostrar as aptidões dos nossos cães e ao mesmo tempo avaliar a sua evolução no todo da raça. Sendo uma raça que entrou tarde na competição, já começa a obter bons resultados. Como referi anteriormente, tais resultados, para muitos nunca seriam atingidos pelo Perdigueiro Português.
Para tal contribuíram, e contribuem aqueles que acreditam nas potencialidades do nosso perdigueiro e que o vão preparando especificamente para estes eventos. Mas também muito contribuiu a teimosia e persistência de todos aqueles que ao longo dos anos, sem preocupações de grande rigor técnico, à luz da competição, mas numa perspectiva essencialmente prática, o foram utilizando na caça. Num tempo em que a caça, verdadeiramente dita escasseia, a preferência pela sua utilização, como cão de parar, é importante e necessária para a sua continuidade. Pessoalmente, acredito cada vez mais no Perdigueiro Português, pois tenho razões para tal.
Nesta linha de pensamento, proponho-me apresentar duas situações que paço a descrever resumidamente, e ilustram o que acabo de dizer, particularmente quanto ao "cobrar de ferido".
Numa jornada de caça, eu e os meus companheiros encontramo-nos com um outro grupo, levantam-se algumas perdizes, um confrade derruba uma que vejo cair. Quem atirou levava cão começou em grande algazarra “... Aqui, aqui, aqui ...” naturalmente alguns cães correm ao tiro ou ao chamamento. Não sei! Desvio o meu deste filme, uma vez que já lá estavam, calhando sete cães, não a um osso, mas em busca da perdiz, ou sabe-se lá...
Após distanciar-me algumas dezenas de metros lanço-o novamente. Percorri alguma distância com andamento um pouco condicionado pelo coberto e pelo terreno, oiço um disparo do companheiro Badalo que ia à minha esquerda. Subo a um ponto mais alto e localizo-o quando ele me chama dizendo que também tinha derrubado uma perdiz, que a viu cair, mas não a encontrava. Desloco-me para o local uma vez que ele caçava sem cão nem gato. Quando cheguei junto dele já tinha em volta de um carrasco, um terreiro mais pisado que um campo de futebol em dia de jogo.
Chamo o meu cão e incentivo-o, na busca, circunda o dito carrasco e a partir dali o animal faz alguns ziguezagues, cabeça bem levantada sorvendo ventos, ardilosamente com meia dúzia de lances dá um primeiro sinal de localização e começa a dirigir-se cuidadosamente, “semiamarrado”. Faz uma aproximação, percorrendo mais de 30 metros e bloqueia. Como ficou imobilizado deduzi que seria aquilo que procurava-mos, a perdiz. Disse ao Badalo para se aproximar do cão, ao que ele acedeu de imediato, mas calmamente, o que contribuiu para eu apreciar a “cena”, com os companheiros a referirem a paragem do perdigueiro, bastante prolongada, diga-se em abono da verdade, a perdiz ferida não fez qualquer tentativa de fuga, ficando imobilizada até o meu companheiro dar ordem ao cão e este a abocanhar.
Os outros confrades creio que ainda agora chamam cães para encontrar a perdiz que um deles derrubou.
Esta outra situação, no mesmo dia, tem algo de bizarro, sobretudo devido ao facto de as perdizes, estarem em cima duma oliveira. Manhã alta íamos de regresso ao local onde iniciamos a jornada, passando num olival velho, com árvores de troncos majestosos, copas grandes e fechadas.
O grupo já afunilando ia descontraído, eis senão quando, o meu cão, que ainda “batia” terreno com alguma entrega, pára, apontando alto, na direcção de uma oliveira. Fico em alerta, já calculando por experiência, o que se veio a confirmar, tratar-se de perdiz, subida na árvore. Tentei logo posição mas a situação era difícil. Copas densas, árvores muito juntas, a “vermelhinha” vai saír como de costume ao oposto onde nos encontramos, não permitindo atirar.
O cão parado numa pose fora do normal, cabeça levantada, todo empertigado, quase a pôr-se de pé pela emanação alta, coisa nunca vista.
Coração aos pulos tento conseguir o impossível.
Nisto não uma mas três perdizes, saem com grande estardalhaço ao encoberto da oliveira, e eu nem vê-las, quanto mais atirar-lhe.
Oiço disparos, baixo-me, e vejo, por entre as árvores, cair uma e encetar grande corrida depois de bater numa vedação, bastante afastada do local onde me encontrava.
O amigo Zé Castanho, foi quem atirou, corre na direcção do local e tenta transpor rapidamente a vedação, o que faz com alguma dificuldade, depois de outros dois companheiros terem também eles auxiliado os seus cães a transpor o aramado.
O piso era limpo, aplanado, sem qualquer vestígio de vegetação ou algo que permitisse camuflar fosse o que fosse, a não ser o próprio chão.
“... Foi aqui que deixei de a ver tem que se encontrar por aqui,... tem que ser aqui!...” Dizia angustiado o Castanho.
Parado do lado de fora da vedação eu, e agitado o meu perdigueiro, que deambulava dum lado para outro, empinando-se à cerca, entusiasmado pelas correrias dos outros cães do lado de lá. Como não havia meio de localizarem a perdiz, transpus calmamente a vedação e como já lá estavam quatro cães par além dos respectivos donos, resolvi também passar o meu.
Aproximei-me sem grande convicção deduzindo que a perdiz já estaria a “milhas” de distância dali.
Chegado ao local, enquanto o observava, na tentativa de perceber até onde o instinto de sobrevivência terá levado a nossa “finória”, o meu amigo ia descrevendo os últimos movimentos da perdiz, antes desta se “eclipsar”.
Chamei o perdigueiro para o meu lado e conduzi-o até junto do único elemento destoante, daquele chão completamente despido, um minúsculo feixe de rebentos de oliveira, arrancados e secos.
“...Foi por aqui assim mais ou menos que a vi pela última vez!...”. Afirmava o Zé Manel Castanho.
Incitei o cão a farejar naquele local e quase de imediato o cão lançou-se, ventas coladas ao chão, qual cão "peugueiro", na direcção de uma toca existente na base do tronco duma oliveira, situada aí a uns dez metros do local onde nos encontrava-mos e na direcção oposta ao sentido da corrida que a perdiz levava quando foi vista pela última vez.
O perdigueiro parou uns breves instantes apontando o buraco e tentou logo meter o focinho. Eu, já tendo vivenciado situações idênticas, disse ao meu amigo Zé Castanho para ir e tirar a perdiz do buraco que de certeza estava lá. O homem, não muito convencido, lá mete a mão e diz-me que não encontra nada. Torna a procurar, braço lá dentro até ao ombro e nada.
Eu não conformado, embora com a reserva de ser um cão que nunca tinha sido confrontado com tal situação, resolvi ir também investigar a minúscula caverna. Não era muito grande, sem grande esforço chegava-se com os dedos a todo lado, mas de facto na primeira sondagem, não toquei em nada que pudesse ser a dita perdiz.
Quando vinha a recuar o meu braço para fora, toco em algo macio com a costa da mão (as penas da cauda). Volto a palma da mão, e, na única reentrância que existia no tronco para cima, lá estava toda comprimida, a “alectoris rufa”, de seu nome científico.
Com esta reflexão, consequência directa das minhas vivências nestas andanças, pretendo apenas e só realçar o que par mim enquanto caçador utilizador do cão de parar Perdigueiro Português deve ser tido em conta por todos aqueles que tem responsabilidades na continuidade da raça, e, que por interesses marginais, sejam eles de ordem económica, de moda, de estética, ou qualquer outra, não deixem o perdigueiro perder aquilo que o diferencia doutras raças, e que faz dele um cão completo, e, à semelhança do povo que o criou, utilizou ao longo de muitos séculos, sabe lidar com situações difíceis. Para os verdadeiros caçadores com cão de parar, “não deixar caça no terreno”, “caçar para o caçador”, significa ter um cão polivalente, o melhor em todas as vertentes, ser essencialmente prático.
À guisa de conclusão entendo que a caça é colaboração, é partilha, saber estar e agir, para lá de tantas coisas boas que desfrutamos nesta actividade. Para mim sempre na companhia imprescindível do perdigueiro. Mesmo nos dias em que poucas oportunidades nos surgem, no entanto podemos e devemos contribuir para por em prática e mostrar as potencialidades do nosso cão, que, como diria Moisés do Nascimento Costa, o cão que nos adora e nos faz sonhar.
Campo Maior, Nov. 2006


