Do Perdigueiro... Apontamentos

O Perdigueiro Português um Património Sociocultural

 

O Perdigueiro Português nas provas de trabalho

 

O Perdigueiro em "Patron" (paragem por simpatia)Com mais de seiscentos anos de história o Perdigueiro Português é sem dúvida uma das poucas raças de cães de parar cujas características são mais fruto de uma paulatina adaptação aos terrenos, clima e espécies cinegéticas que procurava, do que à influência humana.

Se observarmos a sua evolução ao longo dos séculos, de um modo comparativo com outras raças de cães de parar do sétimo grupo (cães de parar), dois aspectos ressaltam de imediato:

é uma das mais antigas, tendo até contribuído com o seu património genético, para a formação de muitas outras, com destaque especial para o Pointer, seu descendente directo;

apesar da sua longa existência, de entre aquelas que habitualmente podemos observar na competição, foi a que mais tarde começou a ser trabalhada de um modo verdadeiramente cinotécnico, para se poder ajustar e adaptar o seu comportamento aos regulamentos da competição.

Toda a influência humana, e alguma houve por parte dos caçadores ao longo de toda a sua existência, teve sempre como primeira preocupação a eficácia.

Era preciso que encontrasse a caça, era preciso que a recuperasse depois de abatida, mas o modo como isso acontecia, para a maioria dos caçadores era irrelevante.

Se a peça abatida tinha ou não sido bem "amarrada" pelo cão, isso era secundário. Poucos eram aqueles para os quais o prazer de caçar não estava na quantidade de animais abatidos, mas sim no comportamento exemplar do cão, seu companheiro, capaz de, com astúcia, saber utilizar todo o seu instinto de busca, poder olfactivo e instinto de paragem.

Assim sendo o perdigueiro português foi fixando no seu património genético todas as características que o caçador entendia serem as necessárias para lhe permitirem aumentar a eficácia ou seja, proporcionarem ao caçador o maior número possível de capturas.

 

Esta influência humana fixou comportamentos que numa perspectiva exclusivamente cinotécnica são, alguns de preservar e outros de rejeitar:

entre os primeiros, aquele fabuloso instinto de ligação ao caçador, verdadeiramente inato, que me atrevo a dizer não existir em nenhuma outra raça;

mas como os extremos se tocam e não há bela sem senão, a qualidade atrás referida transforma-se por vezes num defeito, pois quando a ligação é levada ao extremo surge a falta de iniciativa, a inibição, a falta de paixão pela caça, em resumo, a ineficácia. Nem mesmo se parar bem, nestas condições, serve para grande coisa.

Mas, de há uma vintena de anos a esta parte surgiram as primeiras preocupações no sentido de trabalhar todas as potencialidades, que são muitas, do perdigueiro português para que este possa ocupar o lugar de destaque, que por mérito próprio já vem tendo, na competição dos cães de parar.

No entanto, vinte anos são uma gota de água no oceano se atentarmos que, algumas das outras raças vêm, desde o século XVIII a ser preparadas no sentido de melhorar não apenas a eficácia mas também a "nobreza" das condutas que espelham a receptividade ao ensino que, por sua vez se transmite, progressivamente, de geração em geração.

É por isso que a competição dos cães de parar é inequivocamente imprescindível para fazer evoluir qualquer raça, visto que estimula o trabalho dos criadores e adestradores, o que conduz à evolução das qualidades naturais e consequentemente ao aparecimento de um maior número de bons reprodutores. Posso garantir que os filhos dos cães que ensinei e que atingiram prestações semelhantes às dos pais foram, de um modo geral, mais fáceis de ensinar que os seus antecessores.

É um facto que os regulamentos da competição são exigentes para os cães adultos (paragem firme, respeito ao levante, respeito ao tiro, cobro à ordem, etc.) e que muitas destas exigências são irrelevantes na caça prática para o caçador normal, mas do que ninguém pode duvidar é que tem sido todo o trabalho efectuado, no sentido dos cães cumprirem estas exigências dos regulamentos, que potencía os instintos, equilibra o psiquismo e vai de geração em geração melhorando toda a receptividade ao ensino.

Na verdade não basta participar em Teste de Aptidões Naturais (TAN), provas Derby ou provas de Juniores, se algum contributo se quer dar à evolução de uma raça. Enquanto não estivermos em presença de um exemplar capaz de cumprir todas as exigências dos regulamentos da classe aberta não poderemos avaliar, na totalidade, as suas capacidades nem tão pouco criarmos expectativas quanto à sua possível influência para o desenvolvimento da raça. A "cabeça" como nós vulgarmente dizemos, ou seja o equilíbrio emocional, sem timidez e sem hiper-nervosismo, o instinto e a paixão pela caça, a capacidade de cumprir as ordens necessárias com naturalidade e tranquilidade só se pode avaliar em definitivo em provas de classe Aberta e só os cães que obtiverem classificações excelentes nestas provas, poderão dar garantias de contribuir para um desejável beneficiamento.

A base da pirâmide estará no TAN, na Derby e nas provas de Juniores mas são apenas um princípio e não um fim. Só por si de pouco servem, são apenas estagnação e os resultados positivos nelas obtidos, não devem dar cobertura à mediocridade. Nestas circunstâncias, torna-se necessário que passado o período de lançamento, concretamente no que se refere ao TAN, os critérios de julgamento se tornem suficientemente rigorosos para que todos os parâmetros, sem excepção, sejam devidamente apreciados.

Não se deve continuar a utilizar o TAN como "chamaril" à participação.

Essa fase está ultrapassada, sob pena de, se continuada, estarmos a prestar um mau serviço à raça.

Como já se referiu, vinte anos de trabalho são muito pouco tempo para que se possam obter os resultados desejados, quando comparados com outros já obtidos noutras raças, algumas já trabalhadas há algumas centenas de anos, mas também se disse que o perdigueiro português, apesar de tudo, já vem ocupando um lugar de destaque na competição dos cães de parar, para amargura dos seus delatores (?).

Na verdade, a Selecção Nacional Portuguesa de Sto Huberto, campeã do mundo, teve um perdigueiro português que ficou em 3° lugar na classificação individual.

Na verdade, de há bastantes anos a esta parte, que alguns perdigueiros portugueses têm obtido as classificações máximas, possíveis de serem atribuídas numa prova de trabalho, o CACIT.

Na verdade, a Taça de Portugal já foi ganha por um perdigueiro português.

Na verdade, alguns perdigueiros portugueses já obtiveram excelentes classificações e qualificações em trabalho, no estrangeiro.

Na verdade, em tempos recentes, os perdigueiros portugueses obtiveram as classificações máximas em competição com outras raças de cães estrangeiros, que nos têm visitado.

Mas o que certifica verdadeiramente esta evolução qualitativa é o facto de, contrariamente ao que acontecia há poucos anos atrás, possuirmos actualmente em plena actividade, um razoável número de perdigueiros capazes de em qualquer momento conquistarem excelentes e brilhantes classificações e qualificações.

E isto tudo apesar de alguns, em tempos não muito recuados, afirmarem, para quem quis ouvir, que a raça nunca se adaptaria aos regulamentos impostos pelos interesses de além Pirinéus.

Nunca farão "patron" (paragem por simpatia), diziam.

O seu carácter nunca lhes permitirá adaptar-se a tal circunstância.

Ainda bem que se enganaram redondamente.

Mas há outros muito mais perigosos. Alguns indignos profissionais do ensino dos cães de parar que, por razões de exclusiva rentabilidade económica, não perdem nenhuma oportunidade para amesquinhar e maldizer os perdigueiros.

Realmente não têm paciência para os perdigueiros, não se disponibilizam para utilizar com eles métodos e técnicas de ensino que requerem mais tempo, atenção e cuidados. Tempo é dinheiro e sendo assim, os perdigueiros não são rentáveis. Quando se têm 30 ou 40 cães para ensinar, que aprendem o necessário em duas ou três semanas, poderão ficar, no canil, os restantes meses, mas sempre a facturar. Com os perdigueiros, no estado actual da sua evolução, tal não é possível, por isso, não só se recusam a ocupar-se deles, mas também procuram desmotivar os potenciais interessados na sua utilização, denegrindo o seu valor. Preferem aproveitar-se do trabalho que outros já fizeram sobre outras raças, em épocas já recuadas, obtendo lucros mais fáceis e rápidos não só desportivos como económicos e mostram-se indisponíveis para participar no trabalho a efectuar com a raça do seu próprio país.

De qualquer modo a evolução funcional dos perdigueiros nos últimos anos tem sido de grande mérito em consequência do trabalho que muitos poucos têm feito sobre a raça e temos esperança que este reduzido número de pessoas se mantenha na disposição de, com o seu sacrifício e o seu saber, contribuírem para a sua divulgação e evolução.

 

Luís Carlos Fonseca in Boletim da Associação do Perdigueiro Português

 

Imagens:Associação do Perdigueiro Português(APP), Luís Ribeiro e "Caça e Natureza - O Perdigueiro Português" Calibre 12, Editores SA | copyright © Luís Ribeiro

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